Coluna

O projeto inacabado de José Martí

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Tradução: Carmen Diniz Santos

O projeto inacabado de José Martí tornou-se o das gerações do século XX - Reprodução
Tudo que foi feito era apenas o preâmbulo da construção da Cuba pensada e sonhada por Martí

Por Eduardo Torres-Cuevas*

Um dia antes de cair em combate, Martí começou a escrever uma extensa carta para seu "irmão mais querido" Manuel Mercado. Sua morte inesperada a deixou inacabada. O texto é suficiente para conhecer as essências e estratégias do projeto revolucionário de Martí. Uma grande incógnita surge com a última palavra escrita. O texto desmistifica a romântica e especulativa ideia de que o mestre procurara a morte na Batalha de Dos Ríos. Como guia de um povo que se lançou à guerra, devia ser o primeiro a enfrentar o inimigo, sem conhecer os riscos necessários. Ele escreve com orgulho: “Agora posso escrever (…). Já estou em perigo todos os dias por dar a minha vida pelo meu país e pelo meu dever - desde que eu o entendo e tenho a coragem de cumpri-lo – de impedir que, com a independência de Cuba, os Estados Unidos se espalhe pelas Antilhas e caia, com essa força a mais, em nossas terras da América. O que eu fiz e vou fazer será para isso”. Não há desânimo ou tristeza e, o que é mais importante, ele pensa com entusiasmo sobre o que fará.

O projeto de Martí passou por várias etapas. Primeiro, unir o que, imperiosamente, deve estar unido; segundo, organizar e aumentar a conscientização de todas as forças do país para a guerra necessária e a criação de um novo modelo de República que não perpetue “com formas novas ou alterações mais aparentes do que essenciais, o espírito autoritário e a composição burocrática da colônia, mas que possa fundar, no exercício de capacidades legítimas do homem, um novo povo e uma democracia sincera, capaz de superar, pela ordem do trabalho real e pelo equilíbrio das forças sociais, os perigos de uma liberdade súbita em uma sociedade composta pela escravidão"; a República Cubana seria "justa e aberta, una em seu território, no direito, no trabalho e na harmonia, criada com todos e para o bem de todos".

A terceira etapa é a criação do Partido Revolucionário Cubano, um instrumento preparatório de guerra real e prático, criador e unificador de revolucionários, lutando contra os partidos coloniais e a perigosa corrente anexionista. A quarta etapa estava apenas começando quando Martí cai em combate, a guerra de Independência e a criação da República "em meio à guerra". Tudo que foi feito na batalha de Dos Ríos era apenas o preâmbulo da construção da Cuba pensada e sonhada por Martí.

Se a luta inicial foi contra o domínio colonial espanhol, as profundas mudanças operadas nos Estados Unidos fazem desta nação a mais poderosa potência diante da qual, quando chegasse a hora, a própria Espanha iria depor suas bandeiras. Desde 1889, Martí adverte: “Por que eles deveriam brigar pelas Repúblicas da América em suas batalhas com a Europa e ensaiar nos povos livres seu sistema de colonização?”; “Desde o berço, o povo do Norte sonhava com estes domínios (…) e quando um povo, ganancioso por raiz, criado na esperança e certeza da posse do continente, torna-se isso, com o estímulo do ciúme da Europa e sua ambição como povo universal (...) é urgente colocar o maior número possível de freios com a modéstia das ideias, aumento rápido e habilidoso de interesses opostos, o ajuste franco e imediato daqueles que têm a mesma razão para temer, e a declaração da verdade “.

E aqui está a razão de Cuba; seu lugar no mundo: “Nos fiéis da América estão as Antilhas, que seriam sim, escravas, mero pontão da guerra de uma República imperial, contra o mundo ciumento e superior que se prepara para negar-lhe o poder". E ele diz: “É um mundo o que estamos equilibrando; não apenas duas ilhas que vamos libertar" e Cuba seria a República" indispensável ao equilíbrio americano”.

Uma vez iniciada a guerra da independência, um passo importante permaneceu: criar a República de Cuba. Na carta inacabada a Manuel Mercado, ele já fala sobre isso. Após a reunião de La Mejorana, seu papel na Constituinte fundadora e reguladora da República era fundamental e ele sabia disso. Sua ausência em Jimaguayú desfigurou parte do projeto para preparar a República em meio à guerra. Ao ocorrer a intervenção dos Estados Unidos na luta pela Independência cubana, Máximo Gómez expressou as terríveis consequências da ausência de Martí, porque ele sim sabia como enfrentar a nova situação. Os novos tempos eram muito complexos. Perigos externos e internos foram confrontados. Um deles foi, conforme o que o mestre havia escrito: “Em Cuba sempre houve um grupo importante de homens cautelosos, orgulhosos de abominar o domínio espanhol, mas tímidos o suficiente para não expor seu bem-estar pessoal em combatê-lo. Esse tipo de homens, ajudados por aqueles que querem aproveitar os benefícios da liberdade sem pagar seu preço sangrento, são fortemente a favor da anexação de Cuba aos Estados Unidos. Todos os tímidos, todos os irresolutos, todos os conservadores, todos os apegados à riqueza têm fortes tentações de apoiar esta solução, que acham barato e fácil. Assim, eles lisonjeiam sua consciência de patriotas, e seus medos de ser verdadeiramente".

O projeto inacabado de José Martí tornou-se o das gerações do século XX; é o projeto revolucionário da criação, retomando as palavras de José Antonio Saco dois anos antes de Martí nascer, de “uma Cuba cubana e não anglo-saxã”. O tempo passou, 125 anos após o desaparecimento físico do apóstolo, seu pensamento vivo é nutritivo, sábio, para pensar e criar a Cuba do futuro. Bússola quando os ventos da tempestade batem.

*Eduardo Torres-Cuevas, historiador e pedagogo. Membro da Academia Cubana de Idiomas.

Edição: Luiza Mançano