O Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, celebrado em 25 de julho, teve origem em 1992, quando ocorreu o 1º Encontro de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas em Santo Domingo, na República Dominicana. A data é um chamado para o fortalecimento das organizações das mulheres negras na luta contra a violência racista e patriarcal.
No Brasil, desde 2014, a data também se tornou o Dia de Tereza de Benguela, que celebra a rainha do maior Quilombo de Mato Grosso, o Quilombo do Quariterê, que resistiu à escravidão por cerca de duas décadas no século XVIII.
Assim como Tereza de Benguela, muitas outras mulheres negras contribuíram e contribuem para que o Brasil possa superar suas profundas desigualdades de raça, classe e gênero. Minas Gerais é o berço de algumas delas, que em diversas áreas colocaram em debate a identidade das mulheres negras, seus problemas e lutas.
Quem são elas?
Uma das pioneiras do feminismo negro é Lélia Gonzalez. Ela nasceu em Belo Horizonte, em 1935, mas construiu sua trajetória como intelectual e militante no Rio de Janeiro. Formou-se em história, geografia e filosofia e se dedicou aos estudos sobre gênero, etnia e cultura brasileira. Ao cunhar o conceito de amefricanidade, Lélia Gonzalez apontou a necessidade de reconhecermos as influências indígenas e negras na cultura latinoamericana e também suas experiências comuns de opressão e resistência.
Sua atuação acadêmica foi conjugada com a ação política. Lélia participou da fundação de organizações políticas como o Movimento Negro Unificado (MNU), o Coletivo de Mulheres Negras N’Zinga e o Partido dos Trabalhadores (PT). Foi candidata a deputada estadual pelo PT e pelo PDT e atuou no Conselho Nacional dos Direitos da Mulher. Colaborou também com diversos movimentos artísticos e culturais.
Em uma passagem pelo Brasil, Ângela Davis, uma das intelectuais e militantes mais importantes de nossa época, nos deu a dimensão do legado da vida e da obra de Lélia ao dizer: “Eu aprendo mais com Lélia Gonzalez do que vocês comigo”.
Outra mineira que ganhou o mundo com seus escritos foi Carolina Maria de Jesus. Bitita, como era chamada, nasceu em Sacramento, município próximo de Araxá (MG) e foi declarada “poetisa” desde muito cedo. Embora seu acesso à educação formal tenha sido escasso, era uma ávida leitora e escritora. Morou no Rio de Janeiro e em São Paulo, trabalhando principalmente como empregada doméstica. No entanto, frequentava as redações de jornais e outros espaços que permitissem a divulgação de seus trabalhos como escritora.
Foi enquanto morava na favela do Canindé, em São Paulo, e trabalhava como catadora, que Carolina conseguiu publicar seu primeiro livro, por intermédio de um jornalista. “Quarto de Despejo” foi sucesso de vendas e de público. Os diários mostram o cotidiano da favela, as dificuldades enfrentadas por Carolina com seus filhos e suas reflexões sobre a política, a pobreza, o racismo e outros temas importantes da realidade brasileira.
Ela também gravou suas composições em um disco e publicou outros três livros antes de morrer em 1977. Deixou manuscritos, que foram publicados postumamente e sua obra ainda é tema de estudos e debates no Brasil e no mundo.
Quem propõe novas leituras sobre a obra de Carolina é a também escritora Conceição Evaristo. Ela viveu com a família na favela do Pindura Saia, na zona sul de Belo Horizonte, até 1971, quando as casas e becos foram destruídos pela prefeitura. O lugar foi eternizado em seu livro Becos da Memória, publicado em 2006. Foi também em 1971 que ela se formou no curso normal e, pouco tempo depois, em 1973, foi para o Rio de Janeiro para trabalhar como professora.
Se formou em letras na UFRJ e entrou em contato com diversos movimentos políticos e literários. Apesar de escrever há muito tempo, a publicação de seu primeiro texto aconteceu quando Conceição Evaristo tinha 44 anos. Sua obra em diversos gêneros — contos, poesia, romance e ensaios — aborda as vivências e subjetividades negras com profundidade, no que ela denomina como escrevivências, “as experiências e a vida das mulheres negras que vazam nos textos criativos, na literatura e que não é para adormecer os da casa grande, mas para acordá-los. Não é uma história individual, uma ficção do eu, mas uma ficção do coletivo”.
Escrevem e escreveram a história
Outra mulher fundamental para a compreensão das relações étnico-raciais no Brasil é Nilma Lino Gomes. Nascida em Belo Horizonte, ela é pedagoga e professora da UFMG, com uma obra que aborda a construção da identidade negra, a formação de professores e o movimento negro como importante agente de produção de saberes no interior das lutas por emancipação.
A intelectual tem uma trajetória pioneira. Foi a primeira mulher negra a ocupar o cargo de reitora de uma universidade federal brasileira, a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira – UNILAB, nos anos de 2013 e 2014. No ano seguinte, ela seria ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (2015) e, posteriormente, ministra das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos.
Além de sua produção acadêmica e da trajetória em diversos órgãos e programas de construção de políticas públicas, Nilma também tem obras de linguagem literária e é reconhecida como uma das intelectuais mais importantes do Brasil.
Makota Celinha também segue na luta em defesa dos direitos do povo negro e, principalmente, da liberdade religiosa. Célia Gonçalves Souza é jornalista, professora, militante, ativista social e coordenadora do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro Brasileira (Cenarab). Nascida em Belo Horizonte, foi a primeira da família a cursar o ensino superior.
Entrou em contato com o MNU no fim da década de 1980, quando uma série de movimentos emergiram a partir da redemocratização do Brasil. Em 1991, no 1° Encontro Nacional de Entidades Negras- ENEN, seria fundado o Cenarab, entidade que ela coordena com a missão de combater a intolerância religiosa e a discriminação.
Por sua atuação na defesa da cultura afro-brasileira e pela preservação das tradições de matriz africana, Makota Celinha recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Estadual de Alagoas.
