ELEIÇÕES

Disputa pelo governo de Minas começa sob desafio de dívida bilionária e crise fiscal

Convenções começam nesta semana; Patrus reforça campo progressista em cenário marcado pelo histórico de Zema

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Pré-candidatos ao governo de Minas Gerais | Crédito: Reprodução

A corrida pelo Palácio Tiradentes entra em uma nova etapa nos próximos dias, quando os partidos iniciam suas convenções para oficializar os candidatos ao governo de Minas Gerais. A disputa, no entanto, será marcada por um desafio que antecede qualquer programa de governo: administrar um estado cuja dívida consolidada ultrapassa R$ 200 bilhões e cuja capacidade de investimento segue comprometida após sete anos da gestão iniciada por Romeu Zema (Novo).

Independentemente de quem vencer as eleições de outubro, o próximo governador ou governadora terá de lidar com um dos maiores passivos fiscais da história de Minas. Ao mesmo tempo, precisará enfrentar demandas históricas nas áreas de saúde, educação, infraestrutura, segurança pública e desenvolvimento econômico, em um cenário de restrições orçamentárias.

Dados da Secretaria de Estado de Fazenda (SEF) mostram que a dívida consolidada de Minas passou de aproximadamente R$ 113 bilhões, em 2019, para mais de R$ 201 bilhões ao final de 2025, sendo cerca de R$ 177 bilhões referentes ao débito com a União.

:: Leia também: Isenções de Zema retiram bilhões de Minas enquanto dívida estadual cresce, afirmam analistas ::

Para o economista Weslley Cantelmo, ouvido pelo Brasil de Fato MG, o crescimento da dívida está diretamente relacionado à estratégia adotada pelo governo Zema de suspender o pagamento das parcelas enquanto aguardava uma solução definitiva para o passivo.

“O que foi suspenso foi apenas o pagamento, não a atualização da dívida. Ela continuou crescendo”, explicou o economista.

Cantelmo também critica a política de incentivos fiscais implementada pelo governo estadual. Segundo dados divulgados pela própria Secretaria de Fazenda, Minas concedeu R$ 19,4 bilhões em renúncias fiscais apenas em 2025, beneficiando grandes empresas e também a Eletrozema, pertencente à família do ex-governador Romeu Zema.

Patrus aposta na experiência em políticas sociais

Entre os nomes já confirmados para a disputa pelo Executivo estadual está o deputado federal Patrus Ananias (PT), cuja pré-candidatura foi aprovada pela Federação Brasil da Esperança. Sua entrada na disputa recoloca no centro do debate um projeto político fortemente identificado com o combate à fome, a participação popular e o fortalecimento das políticas públicas.

Patrus iniciou sua trajetória no Executivo ao ser eleito prefeito de Belo Horizonte em 1992. Durante os quatro anos de gestão, implantou programas que se tornaram referência nacional, como o Restaurante Popular, o Abastecer, o Direto da Roça, o Cestão Popular e o Orçamento Participativo. As iniciativas voltadas à segurança alimentar e à democratização da gestão pública renderam à capital mineira um prêmio da Organização das Nações Unidas (ONU) na área de administração pública.

Depois da experiência na prefeitura, retomou a carreira acadêmica na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) e, em 2003, foi eleito deputado federal com mais de 520 mil votos, uma das maiores votações já registradas para o cargo no estado.

No ano seguinte, assumiu o recém-criado Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, no primeiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). À frente da pasta, coordenou a implantação do Bolsa Família, além da expansão dos Centros de Referência de Assistência Social (Cras), dos Restaurantes Populares, das Cozinhas Comunitárias, dos Bancos de Alimentos e de outras ações que consolidaram o programa Fome Zero como uma das principais políticas públicas de combate à pobreza do país.

Posteriormente, também comandou o Ministério do Desenvolvimento Agrário durante o governo da presidenta Dilma Rousseff (PT), desenvolvendo ações voltadas à agricultura familiar, à agroecologia, ao cooperativismo e à reforma agrária. No Congresso Nacional, exerceu sucessivos mandatos de deputado federal e integrou comissões ligadas aos direitos humanos, à Constituição e Justiça e à soberania nacional.

Simões tenta manter grupo político no poder

Quem tentará dar continuidade ao projeto iniciado por Romeu Zema é o atual governador Mateus Simões (PSD), que assumiu o comando do Executivo mineiro após a renúncia do ex-governador, em março deste ano.

Ex-secretário-geral do governo Zema e eleito vice-governador em 2022, Simões chega ao processo eleitoral acumulando uma série de desgastes políticos e administrativos.

Nos últimos meses, seu governo foi alvo de questionamentos após a suspensão de um contrato de R$ 348 milhões na área da educação em meio a denúncias de irregularidades, da abertura de investigação pelo Ministério Público de Minas Gerais sobre suposto uso institucional da Agência Minas para promoção pessoal, além de embates públicos com órgãos de controle em torno da implementação das escolas cívico-militares.

O governador também enfrentou críticas após declarações consideradas inadequadas durante cerimônias oficiais e viu a oposição acionar órgãos de fiscalização em episódios envolvendo o patrimônio do Palácio das Mangabeiras e mudanças promovidas na estrutura ambiental do estado após o avanço de investigações da Polícia Federal sobre licenciamento ambiental. O governo estadual nega irregularidades e afirma atuar dentro da legalidade.

Cenário reúne candidaturas de diferentes campos políticos

Além de Patrus e Mateus Simões, outros partidos já confirmaram ou anunciaram seus nomes para a disputa pelo governo mineiro.

Pelo PDT, o ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil volta a disputar o Executivo estadual, agora defendendo uma candidatura de centro e com discurso voltado à renegociação da dívida pública e à recuperação dos serviços essenciais.

O MDB confirmou o vereador Gabriel Azevedo, que aposta em um perfil independente e na experiência acumulada à frente da Câmara Municipal de Belo Horizonte.

O PSB lançou o ex-procurador-geral de Justiça Jarbas Soares como pré-candidato. Já o Psol confirmou a professora e militante feminista Maria da Consolação Rocha, uma das fundadoras da legenda em Minas Gerais.

Pelo PCB, o nome escolhido é o professor e historiador Túlio Lopes, ligado aos movimentos sindical e estudantil. A Unidade Popular (UP) apresentou a educadora popular Indira Xavier como representante da legenda, enquanto o PSTU confirmou o minerador Rafael Duda.

Na direita, o Partido Missão lançou o jornalista e advogado Ben Mendes, conhecido nacionalmente pelo projeto “Ronda do Consumidor”.

Convenções começam nesta semana

As convenções tiveram início com a Unidade Popular (UP), em 20 de julho, e seguem nas próximas semanas. O Partido Missão realiza seu encontro em 22 de julho, o PL em 23 de julho, o PSTU em 24 de julho, o PCB em 25 de julho e Psol, Rede e PDT no dia 26.

Já a Federação Brasil da Esperança (PT, PV e PCdoB) realiza sua convenção em 31 de julho. MDB e União Progressista (União Brasil e PP) oficializam seus candidatos em 1º de agosto, enquanto PSB e PSD realizam seus encontros em 2 de agosto. O calendário se encerra em 5 de agosto, com a convenção do Republicanos.

O futuro de Minas em disputa

Embora representem projetos políticos distintos, especialistas apontam que os pré-candidatos terão de responder a uma mesma pergunta ao longo da campanha: como recuperar a capacidade financeira de Minas Gerais sem aprofundar o endividamento do estado e garantindo investimentos em políticas públicas.

O tamanho do desafio também influencia a movimentação de outras lideranças políticas. O senador Cleitinho (Republicanos) ainda não confirmou se entrará na corrida eleitoral. Segundo informações de pessoas próximas ao parlamentar, a possibilidade de assumir um estado com graves problemas fiscais e se tornar um alvo da crise tem contribuído para sua indefinição sobre a candidatura.

Editado por: Lucas Wilker

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