É possível exaltar um sem esculachar o outro

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Papo Esportivo

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Vanderlei Luxemburgo é um dos técnicos taxados de "aposentados ainda em atividade" por alguns jornalistas / Rafael Ribeiro / Vasco
O respeito e a tolerância jamais podem ficar de fora dos gramados

Acredito nem mesmo Bertolt Brecht em toda a sua genialidade conseguiria manter um mínimo de sanidade diante do que eu e você andamos vendo nesses últimos anos aqui no nosso castigado, porém ainda muito querido Brasil.

Que tempos são estes, em que temos que defender o óbvio? - perguntava o dramaturgo alemão nos dias que antecediam a Segunda Guerra Mundial e a perseguição sistemática de Hitler. E este colunista faz coro: que tempos são estes em que temos que lembrar que respeito e tolerância são absurdamente necessários para se ter um mínimo de civilidade?

Já disse mais de uma vez que o futebol ajuda a explicar como uma sociedade pensa. Até mesmo um país. E nada como mergulhar no velho e rude esporte bretão para entendermos pelo menos um pouco do que vem acontecendo.

Este colunista já falou mais de uma vez (seja aqui neste espaço ou nos programas de rádio do Brasil de Fato) que Jorge Jesus e Jorge Sampaoli estão fazendo um bem imenso ao futebol brasileiro. Primeiro pela reoxigenada nas ideias. E depois por darem uma sacudida no nosso futebol.

Até aí tudo bem. O grande problema é que alguns colegas de imprensa acabam diminuindo e até depreciando o trabalho de técnicos já consagrados, taxando-os de “ultrapassados” e “arcaicos”. Alguns chegam a taxar certos treinadores de “aposentados ainda em atividade” (como se o simples fato de terem voz num programa de rádio ou TV ou espaço numa página de jornal concedesse o dom de aposentar alguém conforme a vontade). E os torcedores mais afoitos acabam indo na onda desses jornalistas que não conseguem medir as consequências do que falam e do que escrevem.

Não sei se vocês sabem, mas é possível elogiar o trabalho de um sem esculachar o trabalho de outro. É possível separar as coisas sem desrespeitar ninguém.

Aconteceu com Abel Braga, Vanderlei Luxemburgo, Adilson Batista, Luiz Felipe Scolari, Mano Menezes e muitos outros. Todos treinadores vitoriosos e com grande história no futebol brasileiro. Uns ainda estão no mercado. Outros já não gozam do mesmo prestígio e não vêm de bons trabalhos. O que é perfeitamente natural quando falamos de um esporte tão cheio de nuances como é o futebol.

Mas todos eles merecem o nosso respeito. Assim como os mais novos e os que vêm de fora do Brasil. São profissionais como eu e você. Simples.

Concordo plenamente que o velho e rude esporte bretão mexe com os brios de qualquer torcedor minimamente apaixonado por ele. Mas o respeito e a tolerância jamais podem ficar de fora dos gramados. Ao mesmo tempo, toda ideia preconceituosa deve ser combatida com a mesma velocidade com que se corre atrás da bola numa decisão de campeonato.

O grande Bertolt Brecht perguntava que tempos são esses em que precisamos defender o óbvio. São tempos difíceis demais para quem acredita que o respeito e a tolerância ainda têm espaço por aqui. A impressão que fica é que ninguém gosta de futebol nesse país. Gostam é de ter razão e de diminuir o outro.

Edição: Brasil de Fato (RJ)