DESIGUALDADE

Artigo | Um inimigo mais letal que a COVID-19: a fome está de volta

Já estivemos no mapa da fome no mundo, conhecemos essa peleja, não podemos retroceder

Estamos há mais de 100 dias em distanciamento social em virtude da pandemia do novo coronavírus. Eu costumo usar a comparação de que estamos sob a mesma tempestade, mas não no mesmo barco.  E esse sentimento ganhou mais força após a leitura do estudo feito pela OXFAM, que é uma Organização Não Governamental, que atua em mais de 90 países pelo mundo, entre eles o Brasil, buscando combater desigualdades, fiscalizar e defender direitos humanos; discutir e repensar as cidades, com um olhar especial para as juventudes, gênero e raça, e na promoção da justiça econômica.

Essa organização já havia publicado um estudo importante sobre a desigualdade no mundo. Agora nos apresenta um trabalho sobre o agravamento da fome no mundo. O relatório publicado no dia 9 de julho, aponta que a COVID-19 agravou a crise de fome em pontos críticos e cria novos epicentros em todo o mundo. O mais impactante é que, segundo o estudo, até o final do ano, 12 mil pessoas poderão morrer, por dia, de fome. Estamos diante de um velho inimigo, a fome, que vai matar mais do que o coronavírus.

:: “Quando o vírus chega, ele acentua as desigualdades", analisa diretora da UNE ::

Se trouxermos os dados para a realidade da nossa cidade, veremos que são relevantes e pedem uma atenção especial da Prefeitura.

Em Montes Claros, em 2018, a Secretaria de Desenvolvimento Social, responsável por implementar políticas públicas de assistência social, admitia que a cidade tinha mais de 45 mil famílias na linha pobreza e 16 mil famílias beneficiárias do Bolsa Família. Se somarmos a esses dados o déficit habitacional, que é superior a 15 mil famílias, mais o crescimento do desemprego e da informalidade, ambas em expansão antes da pandemia e agora agravadas, o cenário é terrível.

Outro componente é a estimativa do Ministério Público, que já sugeriu a realização de um censo para sabermos qual a população de rua da cidade. A população em situação de rua cresceu 70% em 2020. A Pastoral da Arquidiocese que acompanha essa população acredita que o número é superior a mil pessoas em Montes Claros. Já a Pastoral da Criança, acompanha 9 mil famílias com crianças de até cinco anos em extrema vulnerabilidade na cidade.

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Nesse apanhado simples, já temos mais de 21,5% da população da cidade, em situação de extrema vulnerabilidade e em risco iminente do vírus da fome. Isso é muito sério! Vai exigir de todos nós, mas em especial dos gestores, a máxima atenção com os mais empobrecidos. O cenário que se desenha, infelizmente é o de terra arrasada.

Cuidar da nossa gente é cuidar da cidade. A cidade somos nós, homens, mulheres, crianças, jovens, idosos. Tenho me dedicado a estudar a nossa cidade e a nossa região e o que vejo é a urgência de termos as pessoas como a centralidade do fazer político. Já estivemos no mapa da fome no mundo, o Brasil, o Norte de Minas e os vales do Jequitinhonha e Mucuri. Conhecemos essa peleja. Não podemos retroceder.

Colocar os mais pobres no orçamento de nossas cidades, reestruturar a cidade a partir da tarefa de salvar a nossa gente da fome e da COVID-19. As pessoas como a obra mais importante de uma administração. O mais simples, o mais importante! Pensem sobre isso!

Leninha é deputada estadual e vice-presidente estadual do PT e presidente da Comissão de Direitos Humanos da ALMG

Editado por: Elis Almeida

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