Coluna

Celia Sánchez Manduley: a flor mais íntima e mais cara da Revolução Cubana

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Celia deve ser lembrada como representação popular da forma como Fidel e o povo cubano mudaram o curso da história da América e ajudaram decisivamente a transformação revolucionária do mundo - Alberto Korda
A primeira guerrilheira e heroína revolucionária completaria 100 anos no próximo 9 de maio

Por Eulalia González Gonzalez*

No último estágio de nossa guerra definitiva de libertação, participaram os heroicos cubanos que arriscaram suas vidas constantemente, entre os quais uma mulher heroica, cheia de sensibilidade e "cubanidade", aquela que o povo carrega em seus corações, Celia Sánchez Manduley, a flor nativa da Revolução Cubana e que neste 9 de maio se celebra o centenário de seu nascimento.

Ela ocupa um lugar significativo na história de Cuba, como combatente e líder revolucionária, por sua lealdade ao comandante em chefe Fidel Castro Ruz e, principalmente, por sua simplicidade e amor ao povo. É considerada uma personalidade essencial da Revolução Cubana, antes e depois do triunfo revolucionário de 1º de janeiro de 1959.
Esta cubana extraordinária tornou-se uma lenda nos dias da Sierra Maestra e continuou seu incansável trabalho, muitas vezes anônimo, durante o poder revolucionário, cuja mística deixou muitos vestígios. Dizem que ela era como a justiça: humana e exigente, e uma mulher de detalhes. Hoje é comparada à mariposa – chamada no brasil de lírio-do-brejo –, a flor nacional de Cuba.

Após o triunfo da Revolução Cubana, Celia trabalhou com a mesma simplicidade e dedicação com que havia atuado durante a etapa da luta de libertação nacional. Sempre manteve contato próximo com o povo.

Celia Ester de Los Desamparados Sánchez Manduley nasceu em 9 de maio de 1920, na cidade de Media Luna, na antiga província do oriente cubano, hoje província de Granma. Frequentou o primário na escola pública Media Luna e depois continuou estudando em Manzanillo. Sua juventude foi vivida, mais tarde, na cidade de Pilón.

Recebeu uma educação livre de dogmatismos religiosos e de qualquer outro tipo de convenções e preconceitos. Seu pai tinha muito a ver com isso. Homem de ideias liberais e avançadas, Manuel Sánchez Silveira (1886-1958), médico rural e estomatologista, era um profundo martiano, humanista e pesquisador.

Nos últimos anos da década de 1940 e no início da década seguinte, aderiu às propostas feitas pelo líder do Partido Popular Cubano (Ortodoxo), Eduardo Chibàs, que denunciou a corrupção e a administração obscura dos líderes e funcionários do governo.

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Lutadora clandestina

Quando o golpe de Fulgencio Batista, apoiado pelos EUA, ocorreu, em março de 1952, ela se opôs resolutamente ao regime ditatorial imposto pela força.

Em 21 de maio de 1953, no centenário do nascimento do apóstolo da independência cubana, José Martí, junto com seu pai e outros martianos, subiu ao topo do Pico Real del Turquino, a montanha mais alta de Cuba na Sierra Maestra, na inauguração de um busto de bronze do apóstolo, realizado pela escultora cubana Jilma Madera.

Quando ocorreram os ataques aos quartéis de Moncada, em Santiago de Cuba e Carlos Manuel de Céspedes, na cidade de Bayamo, em 26 de julho de 1953, Celia demonstrou solidariedade com o grupo de jovens que haviam consumado aquela ação ousada sob a liderança de Fidel Castro.

Em meados de 1955, segundo testemunho escrito pela própria Celia, Manuel Echevarría, coordenador do Movimento de 26 de julho (M-26-7) em Manzanillo, a recrutou para a organização em que nunca ocupou cargos, embora assumisse tarefas relevantes. Com seu nome de guerra, Norma, ela se tornou uma figura lendária nos dias dos preparativos para a expedição de Granma e o início da luta na Sierra Maestra.

Nos meses seguintes e durante 1956, em coordenação com o líder dessa organização na província do Oriente, Frank País, trabalhou intensamente para preparar condições e dar o apoio necessário à expedição liderada por Fidel Castro, que estava programada para chegar ao longo da costa sul do território cubano oriental.

Algum tempo depois, nos dias da chegada em Granma, ela se disfarçou de mulher grávida e, com um gentil convite para tomar café a alguns guardas que não a reconheceram, entrou no quartel com o maior sangue frio, a fim de obter informações valiosas para o movimento M-26-7, já estruturado em um sólido aparelho clandestino.

Dias após o desembarque, Celia desempenhou um papel muito importante no apoio aos combatentes rebeldes, especialmente após 5 de dezembro de 1956, quando em Alegría de Pío foram subitamente atacados por soldados da ditadura, o que causou uma grande dispersão dos expedicionários, a maioria assassinada.

Semanas depois, ela enviou comida, armas e outros utensílios para os combatentes que puderam se encontrar com Fidel Castro para continuar a luta nas montanhas de Sierra Maestra.

O próprio Fidel afirmou isso quando disse que, quando a história da Revolução estivesse escrita, seria necessário colocar os nomes de David e Norma em primeiro plano  – que eram os codinomes de Frank e Celia nos primeiros dias de clandestinidade.

É incrível o que essa mulher fez, com aparência frágil, mas com muita coragem e persistência quando decidia se envolver em algo. Os expedicionários de Granma lhe devem pelos mapas e cartas náuticas da região, até que, mesmo após a dispersão, encontraram ajuda em camponeses como Mongo Pérez, porque tudo havia sido previsto por ela, depois de se resignar porque seu pedido de vir a Granma havia sido negado.

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Guerrilheira

Em fevereiro de 1957, Celia – junto com Frank País e outros líderes do Movimento de 26 de Julho na província do Oriente–, se reuniu com Fidel na Sierra Maestra para coordenar o desenvolvimento da luta revolucionária. No decorrer daquele ano, depois de ter realizado um trabalho importante na luta clandestina, ela se mudou definitivamente para a Sierra Maestra em outubro. Foi a primeira mulher a se juntar à tropa rebelde, tornando-se parte do Comando Geral de La Plata

Celia lutou no exército rebelde e, ao ingressar, praticamente carregou em seus ombros a organização da vida de campanha nos territórios liberados e a administração no comando, apoiando ao mesmo tempo Fidel, com quem trabalhava diretamente. Com dedicação especial, teve o cuidado de preservar documentos e até notas simples para a história.

Uma dessas breves comunicações que conservou e que tem importância histórica transcendente foi quando mostraram a Fidel os restos das armas mortais em que se podia ler a inscrição da USAF (Força Aérea de Estados Unidos) e contou a Celia por mensagem: “Vendo os foguetes que jogaram na casa de Mario, jurei para mim mesmo que os americanos pagarão caro pelo que estão fazendo. Quando esta guerra terminar, uma guerra muito mais longa e maior começará para mim: a guerra que vou travar contra eles. Sei que esse será meu verdadeiro destino", escreveu Castro.

Em 4 de setembro de 1958, ela propôs a Fidel a criação de um pelotão incorporar às mulheres como combatentes. Fidel defendeu a criação do pelotão, opondo-se ao machismo predominante. Ele não apenas as ensinou a atirar, mas as transformou em sua escolta pessoal, constituindo a pelotão feminino Mariana Grajales. Celia foi a primeira mulher a empunhar um rifle em ações de guerrilha.

Ela abriu caminhos. Mostrou  – porque precisava ser demonstrado – que as mulheres tinham força, patriotismo e a capacidade de assumir tarefas que muitos acreditavam serem exclusivas dos homens. Ela não se contentou com o papel decorativo a que alguns pretendiam reduzi-las: beleza e inspiração. Flores delicadas que precisavam ser protegidas.

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Celia Sánchez (direita), com Vilma Espín, Fidel e Raúl Castro nos tempos de Sierra Maestra / Arquivo/El Nuevo Herald

Na revolução triunfante

Após o triunfo da Revolução Cubana em 1º de janeiro de 1959, Celia trabalhou com a mesma simplicidade e dedicação com que havia feito durante a etapa da luta de libertação nacional. Sempre manteve contato próximo com o povo.

Em 1962, foi nomeada Secretária da Presidência e do Conselho de Ministros.

Celia fundou em 1964 o Gabinete de Assuntos Históricos do Conselho de Estado, que possui mais de 159 mil coleções fotográficas em 28 coleções e mais de 56 mil coleções documentais. No ano seguinte, integrou o Comitê Central do Partido Comunista de Cuba e, no primeiro congresso dessa organização, realizado em 1975, sua condição foi ratificada.

Em 1976, foi eleita deputada à Assembleia Nacional do Poder Popular e também foi eleita Secretária do Conselho de Estado.

Celia, quase sempre de posição anônima, comportamento que a caracterizava, era administradora de várias obras de benefício popular, como o grande centro de recreação que existe em Havana, o Parque Lenin  – o pulmão da cidade de Havana; Também a vila de Taina em Cienaga de Zapata e outros centros turísticos em todo o país.

Outro de seus trabalhos destacados foi o Palácio das Convenções, inaugurado em setembro de 1979, por ocasião da celebração em Havana da quarta conferência do Movimento dos Países Não Alinhados. As proeminentes instalações de Havana foram usadas inúmeras vezes para eventos nacionais e internacionais. Em todas essas obras estava sua presença delicada em detalhes e design. Não existe um canto onde não esteja sua mão e sua ideia de Cuba e a presença simbólica das imagens da Sierra Maestra sempre impregnada em suas memórias e sentimentos.

Foi a criadora de projetos diferentes para satisfazer as necessidades e deficiências da população nas montanhas e das pessoas em geral. Juntamente com Fidel, ela fundou a Fábrica de Sapatos de Plástico em Havana e Santiago de Cuba para solucionar a falta de calçados existentes em nosso país, principalmente nas cidades montanhosas.

Formadora de jovens, que com suas orientações, começaram como trabalhadores, aprendendo sobre a tecnologia e preparação das formulações utilizadas na produção, garantindo também a qualidade das produções e o treinamento técnico das trabalhadoras. Com o tempo, essas jovens foram as que dirigiram a fábrica durante anos.

Ela deve ser colocada como uma representação popular genuína do estágio em que Fidel e nosso povo mudaram o curso da história da América e ajudaram decisivamente a transformação revolucionária do mundo. Está ao lado de Che e Camilo. Como eles, ela entrou pelos portões da eternidade como o símbolo mais puro do povo cubano na época de Fidel.


Sánchez é lembrada como precursora do primeiro batalhão feminino da guerrilha, rompendo com as limitações machistas da época / Alberto Korda

Epílogo

Celia, depois de uma doença dolorosa, morreu em 11 de janeiro de 1980 e, em sua despedida no luto, Armando Hart Dávalos  – importante membro da liderança histórica da Revolução – afirmou que seria impossível escrever a história de Fidel Castro Ruz sem mencionar Celia Sánchez Manduley, assistente pessoal do Comandante em Chefe por 23 anos e “a flor mais nativa do processo”.

"Esse fascínio não é aleatório. Celia era a simplicidade, a doçura, a dedicação e a modéstia personificadas, rigorosa e exigente em princípios, apaixonada, mas no estilo que Martí falou quando disse que os apaixonados eram os primogênitos do mundo (...) Sabia, talvez , que era flor e gaivota, uma onda e um sorriso útil, que tinha mil nomes, mas lhe era suficiente apresentar-se, simplesmente, como Celia.”

Sua existência foi cheia de magia e detalhes, aqueles que às vezes são ignorados pelo imenso vigor do mito de ter sido a primeira guerrilheira em Cuba na Sierra Maestra e há mais de 20 anos "não a sombra, mas a luz para Fidel", como Eusebio Leal disse corretamente, em dezembro de 2003

Fidel, no primeiro aniversário de sua morte, em 11 de janeiro de 1981, na cerimônia de abertura do Hospital Clínico Cirúrgico com o nome de  um professor, em Manzanillo, expressou: “(...) Após a vitória, em silêncio, desinteressadamente, a camarada Celia Sánchez trabalhou por 21 anos para a Revolução, e o quanto se importou com os camponeses da Sierra Maestra, com os antigos combatentes da Sierra Maestra, com todos aqueles que cooperaram conosco."

Sobre Celia e seu frutífero trabalho, Fidel também comentou em outro dos discursos que proferiu, neste caso por ocasião da inauguração da empresa têxtil Celia Sánchez Manduley, em 27 de julho de 1983, em Santiago de Cuba.
 "A camarada Celia era muito exigente, muito meticulosa em todos os detalhes, muito complacente, muito escrava do dever em todos os campos: na guerra, na paz, na construção do socialismo em nosso país."

Sempre teremos que buscar em Celia, com seu exemplo, especialmente agora que nossa Revolução está sitiada e sujeita a um bloqueio criminal em meio a uma pandemia global. Ela continuará sendo a madrinha dos necessitados, a personificação da simplicidade, a verdade de um país, uma criatura única e sedutora, uma referência amorosa deste tempo, de todos os tempos.
 

*Eulalia González González é analista de imprensa do Consulado Geral de Cuba em São Paulo. Trabalhou com Celia desde muito jovem e por muitos anos.

Edição: Rodrigo Chagas