FEMINISMO

Com maratona de shows, Festival Vivas nos Queremos celebra vida e luta das mulheres

Evento, que acontece dia 1º de dezembro, denuncia violência contra mulheres e afirma que outro mundo é possível

Belo Horizonte

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Foto da manifestação "Ele Não" em BH, às vésperas da eleição presidencial de 2018 / Caio Dias Couto / Mídia NINJA

No último dia 27, uma jovem de 22 anos foi a uma consulta médica e durante o atendimento foi assediada pelo seu ginecologista. Três dias antes, uma mulher tinha sido agredida por dois homens em um bar. A agressão foi motivada simplesmente pelo fato de que os homens não queriam que ela se sentasse na mesa ao lado. Na mesma semana, uma menina de sete anos resolveu procurar a polícia porque não aguentava mais ser violentada pelo padrasto.

Esses são alguns dos milhares de casos de violência sofridos diariamente pelas mulheres em Minas Gerais. Basta abrir qualquer site de notícias, ligar a televisão ou ler o jornal para perceber o aumento recorde dos casos de feminicídio e violência contra as brasileiras.

Em Minas Gerais esse salto foi expressivo, de 250% se comparando o primeiro semestre de 2018 com o primeiro semestre de 2019. Na capital mineira, cerca de 50 casos de violência doméstica são registrados por dia. Para denunciar esses índices alarmantes cantoras, artistas e batuqueiras protagonizam o Festival Viva nos Queremos.

O evento, organizado pela Frente Brasil Popular, traz uma extensa programação que vai de 10h até às 20h de domingo (1º de dezembro). Entre as atrações estão os blocos de carnaval Bruta Flor e Tutu com Tacacá e também apresentações de cantoras como Pri Glenda e Maíra Baldaia.

Para Bernadete Monteiro integrante da Marcha Mundial das Mulheres e uma das organizadoras do evento, o Vivas nos Queremos vem para mostrar que outro modelo de sociedade é possível. “A gente quer que o Festival seja tanto para denunciar a violência contra mulher, mas também para apresentar um projeto de sociedade onde as mulheres possam viver livres de violência” declara.

O evento é totalmente organizado por mulheres e as atrações são todas compostas por elas. No entanto, o evento é aberto a todos. “Como a violência já é algo cotidiano na vida das mulheres, a gente queria trazer esse tema de uma forma que pudesse sensibilizar as pessoas, mas mais profundamente que sensibilize as mulheres vítimas quanto os homens, para que se somem nessa luta contra violência”, afirma Bernadete.

Grito #EleNão ainda ecoa

O Festival Vivas nos Queremos é fruto da organização que as mineiras fizeram durante as eleições. Os atos #EleNão contra o então candidato à presidência, Jair Bolsonaro, levaram mais de um milhão de mulheres às ruas em todo o país. Os protestos ultrapassaram inclusive as fronteiras brasileiras. Na Argentina, França, Estados Unidos, Portugal, Espanha, Austrália, Reino Unido e muitos outros países as mulheres também se solidarizaram à luta das brasileiras.

Atrações já confirmadas:

Manas Com Vida

Baque de Mina

Baque Mulher

Bruta Flor

Maíra Baldaia

Pri Glenda

Tutu com Tacacá

Dolores 602

Relembre o manifesto publicado pelas mulheres às vésperas das eleições:

"Manifesto das Mulheres Unidas contra Bolsonaro

Por igualdade, liberdade, direito e uma vida sem violência!

Quem somos?

Somos mulheres, milhões e diversas. Somos brasileiras e imigrantes. Jovens e de cabelos brancos. Negras, brancas, indígenas. Trans e travestis. Somos LGBTs, amamos homens, mulheres ou ambos. Casadas e solteiras. Mães, filhas, avós. Somos trabalhadoras, donas de casa, estudantes, artistas, funcionárias públicas, pequenas empresárias, camelôs, sem teto, sem terra. Empregadas e desempregadas. Mulheres de diferentes religiões e sem religião.

Estamos, hoje, juntas e de cabeça erguida nas ruas de todo o Brasil porque um candidato à presidência do país, com um discurso fundado no ódio, na intolerância, no autoritarismo e no atraso, ameaça nossas conquistas e nossa já difícil existência. Estamos na rua porque seu programa político econômico é um retrocesso, uma reprodução piorada das políticas terríveis do Temer.

Quem é Jair Bolsonaro?

Jair Bolsonaro, atualmente do PSL, Deputado Federal há 27 anos, já foi filiado a 9 partidos e teve apenas dois Projetos de Lei aprovados em toda sua vida política.  Ele se apresenta como algo “novo” mas, é, na verdade, mais um “político de carreira” que trabalhou para eleger seus filhos e usufrui de privilégios, como o imoral auxílio moradia, enquanto milhares de famílias estão sem teto e lutam por um lugar digno para morar.

Porque somos contra Bolsonaro?

1. Jair Bolsonaro despreza negros, indígenas, homossexuais e todas as que lutam em defesa dos direitos das mulheres. Considera quilombolas “vagabundos”. Faz apologia à cultura do estupro. Diz que o nascimento de sua única filha mulher foi uma “fraquejada”. Insiste que não há nada a fazer quanto à diferença salarial entre homens e mulheres. Para ele, dar “porrada” em meninos impede que eles “se tornem” gays. Seu vice na chapa, o General Mourão, declarou que famílias criadas por mães e avós são fábricas de desajustados;

2.  Votou a favor do congelamento dos gastos com saúde, educação e assistência social por 20 anos. Promete aumentar impostos sobre os pobres e reduzi-los para os ricos. Já anunciou uma onda de privatizações, vendendo as estatais e todo patrimônio do povo brasileiro. É um dos autores do Projeto de Lei que defende que o SUS não é obrigado a atender mulheres vítimas de abuso sexual. É apoiador do projeto “Escola sem Partido”, que acaba com a liberdade pedagógica e com o desenvolvimento do pensamento crítico em relação à sociedade caótica que vivemos.

3. Votou a favor da Reforma Trabalhista e da Lei das Terceirizações, responsável por permitir que grávidas realizem trabalhos insalubres, pelo aumento do desemprego e do trabalho informal, em especial entre as mulheres negras. Já disse que “os trabalhadores devem escolher entre ter direitos e ter empregos”. Foi o único deputado a votar contra a PEC das domésticas, que garantiu às empregadas direitos trabalhistas básicos como o pagamento de hora extra e o recolhimento de FGTS. Já se comprometeu a aprovar a Reforma da Previdência, que aumenta a idade para se aposentar e iguala a idade entre mulheres e homens;

4. Defende o aprofundamento de um projeto de segurança pública falido, que trata violência com mais violência e militarização. Projeto que é implementado há muitos anos no Brasil, em especial no Rio de Janeiro, cidade onde mais morre civis e policiais em confrontos e onde Marielle Franco e Anderson foram executados há mais de 6 meses, crime ainda sem respostas. Defende a liberação do porte de armas, seguindo o modelo dos EUA, país que tem os maiores índices de homicídio e suicídio, em especial entre jovens;

5. Tem como candidato à Vice, um General que defende a tomada do poder pelas Forças Armadas e a elaboração de uma nova Constituição sem participação popular. É uma chapa que coloca, declaradamente, a democracia em risco!

Jair Bolsonaro é defensor da Ditadura Militar, afirmou que o erro dos militares foi torturar em vez de matar e não esconde sua admiração ao mais notório torturador do regime militar de 1964, o General Ustra.

Não queremos ditadura ou fascismo nem a ampliação da matança policial-militar nas ruas responsável pelo genocídio da juventude negra. Queremos liberdade, igualdade, justiça social e direitos! Bolsonaro é tudo que o Brasil não precisa para superar a crise e avançar.

Nós, mulheres diversas e unidas, defendemos o oposto do que ele prega: defendemos o respeito às diferenças; o direito das mulheres de viverem seguras e decidirem sobre o seu próprio corpo; defendemos salários iguais entre homens e mulheres, entre negros e brancos; defendemos cotas para os que foram historicamente injustiçados e prejudicados; defendemos serviços públicos com qualidade para as mulheres pobres e seus filhos.

Defendemos a mais ampla liberdade de ensinar e de aprender, sem lei de mordaça, seja na escola, ou na Universidade.

Defendemos que as pessoas sejam livres para amar e sejam respeitadas por isso. Defendemos o debate de ideias e a democracia.

Ele prega o ódio, nós pregamos o respeito. Ele defende a morte e a tortura, nós defendemos a vida.

Por isso dizemos: Ele Não! Nem os filhos! Bolsonaro Nunca! Fascismo não!"

Edição: Rafaella Dotta