MÚSICA PELO MUNDO

Paléo Festival: a cidade que dura seis dias

Evento na Suíça reúne 250 mil pessoas, mobiliza 5 mil voluntários e enfrenta as mudanças climáticas na 49ª edição

No audio source provided.
Paléo Festival reúne 250 mil pessoas e artistas de cerca de 30 países em Nyon, na Suíça
Paléo Festival reúne 250 mil pessoas e artistas de cerca de 30 países em Nyon, na Suíça | Crédito: Lucie Gertsch/Divulgação Paléo Festival

Por seis dias, a planície de Nyon deixa de ser um campo aberto. Palcos, tendas, bares e áreas de convivência brotam do chão. Uma metrópole temporária, movida pela música e pelo trabalho voluntário, recebe 250 mil pessoas — vindas de toda a Suíça e de dezenas de países. É o Paléo Festival, que, em 2026, chegou à 49ª edição e acaba de ser eleito o melhor grande festival da Europa no European Festival Awards.

O que sustenta essa cidade de seis dias, porém, não são apenas os holofotes. Há também as preocupações de quem a organiza — especialmente diante das mudanças climáticas e das ondas de calor cada vez mais intensas que assolam a Europa.

Em coletiva de imprensa, Daniel Rossellat, fundador e presidente da associação Paléo Arts et Spectacles, destacou uma das principais ansiedades da equipe: o clima. O Paléo mantém uma estação meteorológica própria e um meteorologista em tempo integral durante o evento para monitorar calor extremo, tempestades e outros fenômenos.

Há ainda planos de contingência, como o protocolo “Dilúvio”, para lidar com chuvas intensas e lama no terreno. “Monitoramos tudo de perto”, afirmou Rossellat.

A programação deste ano reúne 103 artistas de cerca de 30 países em mais de 200 shows. Entre os destaques estão Katy Perry, The Cure, Gorillaz, Twenty One Pilots, Lorde, Gims, ZAZ, Orelsan e Theodora — nomes que atravessam gerações e estilos musicais.

A cultura lusófona também marca presença no Paléo. Os portugueses do Buraka Som Sistema sobem ao palco do festival, trazendo uma sonoridade que mistura kuduro, música eletrônica e ritmos africanos — uma fusão construída entre Lisboa, Angola e a diáspora que, há mais de uma década, atravessa fronteiras e conquista públicos em todo o mundo.

Mas o Paléo não é só música. O Village du Monde deste ano transporta o público para a cultura nórdica, com gastronomia e tradições inspiradas nos fiordes e nas auroras boreais. A sustentabilidade também tem vez. Uma das iniciativas importantes foi a instalação de uma fazenda solar que alimenta parte das estruturas.

Cenografia do Village du Monde leva referências da cultura nórdica à edição de 2026 do Paléo
Cenografia do Village du Monde leva referências da cultura nórdica à edição de 2026 do Paléo | Crédito: Mônica Cabanas

Entre as parcerias importantes está a HES-SO — maior rede de ensino superior da Suíça ocidental, com 28 escolas e quase 22 mil estudantes —, cujos alunos desenvolvem projetos para o Paléo. O festival também mantém parcerias com a Caritas Vaud e a Caritas Genebra, organizações que atuam há décadas no combate à pobreza e à exclusão social na região, e com a Sea Shepherd Suisse, braço suíço da organização internacional que trabalha na proteção dos oceanos e na defesa da vida marinha em todo o mundo.

A cidade que respira cultura

O Paléo não acontece por acaso em Nyon. Entre Genebra e Lausanne, às margens do lago Léman, a cidade de pouco mais de 25 mil habitantes construiu uma identidade cultural que a tornou conhecida como a “cidade dos festivais” na Suíça. Ao longo do ano, seis grandes eventos movimentam a região e reúnem cerca de 325 mil espectadores.

Além do Paléo, que ocorre em julho, Nyon abriga:

  • Visions du Réel (abril): festival internacional de cinema documental criado em 1969, um dos mais importantes do mundo na área;
  • Caribana Festival (junho): festival de música que atrai mais de 30 mil pessoas ao porto de Crans e é inteiramente gerido por voluntários;
  • Rive Jazzy (julho a agosto): festival de jazz ao ar livre que anima as margens do lago Léman por cinco semanas;
  • Les Hivernales (fevereiro e março): festival de música que acontece no coração do inverno, com mais de 40 artistas em 13 palcos;
  • far° festival des arts vivants (agosto): festival de artes vivas com dança, teatro, circo e performances contemporâneas.

“Há alguns visionários que criaram esses festivais há vários anos, que conseguiram ter sucesso, que foram fortes e que se tornaram referências em nosso país, mas também na Europa”, afirma Lionel Thorens, delegado econômico da Comunidade de Nyon, em entrevista ao Brasil de Fato RS. “É uma chance para a nossa cidade.”

Importância socioeconômica do festival

Thorens, que também atua como colaborador voluntário do Paléo, destaca que o festival tem importância fundamental para a economia local. “O Paléo tem uma grande importância para a economia nyonesa. Primeiro, porque gasta muito na economia de Nyon — faz trabalhar um bom número de hotéis, empreendedores de serviços, restaurantes. Há um verdadeiro efeito de capilaridade econômica que se espalha por toda a região e que é muito interessante. São vários milhões de francos.”

Mas o impacto vai além do dinheiro. Segundo Thorens, o festival mobiliza toda uma população.

“Mobiliza toda uma região, os habitantes da região, mas também as associações locais, a quem o festival redistribui parte dos benefícios dos bares. Isso faz funcionar todo um tecido associativo de clubes, de associações culturais. É muito importante para a região, para Nyon e para a sua região em geral.”

Um estudo citado pela prefeitura estima em cerca de 41 milhões de francos suíços os efeitos do Paléo sobre a região — o equivalente a mais de R$ 250 milhões —, incluindo gastos de visitantes, artistas, equipes e parceiros.

“Uma série de festivais bastante importantes foram criados em Nyon e continuam sendo ativos”, conclui Thorens.

Música, luzes e efeitos visuais ocupam os palcos montados na planície de Nyon durante o Paléo
Música, luzes e efeitos visuais ocupam os palcos montados na planície de Nyon durante o Paléo | Crédito: Mônica Cabanas

Por trás dos palcos: 5 mil voluntários

A operação humana do Paléo é um espetáculo à parte. Mais de 5 mil voluntários se revezam nas engrenagens que movem o festival — do planejamento à execução, passando pela logística e pelo atendimento ao público.

Na equipe de imprensa, por exemplo, que recebe mais de 500 jornalistas ao longo do evento, o trabalho é conduzido por apenas três profissionais, apoiados por uma rede de cerca de 50 voluntários.

Entre eles está Pedro Dias, filho de portugueses nascido em Genebra e responsável pelas acreditações de última hora. “Tem muita coisa para fazer, são entrevistas todos os dias. É super gratificante ver, agora, tudo o que venho construindo desde janeiro. O trabalho ganha vida, e é ótimo testemunhar isso”, resume.

Em 2027, o Paléo completa 50 anos. Projetos especiais estão em preparação — mas, por enquanto, são segredo. O que se sabe, no entanto, é que a cidade que nasce em Nyon a cada julho é muito mais do que um festival. É a prova de que é possível reunir centenas de milhares de pessoas em torno da música, da cultura e da diversidade sem perder de vista o planeta — com energia limpa, parcerias com instituições que cuidam de pessoas e do meio ambiente e uma legião de voluntários que acredita que outro mundo é possível.

Editado por: Marcelo Ferreira

|

Newsletter