CÚPULA DO BRICS

Guerra comercial, chantagem política e extorsão são as formas dos países ricos manterem o poder e as desigualdades, apontam analistas na Cúpula Popular do Brics

No 1º dia do encontro com a sociedade civil, debate foi sobre mecanismos de dominação do sistema e formas de combatê-la

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O iraniano Hamid Reza Gholamzadeh participou de forma virtual
O iraniano Hamid Reza Gholamzadeh participou de forma virtual | Crédito: Rodrigo Durão Coelho/Brasil de Fato

O bloco dos países do Sul Global, o Brics, é a ferramenta mais capacitada para oferecer uma alternativa globalmente mais justa em comparação ao sistema atual, construído para preservar desigualdades e manter o poder dos países ricos sobre os em desenvolvimento.

Essa é a opinião do especialista do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Maurício Metri, que falou durante o primeiro dia da Cúpula Popular do Brics, nesta segunda-feira (1) no Rio de Janeiro.

“O Brics é a melhor chance de questionar sistema atual, baseado em extorsão e punição”, disse Metri, referindo-se aos sistemas estabelecidos na segunda metade do século 20 e ainda em vigor.

Metri explicou que a ordem mundial foi criada e defendida pelos Estados Unidos, baseada em duas atitudes para com os demais países: extorsão e punição.

“Especialmente após a ampliação da esfera de influência dos EUA no Leste Europeu, na década de 1990, a estrutura passou a ser uma de extorsão, para obrigar países a pagar o custo de guerras e de punição, na forma de sanções, para castigar os que não se submetem.”

“É imperativo ético do bloco criar essa alternativa mais justa”, conclui ele, que cita iniciativas como a criação do banco do Brics como iniciativa bem-sucedida que indica a intenção do bloco no desenvolvimento de opções fora do sistema financeiro tradicional, controlado pelo Ocidente como o Fundo Monetário Internacional ou o Banco Mundial.

Sinal de fraqueza

Na mesma linha, a cubana Katia Chaple afirmou que o Brics é “oportunidade de compartilhar conhecimento entre as nações. Defendemos ainda um sistema de cooperação, que não estimule as desigualdades, como o atual.”

A representante do Departamento de Relações Internacionais do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba apontou como exemplo da perversidade do sistema atual, as sanções – estipuladas desde
1962
– que afetam praticamente todos os aspectos da economia do país.

“Elas impedem, por exemplo, desde cubanos nos Estados Unidos enviarem remessas para parentes na ilha até Havana a ampliar a cooperação com outros países, enviando médicos treinados para onde precisa”, disse ela.

Em participação virtual, o iraniano Hamid Reza Gholamzadeh disse que a sociedade estadunidense vem perdendo o apetite por encampar guerras, especialmente após os fiascos contra Iraque e Afeganistão, que custaram fortunas e inúmeras vidas de cidadãos dos EUA.

“Por isso eles apostam agora em guerras comerciais. Isso está sendo visto todas as partes do mundo como sinal de fraqueza, decadência, e forma de manipular irregularmente os acordos firmados”, disse ele.

O médico Emannuel Alvaréz, da entidade argentina Movimiento Popular Nuestramérica destacou a chantagem do presidente dos EUA, Donald Trump, na recente eleição legislativa do país, condicionando a continuidade de novos empréstimos a uma vitória eleitoral do partido de extrema direita de Javier Milei.

“Da Argentina, a sociedade civil se compromete a construir uma sociedade mais justa, como as que sonharam Túpac Amaru, José de San Martin e Simón Bolívar. Devemos fazer com que os povos sejam protagonistas e nao apenas seus países.”

Alvaréz encerrou pedindo solidariedade ao Haiti, um dos primeiros países a desafiar o imperialismo ocidental, primeiro da França, depois dos EUA – e é há mais de dois séculos punido por isso.

Viva o Haiti!“, disse, arrancando aplausos da plateia.

Encontro histórico

A primeira Cúpula Popular, que ocorre a partir desta segunda-feira (1), encerra o calendário de 2025 do Brics, ano em que o Brasil esteve na presidência do bloco, que reúne países do Sul Global como Rússia, Índia, China e África do Sul. O encontro de quatro dias no Rio de Janeiro (RJ) debate formas de a sociedade civil dos países-membros ampliarem sua participação na governança mundial.

O encontro reúne mais de 150 representantes de movimentos vindos de 21 países, que vão discutir temas como cooperação econômica e a construção da multipolaridade, uma nova configuração da geopolítica mundial, e desdolarização no comércio internacional. A integração da sociedade civil no Brics foi decidida durante o mandato russo à frente do bloco, em 2024, e consolidada pelo Brasil neste ano.

Editado por: Luís Indriunas
Ler em: English

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