Abram-se os caminhos

Sete anos após ‘Rito de Passá’, MC Tha prepara novo disco e comenta parceria com Anitta

Cantora analisa a longevidade de sua obra, critica preconceito contra periferia e reitera potência do funk e do terreiro

No audio source provided.
MC Tha celebra os sete anos de “Rito de Passá” enquanto prepara um novo álbum e uma nova etapa da carreira.
MC Tha celebra os sete anos de “Rito de Passá” enquanto prepara um novo álbum e uma nova etapa da carreira. | Crédito: Divulgação

Sete anos depois do lançamento de “Rito de Passá”, MC Tha viu o álbum chegar a Anitta pelas mãos dos próprios fãs. A mobilização nas redes sociais abriu caminho para a participação da cantora em “Sem Pressa”, faixa da segunda parte de “Equilibrium”, último álbum da cantora de “Envolver”.

A parceria acontece justamente quando MC Tha se prepara para iniciar outra etapa da carreira. Além de celebrar a permanência de “Rito de Passá”, a artista finaliza um álbum produzido ao longo dos últimos três anos e prepara para estrear nos dias 28 e 29 de julho, na Casa de Francisca, em São Paulo (SP), um espetáculo que define como uma transição entre o repertório já conhecido e o trabalho que ainda está por vir.

“Estou me preparando para o que vem por aí”, afirmou MC Tha em entrevista à Rádio Brasil de Fato. Na conversa, realizada na semana do Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, celebrado em 25 de julho, ela também falou sobre identidade racial, ancestralidade, religiões de matriz africana, além da criminalização do funk e das populações periféricas.

Para a artista, o convite para participar de “Equilibrium” evidencia a força das comunidades que acompanham artistas independentes ou de nicho, mesmo quando eles não acumulam números milionários nas plataformas digitais.

“Criou-se essa imagem de que número é tudo hoje em dia, e não é. Eu não sou uma artista que tem 1 milhão de seguidores no Instagram ou redes superbombadas, mas meu engajamento orgânico vale muito. É de fato uma comunidade que vibra por mim”, afirmou.

O convite, a gravação da música e a produção do material visual aconteceram rapidamente. Na construção da faixa, MC Tha também pôde preservar uma característica central de seu trabalho: a autoria.

“Além do convite para cantar, ela entendeu a importância da composição, já que sou uma artista autoral e acompanho todas as minhas músicas”, contou.

A letra original de “Sem Pressa” seguia uma abordagem mais cotidiana. Ao escrever sua participação, MC Tha levou a música para outro ambiente sonoro e modificou o ritmo da interpretação.

“Na parte que canto, trouxe uma fluidez, quase como se estivesse entrando em um transe, em outra atmosfera e com outro tempo”, explicou.

Comunidade de fãs

MC Tha considera que a colaboração representa uma conquista compartilhada com as pessoas que defendem seu trabalho e acompanharam sua trajetória antes da aproximação com Anitta.

“O mais legal, e o que me deixou mais feliz quando fui convidada, é levar esse retorno para as pessoas. Esta semana está sendo uma comoção, todo mundo muito feliz, pessoas vibrando por essa conquista que não é só minha, é deles também”, disse.

A cantora relaciona essa mobilização à maneira como construiu sua imagem pública. Embora trabalhe com uma música pop e contemporânea, ela não se coloca como uma figura distante ou inalcançável.

“Eu quebro essa barreira da ‘diva’. Não estou sempre aparecendo como uma deusa intocável que ninguém nunca vai alcançar”, avaliou.

Questionada sobre a possibilidade de a parceria apresentar sua música a um público mais amplo, MC Tha disse esperar que os novos ouvintes conheçam também os trabalhos anteriores. Ela ainda rejeitou tentativas de transformar a colaboração em uma narrativa de disputa entre as artistas.

“Estou torcendo para que o melhor aconteça e para que as pessoas entendam, primeiro, que não existe rivalidade”, afirmou.

A artista contou que, embora nunca tivesse encontrado Anitta pessoalmente antes do projeto, sonhava com ela com frequência. Em um desses sonhos, alguém da equipe da cantora entrava em contato para convidá-la a gravar uma música.

“Para mim, esse encontro já tinha acontecido em outro plano. É a materialização de um encontro que já existia”, disse.

Lançado em 2019, “Rito de Passá” aproximou o funk das religiões de matriz africana e de referências da música popular brasileira.
Lançado em 2019, “Rito de Passá” aproximou o funk das religiões de matriz africana e de referências da música popular brasileira. | Crédito: Divulgação

Novo álbum

O projeto no qual MC Tha trabalha há três anos exigiu diminuir a agenda de apresentações. O disco, ainda sem data de lançamento, deve revelar experiências e dimensões de sua trajetória que ainda não apareceram de maneira tão direta em sua obra.

“Vai trazer uma página da MC Tha que poucas pessoas acessam em termos de história e narrativa”, adiantou.

Segundo a cantora, o projeto está sendo construído com cuidado emocional porque apresenta particularidades de sua vida. A exposição de aspectos pessoais tornou o processo criativo mais delicado.

A preparação do disco também provocou uma transformação vocal. Depois de iniciar aulas de canto, a artista retornou ao estúdio e percebeu que já não interpretava as músicas da mesma maneira.

“Teve música em que tivemos que subir o tom porque o tom limite de antes já não era mais o meu limite. Minha voz deu uma transcendência”, relatou.

Show de transição

A artista afirma que a parceria com Anitta, os sete anos de “Rito de Passá” e a conclusão do novo disco acontecem em um momento coerente de sua trajetória.

“O ‘Rito de Passá’ fez 7 anos, fizemos a semana de celebração e, em paralelo, o álbum novo já está quase pronto. Está tudo em um caminho e em um tempo muito certeiros”, afirmou.

Parte dessa mudança poderá ser vista no espetáculo “Pra Cada Nós um Encanto — MC Tha e as Canções do Povo Brasileiro”, apresentado nos dias 28 e 29 de julho na Casa de Francisca, em São Paulo.

Em formato de voz e piano, o repertório reúne músicas de “Rito de Passá”, do EP “Meu Santo é Forte”, canções de outros compositores brasileiros e novidades do próximo álbum. “Temos encarado como um show de transição”, explicou.

A apresentação não fica assim restrita à comemoração do aniversário de “Rito de Passá”. Ela foi construída como uma passagem entre o repertório já conhecido e o material inédito, além de colocar MC Tha diante de um formato novo em sua carreira.

Segundo MC Tha, o espetáculo também representa o desafio de apresentar ao público sua nova forma de cantar. Ela ainda está descobrindo como a voz atual se relaciona com as músicas antigas e com o material que prepara para o próximo álbum.

“Às vezes é confuso, porque não canto mais como cantava no ‘Rito de Passá’ e ainda estou aprendendo a cantar do jeito que preciso para o material novo ficar 100%”, afirmou.

Após uma mobilização dos fãs, MC Tha participa de “Sem Pressa”, faixa da segunda parte de Equilibrium, projeto de Anitta.
Após uma mobilização dos fãs, MC Tha participa de “Sem Pressa”, faixa da segunda parte de Equilibrium, projeto de Anitta. | Crédito: Divulgação

Sete anos de ‘Rito de Passá’

Lançado em 2019, o álbum “Rito de Passá” completou sete anos em 2026. O trabalho aproximou o funk das religiões de matriz africana e de referências da música popular brasileira, estabelecendo a identidade artística que acompanharia MC Tha nos anos seguintes.

Ao olhar para a indústria musical, ela avalia que obras e carreiras são frequentemente substituídas em ritmo acelerado. “Os artistas são muito descartáveis”, afirmou.

A cantora aponta que essa pressão é ainda maior sobre mulheres, que podem ser tratadas como ultrapassadas depois de uma primeira onda de interesse. “Principalmente quando você é uma mulher que não ocupa o padrão de imagem idealizado nesses espaços. Se você não está tendo um grande hit ou não é ‘o momento’, você se torna qualquer coisa depois de uma onda inicial”, avaliou.

Para MC Tha, “Rito de Passá” contrariou essa dinâmica e ganhou novas leituras com o passar dos anos. “Conseguiu romper esse prazo de validade. O envelhecimento dele só foi trazendo mais amadurecimento para o discurso”, disse.

O álbum continua sendo retomado e referenciado por novos públicos. Foi por meio dessa circulação que fãs apresentaram o trabalho a Anitta e passaram a defender uma parceria entre as duas.

Para MC Tha, o convite para participar de Equilibrium reconhece a pesquisa artística desenvolvida ao longo desse percurso. “Vai ser um trabalho importante para coroar essa pesquisa que eu trago”, declarou.

Identidade racial

A construção de “Rito de Passá” coincidiu com um período de descobertas pessoais. Nascida e criada em Cidade Tiradentes, bairro periférico da zona leste de São Paulo, MC Tha passou a refletir mais diretamente sobre sua identidade racial depois que se mudou para o centro da capital paulista.

A artista recorda que recebeu leituras diferentes sobre sua identidade nos dois territórios. “Na Cidade Tiradentes nunca ninguém olhou para mim e me leu como uma mulher negra”, contou. Nos espaços que passou a frequentar no centro, porém, era imediatamente reconhecida dessa forma.

“No começo era inseguro para mim, porque eu não sabia se podia me afirmar como uma mulher negra. Então era uma loucura na minha cabeça”, afirmou.

Foi também nesse período que a cantora se aproximou do debate feminista. Inicialmente resistente ao termo, ela passou a reconhecer que muitas das práticas defendidas pelo movimento já estavam presentes na experiência das mulheres que a criaram.

“As mulheres negras da periferia já praticam o feminismo de forma muito natural e espontânea. Sou de uma família de mulheres que guiaram a criação, a geração de renda dentro de casa e a resolução de todos os problemas”, disse.

Encontro com o terreiro

Outra experiência decisiva para a criação de “Rito de Passá” foi a aproximação com um terreiro. Criada em uma família adepta do cristianismo, MC Tha conta que carregava uma visão marcada pelo preconceito e pelo desconhecimento sobre as religiões de matriz africana.

Ela acreditava que entrar em uma comunidade religiosa limitaria diferentes aspectos de sua vida. Ao chegar ao terreiro, porém, encontrou acolhimento para as dúvidas e transformações que vivia naquele momento. “Consegui ler as coisas que estavam acontecendo de outra forma e isso me tranquilizou muito”, afirmou.

Segundo a artista, foi nesse espaço que a pesquisa musical e conceitual do álbum ganhou fundamentos mais sólidos. A convivência também permitiu que ela percebesse aproximações rítmicas entre os toques cerimoniais e o funk ouvido durante sua juventude na periferia.

“Quando encontro o terreiro e percebo a questão dos toques — que eram muito semelhantes ao funk —, abre-se outra camada na minha cabeça”, explicou. A partir dessa descoberta, MC Tha passou a compreender de maneira mais profunda a presença das matrizes africanas em sua produção.

“O funk da MC Tha, quando traz a música brasileira, na verdade traz a música afro-brasileira”, defendeu.

MC Tha define o atual espetáculo como uma transição entre o repertório já conhecido e o trabalho que ainda está por vir.
MC Tha define o atual espetáculo como uma transição entre o repertório já conhecido e o trabalho que ainda está por vir. | Crédito: Divulgação

‘Espaços para existir’

MC Tha começou a cantar aos 15 anos. Embora não se lembre de ter planejado uma carreira musical durante a infância, conta que sempre cantava dentro de casa e encontrou no funk uma possibilidade concreta de criação.

Muitos dos MCs e DJs que iniciaram a trajetória ao seu lado deixaram a atividade artística. A MC Tha, no entanto, permaneceu em sua vida e se tornou uma maneira de continuar sonhando, apesar das responsabilidades e limitações cotidianas. “A MC Tha nasceu dessa improbabilidade”, afirmou.

A carreira também passou a representar uma possibilidade de construir caminhos que inicialmente pareciam inalcançáveis. “Mais do que a possibilidade de ser uma grande artista, foi a minha forma de continuar inventando espaços para existir”, disse.

Funk e opressão

Ao comentar o preconceito que ainda atinge o funk, mesmo diante da projeção nacional e internacional do gênero, MC Tha relacionou a criminalização do ritmo ao racismo e às desigualdades enfrentadas pelas periferias. “É só uma desculpa para continuar oprimindo a galera preta, periférica e a classe trabalhadora”, criticou.

Para a artista, o gênero é frequentemente utilizado para reforçar discursos que tratam a produção cultural das periferias como desordem ou ameaça.

Os conflitos relacionados aos bailes e aos fluxos, em sua avaliação, precisam ser enfrentados com políticas públicas, diálogo com moradores e criação de espaços adequados, e não apenas por meio da repressão. “O papel do poder público é acolher e entender formas de fazer essa cultura continuar acontecendo”, afirmou.

MC Tha também procura reconhecer os limites de sua própria experiência ao falar sobre as condições atuais de produção do gênero. Embora mantenha vínculos familiares com Cidade Tiradentes, ela não mora mais no bairro e afirma não enfrentar hoje as mesmas violências vividas por artistas que permanecem nos territórios periféricos.

Por isso, prefere direcionar a discussão para aqueles que ainda produzem e transformam o funk a partir desses locais.

“Falando do funk, fico pensando em quem está vivendo isso agora, produzindo e desenvolvendo a linguagem lá de dentro: quais são as urgências desses artistas?”, concluiu.

Editado por: Gia Matheus Almeida

|

Newsletter