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Por que EUA não suspendem bloqueio contra Cuba em meio à pandemia global?

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Ao contrário dos EUA, Cuba segue solidária a outros países, enviando médicos para combater pandemia - Yamil Lage/AFP
A resposta está em 60 anos de uma guerra que não é apenas econômica, mas também uma guerra política

Por Raúl Antonio Capote*

Atualmente, essa é uma pergunta que está sendo feita por muitas pessoas honestas no mundo: como é possível que a potência mundial mais poderosa do mundo negue a uma pequena ilha do Caribe o acesso aos alimentos e suprimentos necessários para enfrentar a pandemia de covid-19?

O governo dos EUA não está disposto a suspender nem sequer uma única medida do cerco econômico, nem um dia, nem uma hora, nem um segundo, e a resposta está em 60 anos de uma guerra que não é apenas econômica, mas também uma guerra política que busca acabar com o sistema socialista cubano.

Para compreendê-lo, devemos lembrar a famosa Lei Helms-Burton, que afirma que, mesmo com a hipotética queda da Revolução, eles não suspenderiam o bloqueio.

Alguém poderia pensar que, se Cuba estivesse sob um governo de transição pró-ianque, o bloqueio não aconteceria. Mas não, não é o que a aberração assinada por Helms e Burton estabelece. Caso o governo socialista caia, o presidente dos Estados Unidos, ou seu procônsul, deve certificar ao Congresso que o valor de cada propriedade nacionalizada, apreendida ou confiscada —  de acordo com as leis revolucionárias e com base no Direito internacional — foi devolvido, pago ou indenizado a seus "antigos proprietários" estadunidenses, incluindo cubanos que se tornaram cubano-americanos depois de 1959.

A "indenização" ou "compensação", calculada por especialistas dos EUA em 1997, valeria aproximadamente US$ 100 bilhões. Para pagar os processos, as indenizações e as dívidas, os governos cubanos teriam que recorrer a empréstimos, por exemplo, ao Fundo Monetário Internacional (FMI), que gerariam juros crescentes e criariam uma espiral interminável de saques.

Cairíamos nas mãos dos fundos de ativos distressed ou holdouts, mais conhecidos como "fundos abutres”. Nós, os cubanos, levaríamos anos para pagar uma dívida quase impagável, pois como um país devastado, esgotado, empobrecido pela guerra de resistência que o invasor certamente enfrentaria, um país que perderia boa parte de seus filhos com a idade de trabalhar e produzir, poderia pagá-la? Seríamos deixados nas mãos de agiotas prontos para sugar até a última gota da riqueza nacional.

O bloqueio econômico e suas leis, entre elas, a “Lei para a liberdade e solidariedade democrática cubana” (nome oficial da Lei Helms-Burton), é um produto vingativo direcionado para quebrar a alma de Cuba através de uma grande sangria, provocando um gigantesco shock que a deixe prostrada para sempre. É o projeto de extermínio de uma nação.

Provocar a fome, a doença e a morte de um grande número de cubanos faz parte do cenário que eles desejam construir em Cuba para atingir seus objetivos hegemônicos, objetivos que nunca alcançarão. Cometam eles as atrocidades que cometerem, Cuba vencerá e nunca abandonará seu espírito solidário e lutador.

*Raúl Antonio Capote Fernández é escritor e professor cubano.

Edição: Luiza Mançano