Mesmo tento vencido o primeiro turno das eleições presidenciais chilenas, realizado no domingo (16), a comunista Jeanette Jara não é apontada como favorita para o segundo turno, segundo analistas. Eles avaliam que ela teve menos votos do que o esperado (26,8%) ao mesmo tempo em que José Antonio Kast, conhecido como “Bolsonaro chileno”, superou as expectativas (23,9%).
Além disso, outros candidatos da direita já declararam apoio a Kast: o quarto colocado Johannes Kaiser (13,9%) e a quinta, Evelyn Matthey (12,5%), o que já dá mais de 50% do eleitorado, caso eles transferissem seus votos.
O resultado de Jara foi “abaixo do cenário mais catastrófico”, disse à AFP Rodrigo Espinoza, analista da Universidade Diego Portales. Mais que sua militância comunista, pesou seu papel como ministra do Trabalho do governo de Gabriel Boric.
“Ser ministra e a continuadora de um governo que não atendeu às expectativas sempre representa um desafio”, afirmou o especialista Rodrigo Arellano, da Universidad del Desarrollo.
“Para Jara ganhar, o governo teria que ter sido excelente. Tendo sido normal, ou não muito bom, já era o suficiente para não vencer, dada a força que a direita tem no Chile”, disse ao Brasil de Fato a professora do departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Miriam Gomes Saraiva.
Fiel da balança
Analistas indicam que um elemento que pode influenciar na disputa é o espólio do terceiro colocado no pleito, o economista antissistema de centro Franco Parisi, que teve 19,7% dos votos e construiu sua campanha com um discurso contrário ao atual governo de Gabriel Boric. Em entrevista à AFP, em setembro, Parisi disse que para ele era indiferente ser tachado de “populista” e que estaria disposto a negociar com a direita e a esquerda.
“Tenho uma má notícia para Jara e Kast: vão ter que ganhar os votos na rua. Preciso do aceno deles. O problema é deles”, disse Parisi em um discurso no domingo.
Jara já assegurou que incluirá algumas medidas do economista em seu programa e Kast não fez alusões a Parisi. Os apoiadores de Parisi são aqueles “inconformados com a política e o governo”, explicou Arellano, que considera mais provável que eles optem por Kast ou anulem o voto no segundo turno.
Ausência de centro e tendência à direita
“Quase metade dos chilenos e chilenas não votaram nem em mim, nem em Kast, e a partir de amanhã vamos sair, falar com eles e ouvi-los atentamente”, disse Jara a apoiadores. Apesar do tom confiante de Jara, a tarefa esbarra na tendência à direita do eleitor chileno, segundo Miriam Gomes Saraiva.
Ela cita a Concertación, coalizão de partidos de centro e centro-esquerda que governou o Chile pós ditadura de Pinochet (1973-90) entre 1990 e 2010 e depois entre 2014 e 2018 como força política que se esgotou após o Estallido de 2019. A revolta social de outubro de 2019, tomou as ruas e foi respondida com repressão estatal, que deixou 32 manifestantes mortos e 3,4 mil feridos.
“Daquele ambiente convulsionado, ganhou um candidato de esquerda [Gabriel Boric em 2022], esquerda mesmo, jovem que se projetou nas manifestações. É mais correto dizer que o governo do Boric foi uma exceção, considerando o quadro chileno”, analisa Saraiva.
A analista argumenta que a administração Boric “não foi um governo normal e que agora perdeu, mas, sim, teve muita dificuldade de governar, indicou dois projetos de Constituição em referendo e perdeu os dois”. Para ela, o pleito deste ano traz como novidade a ausência de representatividade de centro.
“Era o papel que a Concertación fazia, mas que agora se desfez.”
Sensação de insegurança
Embora o Chile seja um dos países mais seguros da região, nos últimos anos tem enfrentado um aumento dos homicídios e dos sequestros, que fez disparar a sensação de insegurança, o que propiciou a ascensão da extrema direita. Os homicídios aumentaram 140% na última década, e passaram de uma taxa de 2,5 por 100 mil habitantes para 6 por 100 mil habitantes em 2024, segundo o governo. A média na América Latina é de 15 homicídios por 100 mil habitantes, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).
A professora da Uerj diz que “o fato de o Chile ser mais seguro, em comparação aos países vizinhos, não quer dizer muita coisa. O que é relevante para a gente entender se o tema de segurança é considerado importante ou não, é se houve alguma variação”, pondera Saraiva.
O contexto do medo da criminalidade “é bastante cômodo para a direita mais radical, como aconteceu em outros lugares da América Latina e também no mundo”, disse Rodrigo Espinoza.
Kast, um advogado de 59 anos, que desde sua campanha em 2021 defende a linha-dura, reforçou seu discurso com um “plano implacável” contra a criminalidade e a promessa de expulsar os 337 mil migrantes sem documentos no Chile, aos quais culpa pela insegurança.
Ter mantido esta posição todos estes anos permitiu que os eleitores “acreditassem mais nele”, explica Arellano.
Se vencer, seu governo seria o primeiro de extrema direita no Chile desde a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

