Coluna

Fidel Castro: 94 anos de nascimento do revolucionário mais íntegro do século 20

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Tradução: Luiza Mançano

Por quase cinquenta anos, Fidel promoveu e dirigiu a luta do povo cubano pela consolidação do processo revolucionário - Adalberto Roque/AFP
García Márquez recolhe um dos melhores perfis do Fidel que conhecemos

Por Antonio Mata Salas*

A vida de Fidel não pode ser reduzida a algumas linhas. Seu vínculo permanente e indissolúvel com o povo, sua oratória brilhante, seu ensinamento constante, sua dedicação sem limites à causa da Revolução deixaram uma marca indestrutível no povo cubano e serviram de inspiração a milhões de homens e mulheres em todos os continentes.

As futuras gerações de cubanos terão nele, como em Martí, um paradigma e uma motivação profunda para dar continuidade ao seu trabalho.

Fidel promoveu, em escala mundial, a batalha do Terceiro Mundo contra a atual ordem econômica internacional, em particular, contra a dívida externa, o desperdício de recursos por conta dos gastos militares e da globalização neoliberal, a batalha pela preservação do meio ambiente e, acima de tudo, , os enormes esforços pela unidade e integração da América Latina e do Caribe. Ele foi o principal promotor do Movimento dos Países Não Alinhados.

Dirigiu estrategicamente a participação de centenas de milhares de combatentes cubanos em missões internacionalistas. Promoveu e organizou a contribuição de dezenas de milhares de médicos, professores e técnicos cubanos que prestaram serviços em dezenas de países do Terceiro Mundo; bem como a realização de estudos em Cuba para dezenas de milhares de estudantes dessas nações.

Fidel promoveu programas integrais de assistência e colaboração cubana, no âmbito da saúde, em numerosos países da África, da América Latina e do Caribe, e a criação, em Cuba, de escolas internacionais de Ciências Médicas e Esportes, Cultura, Física, Arte, Cinema e TV, entre outras disciplinas, para alunos do Terceiro Mundo. Ele foi o criador do Contingente Henry Reeve que atualmente ajuda a combater a covid-19 com 34 brigadas ao redor do mundo.

Ele liderou a ação determinada do povo cubano para enfrentar os efeitos do bloqueio econômico imposto a Cuba pelos Estados Unidos há mais de sessenta anos e suas consequências no plano econômico, comercial e financeiro do colapso da comunidade socialista europeia, e promoveu o esforço obstinado dos cubanos para superar as graves dificuldades decorrentes desses fatores, sua resistência durante o chamado Período Especial e a retomada do crescimento econômico e do desenvolvimento do país.

Por quase cinquenta anos, o Fidel promoveu e dirigiu a luta do povo cubano pela consolidação do processo revolucionário; seu avanço em direção ao socialismo; a unidade das forças revolucionárias e de todo o povo; as transformações econômicas e sociais do país; o desenvolvimento da educação, saúde, esporte, cultura e ciência; a defesa; o enfrentamento das agressões externas; a condução de uma política externa ativa, com princípios; as ações de solidariedade com os povos que lutam pela independência e pelo progresso; e o aprofundamento da consciência revolucionária, internacionalista e comunista do povo.


Em texto "O Fidel que eu conheço", Gabriel García Márquez homenageia seu amigo, o líder revolucionário que completaria 94 anos nesta quinta / Reprodução

Em nossa opinião, em seu artigo O Fidel Castro que eu conheço, publicado em 26 de novembro de 2016, Gabriel García Márquez recolhe um dos melhores perfis do Fidel que conhecemos. Compartilho aqui alguns fragmentos:

“Sua visão da América Latina para o futuro é a mesma de Bolívar e Martí, uma comunidade integral e autônoma, capaz de mover o destino do mundo. Sua devoção pela palavra. Seu poder de sedução. Buscar os problemas onde quer que eles estejam. Os ímpetos da inspiração são próprios de seu estilo. Os livros refletem muito bem a amplitude de seus gostos. Ele deixou de fumar para ter autoridade moral para lutar contra o tabagismo...

José Martí é seu escritor de cabeceira e [Fidel] teve o talento para incorporar suas ideias na corrente sanguínea de uma revolução marxista. A essência de seu próprio pensamento pode estar na certeza de que fazer trabalho de massas é, fundamentalmente, cuidar dos indivíduos.

Isso poderia explicar sua confiança absoluta no contato direto. Ele tem um idioma para cada ocasião e um modo de persuasão distinto, de acordo com os diferentes interlocutores. Ele sabe colocar-se no nível de cada um e dispõe de um conhecimento vasto e variado que lhe permite transitar facilmente em qualquer meio. Uma coisa é certa: onde quer que esteja, como e com quem estiver, Fidel Castro está aí para vencer.

Sua atitude diante da derrota, mesmo nos atos mais pequenos da vida cotidiana, parece obedecer a uma lógica particular: ele nem mesmo a admite, e não tem um minuto de paz enquanto não pode reverter os termos e transformá-la em vitória.

Ninguém pode ser mais obsessivo do que ele quando se propõe a chegar ao fundo de qualquer coisa. Não há projeto colossal ou milimétrico, no qual ele não se comprometa com uma paixão feroz. E, especialmente, se tiver que enfrentar as adversidades. Nesses momentos, mantém sempre um bom aspecto, com seu melhor humor. Alguém que o conhece bem, lhe disse: 'As coisas devem estar muito mal, porque você está deslumbrante’.

Sua mais rara virtude política é essa capacidade de vislumbrar a evolução de um fato até suas consequências mais remotas ... mas essa capacidade não é exercida pela iluminação, mas como resultado de um raciocínio árduo e tenaz. Sua ajudante suprema é a memória e a utiliza com abuso para sustentar seus discursos ou conversas íntimas, com um raciocínio avassalador e operações aritméticas de uma rapidez incrível.

Ele tem o hábito de interrogatórios rápidos. Perguntas sucessivas que faz em rajadas instantâneas até descobrir o porquê do porquê do porquê final... Não perde a oportunidade de fazer indagações.

O país que conhece melhor, depois de Cuba, são os Estados Unidos. Ele conhece a fundo a natureza de seu povo, suas estruturas de poder, as segundas intenções de seus governos, e isso o ajudou a resistir à tempestade incessante do bloqueio...

Quando fala com a gente da rua, a conversa recobra a expressividade e a franqueza crua dos afetos reais. O chamam Fidel. O rodeiam sem riscos, o chamam de “tu”, discutem com ele, o contradizem, reivindicam, com um canal de transmissão imediata por onde a verdade circula aos borbotões. É então que se descobre o ser humano insólito, que o resplendor de sua própria imagem não deixa ver.

Este é o Fidel Castro que acredito conhecer: um homem de costumes austeros e idealismos insaciáveis, com uma educação formal à moda antiga, de palavras cautelosas e gestos simples e incapazes de conceber qualquer ideia que não seja descomunal.

Tem a convicção de que a maior conquista do ser humano é a boa formação de sua consciência e que os estímulos morais, mais que os materiais, são capazes de mudar o mundo e mover a história.

Escutei-o em suas escassas horas de nostalgia, evocando as coisas que poderia ter feito de outro modo para ganhar tempo à vida. Ao vê-lo tomado pelo peso de tantos destinos alheios, lhe perguntei o que mais queria fazer neste mundo, e ele me respondeu de imediato: parar em uma esquina”.

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*Antonio Mata Salas é Cônsul de Imprensa no Consulado Geral de Cuba, em São Paulo. 

Edição: Luiza Mançano