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Controle da pandemia em Cuba tem pesquisa contínua e monitoramento de assintomáticos

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Tradução: Carmen Diniz

Enfermeira cubana confere a temperatura de imigrante francês no Aeroporto Internacional José Martí - Adalberto Roque/AFP
A pesquisa realizada casa por casa tem cumprido um papel crucial dentro dos protocolos nacionais

Por Pedro Monzón*

Cuba tem controlado a pandemia provocada pela covid-19 e entrado nas fases de retomada das atividades. Quase todas as províncias se encontram já na fase três, com exceção de Havana e Matanzas, que, embora também estejam iniciando a retomada, ainda estão na primeira etapa.

Até 20 de julho, o total de casos de covid-19 confirmados desde o início da pandemia no país foi de 2446; entre eles, a taxa de recuperação é 94,8%, o que corresponde a 2319 pacientes curados. Ocorreram 87 mortes (3,56%), nenhuma durante os últimos 9 dias. Enquanto isso, nas Américas, a taxa de letalidade tem atingido 4,19% dos contaminados.

Em Cuba, nenhum profissional de saúde, criança ou detento faleceu em decorrência novo vírus e há mais de 20 dias e não há um só caso crítico. Apenas 38 pacientes estão internados e nenhum está em estado grave ou crítico. Por esse motivo, os leitos das UTIs estão vazios e em nenhum momento houve nem sequer a possibilidade remota de um colapso do sistema de saúde. No dia 20 de julho, a ilha reportou a ausência de transmissão local e só um caso importado.

Os fatores que explicam estes resultados no controle da pandemia são as forças que caracterizam Cuba. No conhecimento especializado acumulado e nos alicerces da Revolução Cubana repousam os conceitos, protocolos e as ferramentas que são utilizadas contra a pandemia atual. A intenção da ilha tem sido frear o desenvolvimento da doença detendo os contágios, ao cumprir os seguintes protocolos:

- Interromper os possíveis contatos entre doentes declarados e pessoas sãs, o que é relativamente fácil se os primeiros são localizados e isolados a tempo;

- Evitar contágios dos pré-sintomáticos que, em algum momento, que podem propagar o vírus antes mesmo de apresentar sintomas;

- Submeter o paciente a tratamento quando aparecem somente alguns dos sintomas, como forma de precaução;

- Detectar a isolar as pessoas assintomáticas pois, embora não apresentem sintomas da doença, possuem carga viral similar a dos sintomáticas e apresentam um alto potencial de contaminação (60% ou mais);

Em relação ao último caso, o potencial de contaminação dos assintomáticos foi confirmado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Aqueles que não apresentam sintomas podem estar infectando outras pessoas em tempo e espaço indeterminados, salvo quando se a transmissão é descoberta.

Naturalmente, esta parte da população não sabe que carrega o vírus, representando um grave risco de propagação. Do total dos 2.446 casos confirmados em Cuba até 20 de julho, 1.339 foram assintomáticos e representam 54,7% do total. Isto é, um número muito alto de contagiados sem sintomas, daí a importância que tem sido prestada à detecção e tratamento da população assintomática em Cuba.

Para alcançar os objetivos gerais do controle da pandemia e, em particular, a localização dos assintomáticos, a aplicação de sistemas de detecção eficientes tem sido fundamental.

:: Do Programa Mais Médicos à Campanha pelo Prêmio Nobel da Paz aos médicos cubanos ::

A pesquisa ativa contra a covid-19

A pesquisa ativa, realizada casa por casa, com a participação consciente dos cidadãos, tem cumprido um papel crucial dentro dos protocolos nacionais.

Por definição, a pesquisa ativa, em geral, se refere fundamentalmente à exploração clínica sistemática e periódica da população objeto da atenção de saúde e tem como meta final a diminuição da mortalidade da doença. A pesquisa e identificação do maior número de indivíduos oferece a possibilidade de um tratamento oportuno e efetivo para melhorar a qualidade de vida da população.

Esse tem sido um método importante que tem utilizado Cuba para combater a pandemia mediante a localização dos doentes, os pré-sintomáticos e, sobretudo, os assintomáticos.

Os estudos de pesquisa ativa em Cuba atualmente são conduzidos pelas doutoras Niviola Cabrera Cruz e Ana Margarita Toledo Fernández, integrantes do Ministério de Saúde Pública (MINSAP) de Cuba.

A aplicação desta ferramenta é complicada já que, em situações como a atual pandemia, exige um grande número de equipes confiáveis, bem preparadas, dispostas a correr o risco de contrair a doença e a realizar o grande esforço que supõe a pesquisa em grande escala, com longos e cansativos trajetos pelas diferentes vizinhanças do país, em períodos relativamente curtos de tempo.

:: Com visitas diárias de médicos a todas as casas, Cuba consegue controlar a pandemia ::

Como forma de evitar os contágios entre os envolvidos na pesquisa (incluindo os profissionais da saúde, assim como os próprios pesquisadores), são disponibilizados meios de proteção e efetivos instrumentos de diagnóstico.

Cuba tem cumprido com todos esses requisitos, contando com testes rápidos, parte deles produzidos em Cuba enquanto outra parte chegou da China. E, sobretudo, conta com mais de 30 mil jovens bem treinados para aplicação da pesquisa. A participação consciente da população também é imprescindível a participação consciente da população, mas isto não é um problema na ilha graças ao alto nível educacional e cultural imperante e à confiança que existe em relação ao sistema de saúde.

Alguns antecedentes revelam porque agora as pesquisas ativas contra a covid-19 foram cumpridas com notável agilidade. Trata-se de que, no que se refere aos temas de saúde, este método tem sido utilizado em Cuba há anos. Isto é, havia experiência suficiente e o uso de tal instrumento para a detecção dos doentes em geral  e em especial dos assintomáticos , não foi realizado de maneira improvisada durante a emergência sanitária gerada pela atual pandemia.

O líder da Revolução Cubana, Fidel Castro, foi um promotor fundamental da utilização da pesquisa ativa para otimizar os níveis de saúde da população, tema que tratou publicamente em diversas ocasiões. Em um discurso comemorativo, em 26 de julho de 2006, na província oriental de Granma, Fidel afirmou:

Em Córdoba, falei da pesquisa ativa. O que significa isto? O verdadeiro diagnóstico do estado de saúde de uma população e o maior avanço que atualmente pode ser concebido para elevar a expectativa de vida do ser humano.

Na ocasião, ele informou que o Sistema Nacional de Saúde já estava pesquisas ativas, comandadas principalmente pelos médicos de família, para detectar deficiências, enfermidades oftalmológicas e insuficiência renal crônica na população.

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Sobre esta base, no caso da presente pandemia, a pesquisa massiva da população culminou na localização ativa, nos próprios locais de residência, de diferentes categorias de doentes, sem necessidade de esperar que estes percebessem sozinhos a infecção para então buscarem atendimento nos centros de assistência médica. Até porque, no caso dos assintomáticos, nem sequer existe a possibilidade de que avisem que estejam afetados pela doença.

Enfim, se nos questionamos sobre o sucesso do país no combate de tão terrível pandemia em meio a este difícil contexto do bloqueio, há de se concluir que a essência está na existência um sistema socialista, no qual o Estado desempenha um papel fundamental e prioriza a justiça social e as necessidades do ser humano, não os interesses do mercado em benefício de elites sociais excludentes.

*Pedro Monzón é Cônsul Geral de Cuba em São Paulo.

Edição: Luiza Mançano