Em assembleia realizada em São Paulo, os ferroviários da CPTM aprovaram, na última sexta-feira (24), um indicativo de greve por tempo indeterminado a partir do dia 4 de agosto. A mobilização ocorre logo após uma sequência de falhas graves, incluindo uma explosão e incêndio que paralisaram as Linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade, recém-privatizadas e operadas pela concessionária Trivia Trens.
O estopim para a decisão da categoria foi o caos registrado no transporte sobre trilhos na quarta-feira e quinta-feira da semana passada, apenas dois dias após a Trivia Trens assumir a operação exclusiva das linhas, em 21 de julho.
Na quinta-feira (23), um curto-circuito provocou um incêndio em um trem na Linha 12-Safira, gerando explosões, pânico entre passageiros que caminharam pelos trilhos e a interrupção completa do serviço.
Diante da gravidade da pane, a Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) determinou que a estatal CPTM retome emergencialmente a operação das três linhas pelo período mínimo de 90 dias. No entanto, os ferroviários convocados de última hora para corrigir as falhas operacionais apontam a falta de garantias de estabilidade profissional.
O Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias da Zona Central do Brasil cobra do governo estadual a preservação definitiva das vagas. “A categoria da CPTM, já que consegue ficar esses 90 dias arrumando os erros, tem o direito de continuar exercendo seu trabalho como empresa, como modelo público de gestão, preocupada com o serviço e não preocupada com lucros”, disse Fernando Ricardo Santos da Costa, titular do conselho fiscal do Sindicato.
Representando trabalhadores de oito empresas ferroviárias espalhadas pelos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, a diretoria do Sindicato Central do Brasil destaca o risco do encargo temporário imposto pelo Estado. Os funcionários temem ser descartados assim que expirar o prazo de três meses da operação emergencial.
Para as lideranças sindicais, a crise recente sepulta o discurso de que a gestão privada é mais vantajosa para o interesse público. Costa reforça que “o modelo de empresa privada operando ferrovia, que é um serviço essencial, não está se mostrando adequado”. O sindicalista cita que outras linhas desestatizadas enfrentam instabilidades recorrentes, como a Linha 7-Rubi, gerida pela operadora Tic Trens, e as Linhas 5-Lilás, 8-Diamante e 9-Esmeralda, operadas pela ViaMobilidade.
O descontentamento da categoria é amparado por dados oficiais do primeiro semestre de 2026, que apontam um crescimento de 27% nas falhas em trens e metrôs paulistas em relação ao ano anterior, ultrapassando uma ocorrência diária. De acordo com este levantamento da TV Globo, as linhas concedidas à iniciativa privada foram as que registraram o maior aumento no volume de problemas. Na Linha 7-Rubi, o avanço das falhas alcançou a marca de 600% desde que a operação começou a ser repassada.
Outro fator de contestação da categoria é o desequilíbrio financeiro nos contratos firmados pela gestão do governador Tarcísio de Freitas. A Federação Nacional dos Metroferroviários (Fenametro) estima que cerca de 75% dos investimentos previstos no sistema continuam sendo custeados diretamente pelos cofres públicos estaduais. Na prática, resta ao governo arcar com os riscos e repasses financeiros bilionários, enquanto o lucro líquido é direcionado à concessionária privada, penalizando os passageiros com um serviço precário.
“É um crime o que essas empresas fazem. Colocam o trabalhador sem treinamento. Eu posso imaginar o desespero desses profissionais”, denunciou Sérgio Renato, chefe de relações intersindicais do Sindicato dos Metroviários, isentando os funcionários da Trivia de culpa pelas explosões.
Em nota oficial, o Sindicato da Central do Brasil corroborou que a transição apressada e o treinamento insuficiente da concessionária comprometeram diretamente a segurança operacional e colocaram vidas em risco.
A experiência acumulada da CPTM é um dos maiores argumentos do sindicato contra a desestatização de todo o sistema. Fernando Ricardo destaca que a companhia desenvolveu uma tecnologia única no cenário global, herdada de gerações da Rede Ferroviária Federal, CBTU e Fepasa, operando trens de passageiros com os mesmos intervalos e dinamismo de um metrô. “Esse conhecimento está intrínseco em cada trabalhador, querendo operar e fazer o seu serviço para manter os padrões históricos de segurança conquistados em São Paulo”, disse o sindicalista.
Os ferroviários fixaram o prazo de 31 de julho para que a gestão de Tarcísio de Freitas apresente uma contraproposta oficial às reivindicações, que incluem a aprovação do Projeto de Lei nº 730/2025 na Assembleia Legislativa (Alesp) para o reaproveitamento de empregados públicos. Caso não haja acordo, uma assembleia no dia 3 de agosto avaliará a deflagração da paralisação a partir do primeiro minuto do dia 4 de agosto.
