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Cuba, uma ilha cheia de cultura e tradição

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Tradução: Luiza Mançano

Os cubanos têm a capacidade de fornecer respostas aos desafios da visível invasão cultural, reconhecida através de símbolos e modelos estereotipados que tentam suplantar os valores mais autênticos - Reprodução Consulado Geral de Cuba
Estima-se que ao longo do ano aconteçam, em Cuba, mais de 370 festas tradicionais

Por Antonio Mata Salas*

Ser culto para ser livre” – José Martí

A referência à cultura será sempre um assunto difícil, porque cada um tem sua própria definição e, também, sua própria cultura. O termo cultura designa o conjunto total de práticas humanas, incluindo práticas econômicas, políticas, científicas, legais, religiosas, comunicativas e sociais em geral. Ela não pode ser concebida apenas como uma criação artística e literária, e sim como tudo aquilo que tem a ver com a espiritualidade humana; é, ao mesmo tempo, uma das formas pelas quais o desenvolvimento se expressa e um instrumento de coesão social.

A cultura é mais do que arte ou conhecimento, é a cotidianidade, uma coleção de legados que sobrevivem no tempo. A cultura cubana é gente com dignidade, reconhecimento de suas raízes, seu amor à pátria, poder reconhecer em todos os lugares o aroma do café ou do tabaco cubano, a rumba, o rum e o bom trovador. Somos autênticos, por isso nos distinguimos em qualquer parte do planeta, pela maneira como nos vestimos e nos comunicamos, a caminhada que evidencia a liberdade.

As principais manifestações da cultura material e espiritual de Cuba estão ligadas ao processo histórico de formação e desenvolvimento da sociedade cubana, que vai desde o povoamento, a época colonial, passando pelas etapas da luta de libertação nacional e a vitória da revolução socialista, que se estende até os dias atuais. Os desafios impostos à sociedade cubana pela globalização neoliberal colocam a questão da identidade em uma posição privilegiada. Por esta razão, a política cultural tem como objetivo proporcionar a nosso povo uma oferta cultural de qualidade, criativa e humanística. E a política econômica para a cultura deve responder a estes propósitos.

Pode ser que não exista um lugar no mundo com tantas e tão diferentes celebrações populares como em Cuba, já que é um ponto de encontro entre a cultura europeia e a africana. Fusões de raças e costumes, em um processo de vários séculos que deu origem a uma cultura única, em uma espécie de mistura inigualável e uma enorme riqueza. Estima-se que ao longo do ano aconteçam em Cuba, mais de 370 festas tradicionais em toda a ilha, cada uma com sua peculiaridade e motivo próprio.

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Consequentemente, os cubanos têm a capacidade de fornecer respostas aos desafios da visível invasão cultural, reconhecida através de símbolos e modelos estereotipados que tentam suplantar os valores mais autênticos. Na aspiração de defender suas conquistas, Cuba possui um profundo arsenal cultural que facilita uma constante renovação e enriquecimento de sua identidade, ao mesmo tempo em que justifica sua capacidade de resistência.

Antes da Revolução, a cultura cubana era forte, mas subestimada ou limitada a circuitos muito elitistas. Hoje, a vida cultural do país é muito intensa e o sistema de instituições oferece oportunidades para todos os setores do país. É um direito verdadeiramente democrático. A primeira conquista da Revolução, neste sentido, foi a impressionante Campanha de Alfabetização, realizada no início do ano de 1961, com o consequente acompanhamento sistemático que evitou um retorno à ignorância. Basta recordar que o primeiro livro publicado pela Revolução foi Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Não foi um panfleto de propaganda política, mas uma das obras-primas da cultura universal. Isso caracteriza a política cultural revolucionária, a ideia de que defendemos nossa identidade, nossas tradições, mas, ao mesmo tempo, temos uma grande vocação universal. A cultura cubana recebe, como algo natural, as influências de todo o mundo e, ao mesmo tempo, influencia outras culturas.

Com o triunfo da Revolução em 1º de janeiro de 1959, foram criadas instituições emblemáticas para a cultura do país, como o Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica (ICAIC), criado apenas 83 dias após a vitória revolucionária, e a Casa de las Américas, em abril de 1959, cujo objetivo principal é a realização de atividades destinadas a ampliar as relações socioculturais com os povos da América Latina, do Caribe e do resto do mundo. Desde então, a Casa das Américas divulgou o trabalho da Revolução e incentivou que muitos intelectuais visitassem a ilha para entrar em contato com a nova realidade do país.


Com o triunfo da Revolução em 1º de janeiro de 1959, foram criadas instituições emblemáticas para a cultura do país / Fiesta del Fuego / Reprodução Consulado Geral de Cuba

Outra instituição de vanguarda é o Ballet Nacional de Cuba, uma das cinco melhores companhias de ballet clássico do mundo, juntamente com a Ópera de Paris, o Royal Ballet de Londres, o American Ballet Theatre e o Ballet Bolshoi. Além disso, temos a UNEAC (União Nacional de Escritores e Artistas de Cuba): uma organização social, cultural e profissional não governamental, que reúne escritores e artistas cubanos. A UNEAC foi fundada em 22 de agosto de 1961 por nosso poeta nacional Nicolás Guillén, com o objetivo de preservar o projeto de justiça social e independência nacional. Desde sua criação, ela tem sido representada por artistas de reconhecido prestígio em todos os campos.

Por acordo do Conselho de Ministros, o Dia da Cultura Cubana é comemorado a cada 20 de outubro, em homenagem àquele glorioso dia de 1868, quando nosso Hino Nacional, de autoria do patriota Perucho Figueredo, foi cantado pela primeira vez. O ato cultural supremo dos cubanos que, liderados por Carlos Manuel de Céspedes, pai da Pátria, pegaram em armas contra o colonialismo espanhol em 10 de outubro de 1868, iniciando a luta pela independência.

Sem dúvida alguma, este acordo foi também uma homenagem a todos aqueles que tanto contribuíram para a cultura de um país com muita projeção por seu exemplo, sacrifício e grande criatividade e inteligência, apesar das limitações impostas por um bloqueio criminoso desde 1962. Não há instituição cultural que não seja afetada pelos danos causados pelo bloqueio, algo registrado no relatório que Cuba apresenta anualmente à ONU sobre os efeitos do bloqueio.

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Se concordamos que o ser humano é, ao mesmo tempo, o protagonista e principal beneficiário de nossa sociedade, e o compreendemos como o portador da cultura e identidade cubanas, tudo o que fazemos, em termos de criação e pensamento, deve homenagear sua plena dignidade, igualdade e liberdade. Como Cuba trabalha para garantir que cada cidadão incorpore a ética da solidariedade, o humanismo, a justiça e a igualdade em suas tarefas diárias, e rejeita e combate o materialismo vulgar, o comportamento marginal, o egoísmo, a discriminação e a intolerância, ela conta com a cultura como um terreno fértil para o desenvolvimento de tais valores.

Quando Fidel, no Congresso da UNEAC de 1993, pediu para salvar a cultura, algo que reiterou nos momentos mais candentes do período especial, como consequência do colapso do campo socialista, ele não estava se referindo estritamente à proteção de obras, programas e instituições; mas à vida espiritual dos cubanos, concentrada em expressões e valores culturais. De fato, a cultura é a primeira coisa a ser salva, porque cultura é a imaginação e a memória da nação, o centro de sua resistência e seu futuro. Estamos dando continuidade a este esforço no novo contexto nacional e internacional.

*Antonio Mata Salas é Cônsul de Imprensa no Consulado Geral de Cuba, em São Paulo.

Edição: Rogério Jordão