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Mortes violentas aumentam 5,8% no DF após mais de uma década de queda; 29 foram feminicídios

Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra alta da violência contra mulheres e do crime de racismo

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Imagem produzida em que qulher aparece em silhueta pedindo socorro em fundo vermelho
Uma mulher é estuprada a cada seis minutos no Brasil | Crédito: Freepik

O Distrito Federal encerrou 2025 com um cenário de segurança pública marcado por movimentos opostos. Enquanto os crimes patrimoniais continuaram em queda e a capital permaneceu entre as unidades da Federação com as menores taxas de violência letal do país, as mortes violentas voltaram a crescer pela primeira vez em mais de uma década. O avanço dos feminicídios, das ocorrências de violência contra mulheres e do tráfico de drogas também aparece entre os principais alertas do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (24) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

Os dados mostram que o Distrito Federal registrou 287 Mortes Violentas Intencionais (MVI) em 2025, frente às 270 vítimas contabilizadas em 2024, aumento de 5,8%. O indicador reúne homicídios dolosos, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e mortes decorrentes de intervenção policial.

A taxa para 100 mil habitantes passou de 9,1 para 9,6 mortes, permanecendo muito abaixo da média nacional, de 19,1. Apenas Santa Catarina, com taxa de 7,6, e São Paulo, com 7,8, apresentaram índices inferiores aos do Distrito Federal.

Apesar da posição relativamente favorável no cenário nacional, o resultado representa uma inflexão importante na trajetória recente da segurança pública local. A série histórica do Anuário mostra que o DF vinha reduzindo gradualmente o número de mortes violentas desde 2012, quando registrou 871 vítimas. Ao longo dos anos seguintes, o indicador apresentou sucessivas quedas até atingir, em 2024, o menor patamar da série. O crescimento observado em 2025 interrompe esse ciclo e acende um sinal de alerta sobre a evolução da violência letal no território.

O levantamento revela um panorama de contrastes. Enquanto homicídios e latrocínios voltaram a crescer, roubos de veículos, celulares e a transeuntes registraram queda. Ao mesmo tempo, o Distrito Federal passou a concentrar alguns dos indicadores mais elevados do país em crimes contra mulheres.

Homicídios e latrocínios impulsionam alta das mortes violentas

Os homicídios dolosos continuaram concentrando a maior parte das mortes violentas registradas no Distrito Federal. Em 2025, foram 253 vítimas, aumento de 8,1% em relação ao ano anterior. A taxa chegou a 8,4 homicídios por 100 mil habitantes, permanecendo abaixo da média nacional, mas interrompendo a tendência de redução observada nos últimos anos.

O crescimento mais expressivo ocorreu nos casos de latrocínio, modalidade que reúne roubos seguidos de morte. O número de vítimas passou de oito para 13 em apenas um ano, alta de 61,7%. Embora represente uma parcela menor das mortes violentas, a variação chama atenção por ocorrer justamente em um período em que os roubos apresentaram retração no Distrito Federal.

A letalidade decorrente de intervenção policial, por outro lado, permaneceu entre as menores do país. Em 2025, foram registradas 14 mortes provocadas por ações policiais, taxa de 0,5 por 100 mil habitantes. O Distrito Federal também não registrou policiais civis ou militares mortos em confrontos ao longo do período analisado. O Anuário, entretanto, contabiliza dois suicídios de policiais da ativa.

Violência contra mulheres

Se a retomada do crescimento das mortes violentas já representa um ponto de atenção, é no capítulo dedicado à violência de gênero que o Anuário concentra um dos diagnósticos mais preocupantes sobre a realidade do Distrito Federal.

O levantamento destaca que o DF registrou aumento em todos os nove indicadores de violência contra mulheres analisados entre 2024 e 2025. O crescimento foi observado nos casos de homicídio, feminicídio, tentativa de homicídio, tentativa de feminicídio, ameaça, lesão corporal decorrente de violência doméstica, perseguição (stalking), violência psicológica e estupro.

Os dados revelam que a violência se intensifica em diferentes etapas do ciclo de agressões. O crescimento simultâneo de crimes que vão desde ameaças e perseguições até os assassinatos de mulheres indica um cenário em que a violência doméstica e de gênero continua produzindo impactos persistentes, mesmo diante da ampliação de mecanismos de proteção e denúncia.

Os feminicídios passaram de 22 para 29 vítimas entre 2024 e 2025, alta de 31,1%. A taxa alcançou 1,9 caso por 100 mil mulheres. Esses assassinatos já estão contabilizados entre os homicídios dolosos e, consequentemente, integram o total de Mortes Violentas Intencionais.

Entre as mulheres assassinadas, quatro possuíam Medida Protetiva de Urgência (MPU) ativa quando foram mortas. Isso evidencia que, embora a medida represente um dos principais instrumentos previstos na Lei Maria da Penha para interromper a escalada da violência, ela nem sempre consegue impedir um desfecho fatal.

Também cresceram as tentativas de feminicídio, que passaram de 86 para 93 casos, e os registros de descumprimento de medidas protetivas, que chegaram a 2.697 ocorrências, aumento de 18,7% em relação ao ano anterior.

Outro indicador que coloca o Distrito Federal entre os estados com maiores índices do país é o de ameaça contra mulheres. Foram 1.477,9 registros para cada 100 mil habitantes, a terceira maior taxa nacional. O DF também apresentou a maior taxa de importunação sexual do Brasil, com 37,4 ocorrências por 100 mil habitantes, equivalente a 1.121 casos registrados em 2025.

Segundo o Anuário, parte desses números pode refletir a existência de uma rede mais estruturada para acolhimento das vítimas, com delegacias especializadas, canais de denúncia e maior capacidade institucional para registrar ocorrências que, durante anos, permaneceram invisibilizadas. Ao mesmo tempo, o crescimento simultâneo de todos os indicadores evidencia que a violência de gênero continua sendo um dos principais desafios para a segurança pública do Distrito Federal.

A violência sexual também apresenta um quadro complexo. Embora o total de vítimas de estupro e estupro de vulnerável tenha registrado leve redução de 3,8%, totalizando 933 casos em 2025, o recorte por sexo revela tendência oposta. Entre as vítimas do sexo feminino, os registros aumentaram 7,1%, passando de 736 para 792 mulheres e meninas.

O relatório também chama atenção para um aspecto específico da produção dos dados do Distrito Federal. O levantamento destaca que os casos envolvendo vítimas menores de 14 anos são, em sua maioria, classificados corretamente como estupro de vulnerável, conforme determina a legislação brasileira. Ao mesmo tempo, alerta para a permanência de registros em que os autores da violência aparecem identificados como “companheiros” de crianças nessa faixa etária, classificação considerada incompatível com a proteção integral assegurada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Discriminação coloca DF entre os maiores índices do país

O levantamento também evidencia o crescimento e a maior visibilidade dos crimes motivados por discriminação no Distrito Federal. A taxa de injúria racial chegou a 28,9 casos por 100 mil habitantes, a maior registrada entre todas as unidades da Federação. Ao todo, foram 867 ocorrências em 2025.

Já os registros de racismo alcançaram taxa de 30,3 casos por 100 mil habitantes, a segunda maior do país, totalizando 908 ocorrências. Segundo o Anuário, 95,5% dos registros relacionados ao racismo correspondem à modalidade de injúria racial, reflexo das mudanças promovidas pela legislação e do aperfeiçoamento na classificação jurídica desses crimes.

O relatório atribui parte desses números à atuação da Delegacia Especial de Repressão aos Crimes por Discriminação (Decrin), estrutura especializada que amplia a identificação e o registro de ocorrências que, historicamente, permaneciam invisíveis nas estatísticas oficiais.

Entre a população LGBT+, o Distrito Federal contabilizou 143 registros de crimes motivados por homofobia ou transfobia e 122 casos de lesão corporal dolosa. Para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a ampliação dos registros contribui para dimensionar a violência sofrida por esses grupos e fortalece a formulação de políticas públicas de enfrentamento à discriminação.

Crianças e adolescentes

Embora o Distrito Federal tenha registrado a menor taxa de letalidade juvenil do país, com 1,7 morte por 100 mil habitantes entre pessoas de zero a 17 anos, o número absoluto de vítimas mais que dobrou. Foram 12 mortes violentas em 2025, contra cinco registradas no ano anterior, aumento de 144,3%.

Outros indicadores envolvendo crianças e adolescentes também apresentaram crescimento expressivo. Os casos de aliciamento infantil para fins libidinosos aumentaram 309,9% em relação a 2024. O levantamento ainda contabilizou 116 registros de bullying e 17 casos de cyberbullying, reforçando a ampliação de diferentes formas de violência que atingem esse público.

No sistema socioeducativo, o Distrito Federal aparece com a terceira maior taxa de adolescentes internados em meio fechado do país. Ao todo, 377 jovens cumpriam medida socioeducativa de internação em 2025, o equivalente a 102,1 adolescentes para cada 100 mil habitantes nessa faixa etária.

Sistema prisional

A situação do sistema penitenciário permanece entre os principais desafios estruturais apontados pela pesquisa.

O Distrito Federal encerrou 2025 com 29.054 pessoas privadas de liberdade, enquanto a capacidade instalada do sistema é de 14.673 vagas. Na prática, isso significa que há aproximadamente dois presos para cada vaga disponível, evidenciando um cenário permanente de superlotação.

A taxa de aprisionamento chegou a 969,5 pessoas presas por 100 mil habitantes, a segunda maior entre todas as unidades da Federação.

Além do déficit de vagas, o levantamento aponta dificuldades relacionadas à reinserção social da população carcerária. Apenas 15,9% dos presos exerciam alguma atividade laboral. Entre aqueles que trabalhavam, 1.196 recebiam remuneração entre um e dois salários mínimos, enquanto 2.963 desempenhavam atividades sem qualquer remuneração.

Na área da saúde, o sistema prisional registrou 24 mortes por causas naturais ou relacionadas a doenças, além de três óbitos classificados com causa desconhecida.

Orçamento da segurança pública

As ocorrências de tráfico de drogas voltaram a crescer no Distrito Federal em 2025. Foram 2.956 registros, aumento de 19,5% em relação às 2.463 ocorrências contabilizadas em 2024. Com isso, a taxa chegou a 98,6 casos por 100 mil habitantes, ligeiramente acima da média nacional, de 97.

A série histórica do Anuário mostra que os registros vêm aumentando desde 2022. Naquele ano, o Distrito Federal contabilizou 2.167 ocorrências. Em 2023, o número subiu para 2.354; em 2024, para 2.463; e alcançou 2.956 casos em 2025, representando a maior alta proporcional da região Centro-Oeste no período analisado.

O levantamento também contabiliza 273.194 registros ativos de armas de fogo no Sistema Nacional de Armas (Sinarm). A maior parte pertence a pessoas jurídicas, que concentram 246.397 registros, enquanto o restante está vinculado a pessoas físicas.

Na área orçamentária, o Governo do Distrito Federal destinou R$ 1,7 bilhão à segurança pública em 2025, aumento de 10,4% em comparação ao ano anterior. Apesar do crescimento nominal dos investimentos, a área respondeu por apenas 3,9% do orçamento executado, a menor participação proporcional entre todas as unidades da Federação.

Segundo o Anuário, o governo distrital também não informou despesas específicas destinadas à subfunção Informação e Inteligência, concentrando os investimentos principalmente em policiamento, infraestrutura e manutenção das forças de segurança.

Golpes digitais em alta

A pesquisa aponta redução nas principais modalidades de roubo registradas em 2025. Ao mesmo tempo, o avanço dos golpes praticados no ambiente virtual indica crimes cada vez mais direcionados às fraudes financeiras e ao uso de tecnologias.

O número total de roubos caiu 20,7% em relação a 2024, passando para 11.961 ocorrências. O roubo a transeunte, modalidade com maior volume de registros no Distrito Federal, recuou 15,5%, encerrando o ano com 9.106 casos.

Também houve redução nos roubos e furtos de veículos, que somaram 3.820 ocorrências, queda de 15,8% em comparação com o ano anterior. Nos crimes envolvendo celulares, a redução foi de 10%. Ao longo de 2025, foram registrados 20.897 aparelhos subtraídos, sendo 7.182 roubados e 13.715 furtados.

Outra modalidade que apresentou forte retração foi o roubo de cargas, que passou de 18 ocorrências em 2024 para apenas cinco no ano seguinte, redução de 72,4%. Já os casos de receptação cresceram 3,9%, totalizando 2.390 registros.

Apesar da diminuição dos roubos, o Distrito Federal continua figurando entre as unidades da Federação mais impactadas pelos crimes de fraude. Em 2025, foram registrados 51.457 casos de estelionato, o equivalente a uma taxa de 1.717 ocorrências por 100 mil habitantes, a segunda maior do país, atrás apenas de São Paulo.

O avanço das fraudes eletrônicas explica boa parte desse cenário. O estelionato praticado por meios digitais cresceu 36,6% em relação a 2024, alcançando 25.658 ocorrências. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a elevada digitalização da população do Distrito Federal, aliada ao amplo acesso a serviços bancários e plataformas de pagamento eletrônico, contribui para a expansão desse tipo de crime.

O próprio Anuário estabelece uma relação entre o aumento das fraudes e os roubos e furtos de celulares. Em muitos casos, os aparelhos subtraídos são utilizados para acessar aplicativos bancários, contas digitais e dados pessoais das vítimas, ampliando os prejuízos para além da perda do telefone.


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Editado por: Clivia Mesquita

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