Cerca de 16,7 milhões de brasileiros deixaram a condição de privação alimentar grave no período do triênio 2023-2025, chegando à menor taxa de insegurança alimentar severa desde o início da série histórica da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Os dados foram divulgados na terça-feira (21) e estão consolidados no relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2026 (SOFI).
Em entrevista ao É de Manhã, da Rádio Brasil de Fato, a professora Elisabetta Recine, presidenta do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, destaca que, desde o ano passado, o Brasil já apresentava bons índices que colocavam o país fora do mapa da fome, o que tinha acontecido pela primeira vez em 2014, durante o governo da presidenta Dilma Rousseff (PT).
Pouco tempo depois, nas gestões Michel Temer e Jair Bolsonaro, os brasileiros voltaram a ter dificuldade de se alimentar. No final de 2022, com o impulso da pandemia, Recine afirma que mais de 33 milhões de pessoas estavam passando fome. Em menos de três anos, o cenário se modificou, indicando recuperação.
“Esses resultados confirmam um processo virtuoso de reconquista de condições de vida, de cidadania para a nossa população”, resume.
De acordo com a especialista, os bons resultados de agora estão ligados a uma combinação de retomada econômica e de políticas sociais do governo Lula 3. “Foi um resultado importante, porque a velocidade com que isso foi alcançado era uma velocidade até não prevista. Felizmente, ela foi alcançada e o relatório desse ano mantém esses resultados. Isso é importante porque, logicamente, as pessoas estarem em segurança alimentar, isto é, tendo condições de se alimentarem, é a base de sustentação para todas outras rotinas da vida”, avalia.
“Não dá para pensar que pessoas que estejam preocupadas em garantir a sua refeição naquele dia consigam planejar sua vida, consigam organizar sua rotina, consigam trabalhar de maneira constante. É a base de sustentação individual, mas também da própria sociedade você ter um país onde a fome não é uma realidade”, reforça a especialista.
Elisabetta Recine também avalia índices de outros países e destaca negativamente a situação do continente africano, onde há diversos países enfrentando conflitos internos. “A África passa a ser o continente com maior insegurança alimentar. Antes era a Ásia. Isso certamente está relacionado a conflitos importantes que causam uma ruptura em políticas sociais e mesmo na produção de alimentos”, explica.
Outra situação complexa que aparece no relatório é o acesso a alimentos saudáveis: em torno de 2 bilhões de pessoas no mundo não conseguem garantir esse consumo de qualidade. “O estudo mostra uma situação muito preocupante e mostra que em torno de 30% da população mundial não tem condições financeiras de conseguir comprar uma dieta minimamente diversificada. O Brasil e a América Latina, em particular, têm esse desafio de baratear o acesso a uma alimentação diversificada e saudável. Logicamente, isso está ligado à nossa capacidade de produção diversificada, mas também a questões estruturais da inflação de alimentos”, analisa.
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