MOVIMENTO NEGRO

Nova coordenação do MNU-RS toma posse com maioria de mulheres

Reconduzida ao cargo, Iyá Sandrali Bueno defende políticas de igualdade racial e expansão da organização no estado

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Cerimônia na Assembleia Legislativa do RS reuniu lideranças do movimento negro, parlamentares e representantes de organizações sociais
Cerimônia na Assembleia Legislativa do RS reuniu lideranças do movimento negro, parlamentares e representantes de organizações sociais | Crédito: Charles Scholl

A nova coordenação estadual do Movimento Negro Unificado (MNU) do Rio Grande do Sul para a gestão 2026-2030 tomou posse na terça-feira (21), em cerimônia realizada na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Reconduzida ao cargo, Iyá Sandrali Bueno afirmou que o novo mandato será marcado pelo fortalecimento da organização popular, pela defesa dos direitos da população negra e pela articulação com diferentes setores da sociedade.

O ato reuniu a ministra das Mulheres, Márcia Helena Carvalho Lopes, parlamentares, representantes de movimentos sociais e lideranças do movimento negro. Durante a solenidade, também foi prestada uma homenagem à secretária-geral do MNU-RS, Vera Lúcia Goulart da Rosa, servidora do Sindicato dos Servidores Federais no Rio Grande do Sul (Sindiserf), falecida neste ano.

A cerimônia foi aberta pelas crianças do MNU Erê, Helena e Gilbert, que destacaram o legado das gerações que construíram a luta antirracista. “A luta do povo negro não é apenas sobre o passado. Ela é sobre o dia de hoje e, principalmente, sobre o amanhã”, afirmaram. A programação também contou com apresentações culturais de Iyá Bia da Ilha (Beatriz Gonçalves Pereira) e da poeta de slam Ingrid Farias.

Em discurso de posse, Iyá Sandrali lembrou que o MNU nasceu em 1978 para enfrentar o racismo estrutural e afirmou que, quase cinco décadas depois, os desafios permanecem. “Ainda convivemos com o genocídio da juventude negra. Ainda vemos mulheres negras ocupando os postos de trabalho mais precarizados e recebendo os menores salários. Ainda assistimos ao racismo religioso atingir comunidades tradicionais de matriz africana. Ainda enfrentamos o encarceramento em massa da população negra e o racismo ambiental que afeta periferias, quilombos e territórios tradicionais.”

Para Iyá Sandrali, essas desigualdades “não são naturais”. “São resultado de escolhas históricas e, por isso mesmo, podem e devem ser transformadas.” Segundo a coordenadora, o compromisso da nova gestão é fortalecer o MNU como “uma organização democrática, plural, combativa e profundamente comprometida com sua base”, ampliando o diálogo entre gerações, movimentos sociais, universidades, quilombos, terreiros e comunidades.

Iyá Sandrali Bueno foi reconduzida à Coordenação Estadual do MNU-RS em cerimônia da Assembleia Legislativa do RS | Crédito: Charles Scholl

Defesa e representatividade

Entre as prioridades da gestão, Iyá Sandrali destacou a defesa das ações afirmativas, da titulação dos territórios quilombolas, da implementação efetiva das leis que tratam da história e da cultura afro-brasileira e africana, da liberdade religiosa, da justiça ambiental e do fortalecimento do Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial.

A coordenadora também defendeu o fortalecimento da comunicação do movimento diante dos desafios atuais. “Precisamos dialogar melhor com as redes sociais sem abandonar o trabalho de base. Precisamos formar comunicadores comprometidos com a verdade, combater a desinformação e construir uma narrativa positiva sobre o povo negro, baseada na nossa história, na nossa ciência, na nossa arte, na nossa espiritualidade e na nossa capacidade de transformar o Brasil.”

Outro ponto enfatizado por Iyá Sandrali foi a preservação da memória do movimento. Ao fazer um apelo às universidades, defendeu que o acervo histórico do MNU seja preservado. “Nós temos um acervo. Nós queremos que esse acervo seja cuidado com a dignidade que a história do MNU merece.”

Ao destacar que 73% da nova coordenação é formada por mulheres, Iyá Sandrali afirmou que o resultado expressa a trajetória construída pelas mulheres negras dentro do movimento. “Nossa presença na liderança não representa exceção. Representa a continuidade de uma história construída por tantas outras mulheres que abriram caminhos antes de nós.”

Representando o governo federal, a ministra das Mulheres, Márcia Helena Carvalho Lopes, destacou a trajetória do movimento negro gaúcho e afirmou que o Rio Grande do Sul possui uma forte tradição de organização popular. “Eu vou onde me convidam. Eu vou ao encontro das pessoas, dos movimentos e da luta. Esse estado tem isso. Corre um sangue vermelho nas veias de vocês, da diversidade desse país. Vocês têm que se orgulhar de tudo o que têm feito na luta contra o racismo, a transfobia e todas as formas de discriminação.”

A ministra ressaltou que não é possível construir a igualdade entre homens e mulheres sem enfrentar o racismo. “Jamais falo que o Ministério das Mulheres quer igualdade de gênero sem falar de gênero, etnia e raça. Sem essa igualdade, nós não vamos marchar para uma vida de felicidade, solidariedade e convivência.”

Ao abordar a Lei da Igualdade Salarial, Lopes lembrou que as mulheres ainda recebem, em média, 21,3% menos que os homens no exercício da mesma função. Ao mesmo tempo, destacou o crescimento de 11% da participação feminina no mercado de trabalho e o aumento de 29,9% da presença de mulheres negras. “Às vezes a gente trabalha muito e não percebe as mudanças que estão acontecendo. Esses resultados mostram que as políticas públicas fazem diferença.”

Luta coletiva

Ao encerrar o discurso, Iyá Sandrali afirmou que assume pela segunda vez a coordenação estadual do Movimento Negro Unificado (MNU-RS) em continuidade a uma construção coletiva iniciada por gerações que antecederam a atual direção da entidade. “Nenhuma pessoa chega sozinha a este lugar. Chego acompanhada pela força dos nossos ancestrais, pela coragem daqueles que resistiram à escravidão, pelos quilombos que ensinaram o significado da liberdade e pelas lideranças que enfrentaram a violência do racismo sem jamais abandonar a esperança.”

Segundo a coordenadora, a nova gestão terá como prioridades fortalecer o MNU como uma organização democrática e plural, ampliar a presença do movimento nos municípios, fortalecer os núcleos locais, formar novas lideranças, incentivar a participação da juventude e ampliar a presença das mulheres negras nos espaços de direção. “Não acredito em lideranças que concentram poder. Acredito em lideranças que distribuem responsabilidades. Nossa gestão será marcada pelo diálogo permanente.”

Iyá Sandrali também agradeceu o apoio recebido durante o processo eleitoral interno e fez um chamado à unidade do movimento. A coordenadora afirmou que a nova direção representa toda a militância, independentemente das posições assumidas durante a disputa. “As divergências fazem parte da democracia. O que deve nos unir é um objetivo maior: o combate ao racismo e a construção de um país mais justo.”

Ao concluir, reafirmou que a recondução à coordenação está a serviço da história coletiva do Movimento Negro Unificado. “Não assumo este cargo para ser protagonista de uma história individual. Assumo essa responsabilidade para contribuir com uma história coletiva.”

Abaixo a atual coordenação:

Coordenação Estadual
Titular: Ìyá Sandrali de Campos Bueno 
Adjunta: Ìyá Vera Soares  

Coordenação de Organização 
Titular: Mariana Moura 

Coordenação de Finanças 
Titular: Ana Paula Silva Vargas 

Coordenação de Formação
Titular: Winnie de Campos Bueno 

Coordenação de Comunicação
Titular: Marina Miranda dos Santos 

Coordenação Jurídica
Titular: Alan Carlos Dias da Silva

Coordenação de Articulação de Base
Titular: Cláudia Rosana de Freitas Dutra 

Coordenação de Mulheres
Titular: Alair Rosinete Silva Simão

Coordenação LGBTQIAPN+
Titular: Júlio Cezar da Silva Santos (Babá Júlio de Oxalá) 

Coordenação de Políticas Educacionais
Titular: Ìyá Carmem de Holanda 

Coordenação Quilombola
Titular: Maria Jaciane da Silva Flores 

Coordenação de Saúde
Titular: Fernanda Vargas 

Coordenação de Matriz Africana
Titular: Ìyá Vera Soares 

Coordenação de Cultura
Titular: Dilmair Monte dos Santos 

Coordenação de Relações Institucionais
Titular: Márcia Terezinha Fernandes 

Coordenação de Relações com os Movimentos Sociais, Populares e Sindicais
Titular: Luiz Felipe de Oliveira Teixeira 

Coordenador de Política de Meio Ambiente e Justiça Climática
Titular: Antonio Matos

Editado por: Marcelo Ferreira

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