RESISTÊNCIA

Nas ruas e nas urnas: Parada LGBT+ de Brasília transforma orgulho em mobilização política

Sob o lema "LGBT+, Levante e Vote!", evento reuniu milhares de pessoas na Esplanada neste domingo (27)

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27ª Parada do Orgulho LGBT+ reuniu milhares de pessoas na Esplanada dos Ministérios.
27ª Parada do Orgulho LGBT+ reuniu milhares de pessoas na Esplanada dos Ministérios. | Crédito: Kennedy Cruz/Brasil de Fato DF

A Esplanada dos Ministérios reuniu milhares de pessoas neste domingo (26) para a 27ª Parada do Orgulho LGBT+ de Brasília. Em ano eleitoral, porém, a principal manifestação da comunidade LGBT+ no Distrito Federal foi além da celebração da diversidade. Sob o lema LGBT+, Levante e Vote!, o evento levou ao coração político do país um chamado à participação nas eleições e à ampliação de representatividades nos espaços de poder.

A concentração ocorreu em frente ao Congresso Nacional, em um cenário que reforçava a mensagem da mobilização. Diante do Parlamento, participantes defenderam que a garantia de direitos passa também pela eleição de representantes comprometidos com as pautas da diversidade e pela ampliação da presença da comunidade nos espaços de decisão e formulação de políticas públicas.

Embora a população LGBT+ tenha conquistado importantes direitos nas últimas décadas, organizadores da Parada avaliam que essas vitórias ainda convivem com tentativas de retrocesso e com a violência que atinge, sobretudo, pessoas trans e travestis.

“Durante décadas, nossa luta foi do lado de fora dos espaços de poder. Hoje, percebemos que a garantia dos nossos direitos só se consolida quando nós também ocupamos as cadeiras onde as leis e as políticas públicas são feitas. Não basta apenas ter aliados, precisamos de representatividade nas urnas, nos parlamentos e no poder Executivo”, afirmou o coordenador da Parada LGBT+ de Brasília, Richard Alexandre.

Alexandre resumiu o sentido da manifestação. “Os nossos corpos, as nossas cores, aqui na Esplanada dos Ministérios, no coração político desse país, para gritar em alto e bom som para quem quis nos colocar no armário: nós não voltaremos”, declarou.

Representatividade

A defesa da participação política também marcou o discurso da drag queen, pedagoga e ativista Ruth Venceremos, que relacionou a eleição de representantes LGBT+ ao enfrentamento das desigualdades e do avanço de pautas conservadoras no Congresso Nacional.

“A bancada do leque vai ocupar o Congresso Nacional. Esse Congresso que é inimigo do povo. Quando levantar um fundamentalista, quando levantar um bolsonarista, vai se levantar também uma drag queen. Para dizer que este país sofre com o ódio e para enfrentar as desigualdades históricas”, afirmou.

Ruth Venceremos durante a 27ª Parada do Orgulho LGBT+ de Brasília.
Ruth Venceremos durante a 27ª Parada do Orgulho LGBT+ de Brasília. | Crédito: Kennedy Cruz/Brasil de Fato DF

A deputada federal Erika Kokay (PT-DF) também resgatou a trajetória do movimento em Brasília. Ela lembrou a primeira edição da Parada, realizada em 1998, quando poucas pessoas ocuparam o Eixão Sul para reivindicar direitos que hoje fazem parte do debate público.

“Eu estava em 98, na primeira Parada, talvez com 200 ou 300 pessoas lutando por direitos, democracia e liberdade. Hoje estamos aqui milhares de pessoas, na maior manifestação em defesa dos direitos humanos que essa cidade vivencia”, afirmou a parlamentar.

Ao relacionar o crescimento da mobilização à resistência da comunidade diante das tentativas de silenciamento, Erika afirmou: “Nós implodimos os armários, viraram pó de purpurina, de todas as cores, que gruda na pele e gruda na alma”, declarou.

Erika Kokay, Leandro Grass e Fábio Félix participaram da Parada e defenderam a ampliação dos direitos da população LGBT+.
Erika Kokay, Leandro Grass e Fábio Felix participaram da Parada e defenderam a ampliação dos direitos da população LGBT+. | Crédito: Kennedy Cruz/Brasil de Fato DF

O deputado distrital Fábio Felix (Psol-DF) afirmou que ocupar as ruas continua sendo uma forma de defender direitos diante das tentativas de retrocesso enfrentadas pela população LGBT+. Durante o discurso, relembrou ter sido vítima das chamadas terapias de conversão, conhecidas como “cura gay”.

“Eu fui uma das vítimas das terapias de conversão, das tentativas de ‘cura gay’, e a gente precisa passar um recado para esse setor atrasado, fundamentalista: para o armário a gente não volta mais. A nossa dignidade, o nosso corpo e o nosso beijo não têm negociação”, afirmou.

Histórias

Enquanto os trios avançavam pela Esplanada, entre bandeiras, leques e música, milhares de pessoas carregavam histórias muito diferentes entre si. Algumas celebravam conquistas, outras lembravam perdas; todas encontravam na Parada um espaço de pertencimento.

Para muitas delas, ocupar aquele espaço significava mais do que participar de uma manifestação. Era a oportunidade de existir sem esconder quem são e encontrar pessoas com trajetórias semelhantes. Uma dessas pessoas era Haru Lida, de 19 anos, estudante, pessoa trans não binária e bissexual. Frequentando a Parada desde os 16 anos, Haru conta que foi ali que começou a compreender a própria identidade e a construir sua militância.

“É um ambiente muito acolhedor, independente do que a extrema direita está falando, de que criança não deve ir. […] Foi aqui que eu comecei a militar sobre as minhas causas, sobre ser uma pessoa amarela, trans não binária e bissexual. A Parada foi o primeiro lugar em que eu me senti acolhido como eu mesmo”, afirmou.

“Votar em pessoas que apoiem a causa é muito importante, porque tem muita gente que usa a causa e não ajuda em nada na sobrevivência, principalmente das pessoas trans. O Brasil é todo nosso, inclusive a camisa do Brasil”, disse.

Haru Iida durante a 27ª Parada do Orgulho LGBT+ de Brasília.
Haru Lida durante a 27ª Parada do Orgulho LGBT+ de Brasília. | Crédito: Kennedy Cruz/Brasil de Fato DF

Servidor público, Márcio Cosaca, de 60 anos, acompanha a Parada desde a época em que ela era realizada no Eixão e na W3. Para ele, o caráter festivo da manifestação sempre caminhou junto da luta por direitos. “Por meio da alegria e da irreverência, a gente afirma a nossa condição de existir, de ter direitos. Como diz Guimarães Rosa, ‘a vida nos quer coragem’. Então é coragem de ser o que você é”, afirmou.

Márcio Cosaca acompanha a Parada desde as primeiras edições e destaca a celebração como forma de resistência.
Márcio Cosaca acompanha a Parada desde as primeiras edições e destaca a celebração como forma de resistência. | Crédito: Kennedy Cruz/Brasil de Fato DF

Entre quem ocupava a Esplanada também estava a médica, drag queen e pessoa não binária Brava Breves. Para ela, participar da Parada é também uma forma de enfrentar o preconceito vivido em espaços onde ainda há resistência à diversidade, como a área da saúde.

“Pra mim é um motivo de muito orgulho, de muita ocupação de espaço. Passei por situações de repressão em uma área bastante misógina e homofóbica. Resistir, ocupar o lugar que ocupo e poder expressar tudo o que sou aqui, com alegria e liberdade, é exatamente a importância da Parada”, afirmou.

Brava Breves relacionou sua participação na Parada à resistência contra o preconceito enfrentado também na área da saúde.
Brava Breves relacionou sua participação na Parada à resistência contra o preconceito enfrentado também na área da saúde. | Crédito: Kennedy Cruz/Brasil de Fato DF

Entre as milhares de pessoas que participaram da caminhada, uma história dava um significado ainda mais profundo à mobilização. Professora aposentada e coordenadora da Coletividade Orgulho e Resistência (Cores-DF), Leila D’Arc de Souza participou da Parada em memória do filho, um homem gay que morreu após não suportar a LGBTfobia.

“Eu sou mãe de um homem gay que já faleceu. Porque não suportou essa realidade. E eu sigo aqui em honra ao meu filho”, disse emocionada.

Cinco anos após a perda, Leila afirma que transformou o luto em militância. Embora já integrasse o movimento LGBT+, ela conta que a morte do filho reforçou seu compromisso com a defesa do direito de cada pessoa viver plenamente sua identidade. “Entrei com mais convicção, porque todas as pessoas têm direito de existir como são. E nós, pais, temos o direito de ver nossos filhos felizes”, afirmou.

Diversidade

A história de Leila dialogava com muitas outras que cruzavam a Esplanada. Todas evidenciavam que, embora a população LGBT+ tenha ampliado sua visibilidade e conquistado direitos nas últimas décadas, a violência, a discriminação e a exclusão continuam presentes na vida de muitas pessoas.

A coordenadora do coletivo Força Trans, Lorrane Macedo, lembrou que, para muitas pessoas trans, reivindicar direitos ainda significa lutar pelo básico: poder circular pela cidade sem medo.

“Precisamos ter o direito de sermos livres, de podermos estar em todos os lugares, de poder beijar, amar e ser quem somos em qualquer lugar desta cidade. Estamos aqui para ter orgulho de nós mesmos, sem preconceito, sem crime, sem depressão e sem tristeza”, afirmou.

A manifestação levou milhares de pessoas ao centro do poder político do país para defender direitos, representatividade e participação da população LGBT+ nas eleições de 2026.
A manifestação levou milhares de pessoas ao centro do poder político do país para defender direitos, representatividade e participação da população LGBT+ nas eleições de 2026. | Crédito: Kennedy Cruz/Brasil de Fato DF

Ao longo do percurso, equipes da Defensoria Pública do Distrito Federal, da Ordem dos Advogados do Brasil no Distrito Federal (OAB-DF) e da Polícia Civil prestaram atendimento ao público, ofereceram orientações jurídicas e receberam denúncias de casos de racismo, LGBTfobia e outras formas de violência. A programação também contou com ações de prevenção em saúde, distribuição de preservativos, orientações sobre infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e atendimento ao público.

A estrutura da Parada foi organizada em diferentes trios elétricos, reunindo coletivos de várias regiões administrativas do Distrito Federal e da comunidade LGBT+. Grupos de Taguatinga, coletivos de pessoas trans, indígenas e outras organizações aproveitaram o espaço para dar visibilidade às próprias pautas e reafirmar a diversidade que compõe o movimento.


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Editado por: Flavia Quirino

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