Julho das pretas

‘Fazer político de Marielle fortalece a democracia’, diz Luyara Franco no marco de dez anos da eleição da vereadora

Instituto lança documento com ações prioritárias para o futuro do país nesta segunda-feira (27) no centro do Rio

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Luyara Franco na Marcha das Mulheres Negras do Rio de Janeiro 2026
Luyara Franco na Marcha das Mulheres Negras do Rio de Janeiro 2026 | Crédito: Camila Guedes/Instituto Marielle Franco

A Agenda Marielle Franco será lançada este ano no marco da primeira década da eleição da vereadora na Câmara do Rio. O documento organizado pelo Instituto Marielle Franco (IMF) reúne práticas e propostas para o futuro do país a partir do seu legado na política. 

Em entrevista ao Brasil de Fato, a diretora-executiva do IMF, Luyara Franco, explica que o objetivo do documento é fortalecer a participação e o acompanhamento democrático, como sua mãe priorizava. “Esse foi um dos maiores ensinamentos dela: as transformações sociais são resultado de uma coletividade política organizada, mobilizada e engajada”, disse.

Lançada sempre em ano eleitoral, a Agenda 2026 reúne propostas para fortalecer a democracia e enfrentar desigualdades dividida em sete práticas políticas e nove eixos prioritários. Entre eles estão justiça econômica, social e racial, segurança pública, gênero e sexualidade, direito à cidade, favela e periferia, saúde pública, cultura popular e justiça climática e ambiental. 

Como novidade, o documento incorpora o esporte como estratégia de transformação social nas favelas e periferias. Uma versão menor da Agenda, além de compilar as prioridades, será utilizada em sessões educativas sobre a função dos cargos legislativos e como a população pode cobrar dos representantes os compromissos assumidos na campanha.

“A Agenda permite que a sociedade acompanhe a implementação desse projeto pelas candidaturas e fortaleça a participação democrática ao longo de todo o ciclo político”, disse Luyara.

O lançamento da Agenda Marielle Franco 2026 acontece nesta segunda-feira (27), às 17h, na Casa Savana, centro do Rio. A data também marca o aniversário de Marielle, que estaria completando 47 anos.

Nesta entrevista, a filha e educadora física Luyara Franco reflete sobre a construção coletiva em torno do documento e resume: “Para nós era urgente transformar o falar sobre Marielle em fazer como Marielle”. 

Leia a entrevista completa:

Brasil de Fato – Na primeira vez que concorreu uma eleição, Marielle foi eleita para a Câmara dos Vereadores com 46 mil votos, a quinta mais votada em 2016. Depois vimos a ascensão do bolsonarismo. Como você avalia o fato desses dois movimentos opostos, e de impacto nacional, terem surgido no Rio? 

Luyara Franco – Eu não vejo isso como um movimento exclusivo do Rio de Janeiro. As democracias são atravessadas por disputas permanentes entre projetos políticos opostos, e o Rio expressa essas tensões de maneira muito intensa. Também é importante dizer que essas forças não surgiram de repente, nem podem ser tratadas como equivalentes. Elas são resultado de processos históricos e representam projetos profundamente distintos de sociedade. 

Em 2016, enquanto o Brasil vivia o impeachment de Dilma Rousseff e o avanço de forças conservadoras e autoritárias, também ganhava força uma mobilização construída há décadas pelos movimentos negros, de mulheres negras, periféricos e LGBTQIA+, além de um novo levante feminista. A eleição da minha mãe fez parte desse processo, porque ela já era uma liderança reconhecida pelos movimentos sociais por sua atuação antirracista, feminista e em defesa dos direitos humanos. 

A presença de mulheres como Marielle na política, defendendo direitos civis, sociais e humanos com a radicalidade de que a democracia brasileira precisa, confrontou interesses e estruturas que historicamente exploram e violentam o nosso povo — em uma história que vai da colonização às formas contemporâneas de exploração, como a escala 6×1. A ascensão do bolsonarismo, em 2018, pode ser compreendida dentro desse movimento mais amplo de reação autoritária aos avanços democráticos e à conquista de direitos. 

Foi também em 2018 que minha mãe e Anderson foram assassinados, em um período de intensificação da violência política e da intolerância no país. A condenação, pelo STF, dos mandantes e dos demais réus em fevereiro deste ano, revelou a profundidade desse problema: o crime envolveu agentes públicos e pessoas ligadas às estruturas políticas e policiais do estado do Rio de Janeiro. 

A violência contra Marielle não pode ser compreendida como um episódio isolado. Ela faz parte de uma disputa mais ampla sobre quem pode ocupar a política e quais projetos de país têm o direito de avançar. 

Mais do que dois fenômenos nascidos no mesmo lugar, o que vejo são projetos em confronto. De um lado, um projeto que transforma o medo, o racismo, a misoginia e a violência em instrumentos políticos. Do outro, o projeto representado por Marielle: ampliar direitos, enfrentar desigualdades e fazer com que a política também pertença às pessoas negras e periféricas, às mulheres e à população LGBTQIA+.

O Rio tem uma centralidade histórica no país, por isso essas disputas vividas aqui rapidamente alcançam dimensão nacional. De certa forma, olhar para esse contraste é também olhar para o Brasil e para a disputa sobre qual democracia queremos construir. 

Vereadora Marielle Franco e motorista Anderson Gomes foram mortos em 2018, no Rio de Janeiro
Vereadora Marielle Franco e motorista Anderson Gomes foram mortos em 2018, no Rio de Janeiro
| Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Quais princípios do fazer político da vereadora Marielle passaram a fazer ainda mais sentido dez anos depois? 

O princípio que mais ganha força dez anos depois é o da coletividade. Minha mãe nunca enxergou a política como um projeto individual, mas como uma construção coletiva entre movimentos sociais, organizações, mandatos e a população. Hoje vemos mais mulheres negras ocupando espaços de poder, muitas delas inspiradas em seu legado. Isso é motivo de esperança, mas também nos mostra que nenhuma liderança transforma a política sozinha. 

Se queremos que essas sementes floresçam e permaneçam, elas precisam de apoio coletivo, popular, institucional e, sobretudo, de proteção. Precisam de redes capazes de enfrentar a violência política, acompanhar os mandatos e sustentar projetos comprometidos com a democracia e a garantia de direitos. Esse foi um dos maiores ensinamentos dela: as transformações sociais são resultado de uma coletividade política organizada, mobilizada e engajada.

Desde a eleição municipal de 2020, a Agenda Marielle resgata seu legado legislativo para pautar o futuro do país. Como foi construída essa metodologia? 

A metodologia da Agenda Marielle Franco foi construída a partir da principal marca da atuação política da minha mãe: a construção coletiva. Desde 2020, nosso objetivo não é apenas resgatar seu legado legislativo, mas transformar sua forma de fazer política em um instrumento vivo para orientar candidaturas e fortalecer a democracia. 

Para nós era urgente transformar o falar sobre Marielle em fazer como Marielle. 

Na primeira edição, em 2020, entrevistamos a equipe do mandato e lideranças que estiveram com ela antes de se tornar vereadora. Chegamos a sete práticas políticas e oito eixos prioritários e que se mantêm como horizonte em todas as edições. 

A partir de 2022, ampliamos essa escuta e consolidamos nossa metodologia de elaboração coletiva em nível nacional. A cada edição, reunimos movimentos sociais, organizações da sociedade civil, lideranças populares e especialistas de todo o país para identificar as demandas mais urgentes e transformá-las em propostas concretas para o Legislativo.

Depois desse processo de escuta, sistematizamos e priorizamos as propostas com base em critérios como urgência política, viabilidade de implementação e impacto na vida das populações mais vulneráveis. A Agenda é uma ferramenta política popular de fortalecimento democrático, que permite que a sociedade acompanhe a implementação desse projeto pelas candidaturas e fortaleça a participação democrática ao longo de todo o ciclo político. 

Por isso, temos quem se compromete com a Agenda, as candidaturas e futuras eleitas, e quem defende, os movimentos e ativistas. 

Luyara Franco, educadora física, diretora executiva do IMF e filha de Marielle Franco, explica, ao Conversa Bem Viver, objetivos da Marcha Nacional das Mulheres Negras
Luyara Franco, educadora física, diretora executiva do IMF e filha de Marielle Franco | Crédito: Divulgação/Instituto Marielle Franco

Quais compromissos são inadiáveis para as candidaturas de 2026? 

As eleições de 2026 acontecem em mais um momento decisivo para a democracia brasileira. Para nós, há compromissos que não podem mais ser adiados: enfrentar a violência contra as mulheres em todas as suas formas, especialmente o feminicídio e a violência obstétrica, expressão do racismo institucional que faz com que as mulheres negras sejam as principais vítimas da mortalidade materna; garantir trabalho digno e justiça econômica, incluindo o fim da escala 6×1; fortalecer uma política de segurança pública baseada na proteção da vida; e ampliar o acesso à saúde, à educação e aos direitos sociais.

Mas, acima de tudo, esperamos que as candidaturas assumam o compromisso com uma forma de fazer política construída com participação popular, transparência e defesa da vida.

É com essa responsabilidade que estamos lançando um guia de bolso da Agenda Marielle Franco com estas prioridades e com sessões educativas sobre o que faz cada cargo e como cobrar os compromissos assumidos na campanha. Esse é o legado de Marielle e o horizonte que a Agenda busca fortalecer em todo o país.

Esse ano você assinou uma exposição no CCBB sobre o legado da Marielle com outras ativistas negras que reuniu vários objetos pessoais e momentos da trajetória da sua mãe. Como foi esse processo? 

Foi um processo muito potente de memória política negra. A exposição parte do legado da minha mãe, mas mostra que essa história nunca foi apenas individual. Ela reúne memórias, vozes e trajetórias de mulheres negras que, há gerações, constroem caminhos de luta, organização e transformação no Brasil. 

Participar dessa construção foi também um exercício de reconhecer que minha mãe foi semente de muitas mulheres negras que vieram antes dela e que seguimos semeando esse legado. Para mim, essa foi a maior força da exposição: mostrar que o legado de Marielle não está apenas na memória, mas continua vivo nas pessoas, nos movimentos e nas lutas que seguimos travando para construir o futuro que ela sonhava.

Editado por: Juliana Passos

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