Julho tornou-se, ao longo das últimas décadas, um dos momentos políticos mais importantes do calendário antirracista latino-americano. O Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, celebrado em 25 de julho, não é apenas uma data comemorativa. É um chamado à memória, à denúncia e à construção de novos horizontes de justiça social. É também um momento para lembrar que, no Brasil, as mulheres negras seguem sendo as principais vítimas da violência doméstica, do feminicídio, da precarização do trabalho e da ausência histórica de políticas públicas capazes de lhes assegurar o direito fundamental à vida. Essa realidade não admite relativizações.
O feminicídio é uma expressão extrema do patriarcado. No Brasil, ele possui cor, território e classe social. Mulheres negras morrem mais. São menos protegidas pelo Estado. Têm menor acesso à Justiça e vivem, frequentemente, na intersecção entre racismo, sexismo e pobreza, como nos ensina Carla Akotirene ao desenvolver a perspectiva da interseccionalidade no contexto brasileiro.
Reconhecer essa realidade significa assumir um compromisso inegociável com a defesa da vida das mulheres negras. Entretanto, justamente porque essa luta é tão importante, ela exige um cuidado igualmente rigoroso para que não reproduza outras formas históricas de violência produzidas pela colonialidade.
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Recentemente participei de uma reunião composta exclusivamente por pessoas negras. Em determinado momento, uma camarada ocupando cargo de poder maior do que o nosso, afirmou, de forma generalizada, que todos os homens presentes, eu inclusive, éramos machistas e tínhamos atitudes machistas, simplesmente por termos nascido homens.
A afirmação nasceu, certamente, da indignação legítima diante das permanências do patriarcado. Ainda assim, ela provocou uma inquietação que considero necessária ao movimento negro: quando passamos a atribuir culpa a sujeitos antes mesmo de suas práticas, não estaremos reproduzindo a mesma lógica essencialista que sustentou historicamente o racismo?
Não se trata de negar a existência do machismo entre homens negros. Ele existe.
Homens negros também foram socializados numa sociedade patriarcal e precisam, continuamente, revisar privilégios, comportamentos e formas de exercer suas masculinidades. bell hooks talvez tenha sido uma das intelectuais que melhor demonstrou que o patriarcado também captura homens negros, ensinando-lhes uma masculinidade construída sobre a dominação, o silêncio emocional e a violência como linguagem de reconhecimento. Mas bell hooks também nos lembra que o patriarcado não é um atributo biológico. É uma estrutura social.
Da mesma forma, Angela Davis demonstra, em Mulheres, Raça e Classe, que raça, gênero e classe jamais podem ser analisados isoladamente. O racismo reorganiza o próprio funcionamento do patriarcado. Mulheres negras experimentam formas específicas de violência exatamente porque são mulheres negras. E homens negros também experimentam formas específicas de criminalização exatamente porque são homens negros. A colonialidade nunca distribuiu violência de maneira uniforme. Ela produziu papéis.
À mulher negra reservou o lugar do corpo disponível, do trabalho invisibilizado, da maternidade compulsória, da violência sexual e da desproteção institucional.
Ao homem negro reservou outro lugar igualmente funcional ao sistema colonial: o do perigo permanente.
Frantz Fanon talvez tenha sido quem melhor descreveu esse processo ao revelar como o corpo negro deixa de ser percebido como indivíduo para tornar-se uma categoria de ameaça. Antes mesmo de qualquer ação, o homem negro já comparece socialmente como suspeito. Já Achille Mbembe amplia essa compreensão ao demonstrar que determinadas populações são governadas pela lógica da morte, a Necropolítica. Não é por acaso que homens negros constituem as maiores vítimas da letalidade policial, do encarceramento em massa e da suspeição permanente produzida pelo Estado. É justamente aqui que o debate precisa avançar.
Desta forma, combater o feminicídio não pode significar naturalizar outra forma de essencialização, historicamente, o mundo brancocêntrico construiu o homem negro como violento por natureza. Sabemos que durante séculos, a escravidão justificou castigos, prisões, linchamentos e assassinatos afirmando que homens negros seriam biologicamente mais agressivos, mais perigosos ou sexualmente descontrolados.
No Brasil contemporâneo, essa representação permanece viva.
Fernando Conceição sintetiza brilhantemente essa permanência ao afirmar que a mídia brasileira oscila entre três figuras centrais da representação negra: o negro lúgubre, associado ao crime, à violência e à tragédia; o negro lúdico, reduzido ao entretenimento, ao futebol e ao carnaval; e o negro luxurioso, permanentemente erotizado. São imagens distintas, mas articuladas por um mesmo dispositivo racial: negar a plena humanidade das pessoas negras.
Quando a figura do homem negro continua sendo associada automaticamente à violência, ainda que em discursos produzidos dentro do próprio movimento negro, devemos perguntar se não estamos reproduzindo, involuntariamente, uma gramática construída pelo racismo.
Stuart Hall escreve que representação não é simples descrição da realidade. Ela produz realidade. Os discursos criam significados, estabilizam identidades e organizam relações de poder. Por isso, combater o feminicídio exige também disputar as representações.
Não basta afirmar que homens negros podem reproduzir práticas machistas. Isso é verdadeiro. Mas transformar essa possibilidade numa característica essencial de todos os homens negros significa deslocar o debate estrutural para uma culpabilização identitária.
Essa operação interessa ao colonialismo. A colonialidade prefere sujeitos negros divididos entre si, prefere homens negros reduzidos ao lugar do suspeito permanente e mulheres negras confinadas ao lugar da vítima permanente, e nenhuma dessas posições é emancipatória.
Precisamos construir outra política!
Uma política em que homens negros assumam, sem reservas, a responsabilidade de enfrentar o machismo, revisando práticas, ouvindo as mulheres negras e construindo masculinidades comprometidas com a igualdade. Mas precisamos igualmente afirmar que homens negros não podem continuar sendo tratados como culpados por definição, porque a luta antirracista não pode reproduzir os mecanismos históricos da criminalização racial.
Talvez o verdadeiro desafio do Julho das Pretas seja justamente este: compreender que proteger integralmente a vida das mulheres negras implica também enfrentar o dispositivo colonial que transforma homens negros em inimigos sociais.
São violências diferentes, mas nascem da mesma estrutura.
Enquanto essa estrutura permanecer intacta, mulheres negras continuarão morrendo por serem mulheres negras, e homens negros continuarão morrendo por serem homens negros. Nossa tarefa política não é escolher qual dessas vidas merece mais proteção.
É construir uma sociedade na qual ambas possam, finalmente, viver.
*Richard Santos é escritor, pesquisador, docente e extensionista da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), onde atua como professor nos Programas de Pós-graduação em Ensino e Relações Étnico-Raciais e em Estado e Sociedade. Possui Pós-doutorado em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Doutorado em Ciências Sociais pela Universidade de Brasília (UnB) e Mestrado em Comunicação pela Universidade Católica de Brasília. Coordena o Grupo de Pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo. Diretor Regional Nordeste da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom). Autor do livro “Maioria Minorizada: um dispositivo de racialidade”.
**Este é um artigo de opinião. A visão dos autores não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

