O encerramento da 1ª Semana de Ação Climática de Porto Alegre reuniu, na manhã deste domingo (26), uma caminhada em defesa das florestas urbanas e da justiça climática. Com o lema “O clima é de luta”, o ato percorreu o trajeto entre o Largo Zumbi dos Palmares e o Parque da Redenção, reunindo movimentos sociais, organizações da sociedade civil, pesquisadores, ativistas ambientais e representantes de diferentes territórios da Capital e do interior do Rio Grande do Sul.
A mobilização ocorreu enquanto o estado voltava a registrar fortes chuvas, risco de inundações e pessoas desalojadas e desabrigadas, pouco mais de dois anos após a maior tragédia climática da história gaúcha.
Realizada com 94 atividades autogestionadas ao longo de uma semana, a 1ª Semana de Ação Climática de Porto Alegre reuniu movimentos sociais, organizações populares, universidades, pesquisadores, comunidades tradicionais, coletivos ambientais e instituições públicas em torno da construção de propostas para enfrentar a emergência climática.
Para a diretora executiva da Anistia Internacional Brasil, e uma das enviadas especiais da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (COP30), Jurema Werneck, a primeira edição da Semana de Ação Climática representa um marco na mobilização em defesa da justiça climática. “É um marco na mobilização em favor da justiça climática. Porto Alegre e o Rio Grande do Sul estavam no mapa global pela tragédia. Dois anos e alguns meses depois, Porto Alegre entra no mapa global com uma outra mensagem.”
Na avaliação da dirigente, o principal legado foi demonstrar a capacidade de organização da sociedade civil gaúcha. “O fundamental dessa Semana do Clima é falar da mobilização e do preparo que o movimento social do Rio Grande do Sul tem. Foram 94 atividades com visões, diagnósticos e soluções extremamente consistentes.”
Ela afirmou que, mais de dois anos após as enchentes de 2024, os governos deveriam estar mais preparados e questionou a aplicação dos recursos destinados à reconstrução. “Milhões de reais foram investidos no Rio Grande do Sul para produzir soluções e a gente até agora não sabe onde esse dinheiro foi colocado, porque as pessoas desalojadas e desabrigadas têm certeza de que ele não foi empregado onde elas estão.”
Megaprojetos e soluções baseadas na natureza
Entre os temas debatidos durante a Semana, Werneck criticou a expansão de grandes empreendimentos, como os data centers, por considerar que caminham na direção oposta às soluções baseadas na natureza. “O que a gente está procurando, e já existe um certo consenso global, são soluções baseadas na natureza. E data centers e grandes empreendimentos estão na contramão disso.”
Segundo ela, esses projetos consomem recursos essenciais e comprometem os territórios. “Rouba muita energia que a população deveria consumir, rouba muita água que a população deveria consumir e destrói territórios inteiros.”
Werneck também avaliou que os investimentos realizados após a tragédia priorizaram obras que não enfrentam as causas dos desastres. “O Rio Grande do Sul foi muito em botar ponte no lugar, botar asfalto no lugar, mas no lugar onde as águas vão passar. Ou seja, gastar um dinheiro que não vai proteger ninguém.”

Territórios produzem soluções
Ao longo da semana, Werneck visitou comunidades atingidas pela crise climática e destacou iniciativas construídas pelos próprios territórios. Ela relatou o caso de um quilombo onde moradores de uma comunidade vizinha buscaram ajuda após a chegada de máquinas para remover casas sem qualquer informação prévia. “Enquanto a gente estava reunido lá, um morador de uma comunidade próxima veio correndo pedir ajuda ao quilombo porque as máquinas estavam lá e iam derrubar a casa. Ele não entendia o que estava acontecendo. A gestão só levou as máquinas, não levou nenhuma informação.”
Ela também citou comunidades de terreiros atingidas pelas enchentes que contestam políticas de reassentamento incompatíveis com sua organização. “Os terreiros estão dizendo e apresentando soluções sobre como as coisas precisam ser feitas. Fizeram seu próprio censo, sua própria investigação para construir essas soluções.”
Para Werneck, mulheres, jovens e organizações sociais apresentaram alternativas concretas durante toda a programação. “A gente está vendo mulheres, jovens, organizações produzindo soluções, desde reciclagem de resíduos sólidos até aplicativos, políticas públicas e geração de dados para subsidiar a decisão correta. A gestão não está à altura do que a sociedade do Rio Grande do Sul está produzindo.”
Durante a caminhada, Werneck afirmou que Porto Alegre volta ao cenário internacional não apenas pela tragédia de 2024, mas pela capacidade de mobilização da sociedade civil. “Dois anos atrás o Rio Grande do Sul mandou uma mensagem para o mundo da tragédia, da dor, da perda e da inação da gestão pública. Dois anos depois, a população de Porto Alegre e os movimentos sociais não ficaram parados esperando prefeitos e governadores negligentes fazerem alguma coisa.”
Ela destacou as 94 atividades autogestionadas da Semana como demonstração de que existem caminhos para enfrentar a crise climática. “Porto Alegre está mandando uma mensagem de que o fim do mundo não vai vir porque a luta existe e continua. O fim do mundo não vai vir porque a mobilização é real e necessária. O clima é de luta.”
Ao encerrar, reafirmou o compromisso da Anistia Internacional com a mobilização por justiça climática. “O clima é de luta. A Anistia Internacional está muito orgulhosa de estar junto de vocês nessa caminhada e nessa luta por justiça climática.”

Territórios denunciam novos impactos das chuvas e do desmatamento
Durante o ato, representantes de movimentos populares relataram que diversas comunidades já voltam a enfrentar os impactos das chuvas no Rio Grande do Sul. Militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Gilmara Medeiros afirmou que famílias estão novamente desabrigadas no Vale do Taquari e que moradores das ilhas de Porto Alegre vivem sob apreensão. “Nas nossas áreas de atuação já temos famílias desabrigadas no Vale do Taquari. Também estivemos nas ilhas essa semana e encontramos o pessoal muito assustado. As ruas já estão muito alagadas. Enquanto alguns vizinhos passam de jet ski ou de lancha, tem pessoas que não conseguem nem sair de casa porque a água já chegou à porta.”
Ela também denunciou o avanço do desmatamento na Lomba do Pinheiro e na Restinga. “É muito triste a situação. O desmatamento que está acontecendo na Lomba do Pinheiro é vergonhoso. A gente vê os animais atravessando a rua, bugios, macacos, tentando encontrar um pedaço de mata para se esconder.”
Para a militante, a defesa do meio ambiente está diretamente ligada à proteção das comunidades atingidas. “A gente precisa andar junto, de mãos dadas, para combater isso. Trabalhamos com as pessoas atingidas e muitas delas já estão desabrigadas. Nossa luta é constante.”
Representando a Themis – Gênero, Justiça e Direitos Humanos, Fabiane Lara afirmou que realizar a Semana de Ação Climática em meio ao retorno das chuvas reforçou a importância de ouvir cientistas, movimentos sociais e comunidades afetadas. “A Semana de Ação Climática aconteceu num momento de medo, porque as chuvas voltaram a trazer insegurança para a população. Foi feita para que vozes fossem ouvidas, para que cientistas apresentassem seus relatórios e para que comunidades da Lomba do Pinheiro, da Restinga e dos movimentos sociais pudessem falar.”
De acordo com ela, não há justiça climática sem garantia de direitos. “Não existe justiça climática sem colocar os direitos das pessoas no centro. Não existe justiça climática sem preservar os territórios, os movimentos e as pessoas.”

Florestas urbanas no centro da mobilização
A ativista socioambiental Sophia Maia Rous destacou que a caminhada unificou a pauta climática e a defesa das florestas urbanas de Porto Alegre, ameaçadas pela especulação imobiliária. “Unificamos a caminhada pelo clima com a caminhada em defesa de todas as florestas urbanas de Porto Alegre. Entendemos que nossas florestas e o meio ambiente estão sob constante ameaça da especulação imobiliária e de governos negligentes.”
Ela ressaltou que os eventos extremos atingem sempre as mesmas populações. “Não é coincidência que as mesmas pessoas sejam sempre as mais atingidas pelas mudanças climáticas. Todos os anos temos eventos extremos no Rio Grande do Sul, pessoas morrem e perdem suas casas.
Para Rous, proteger as áreas verdes é garantir o futuro. “A luta pelo clima também é uma luta pela sobrevivência. Precisamos proteger nossas florestas, nossa fauna e nossa flora porque queremos viver. Queremos ter um futuro.”
Representando o movimento em defesa da Floresta do Sabará, Cristina Furcht de Aguiar lembrou que a área ainda preserva cerca de 40 hectares de vegetação nativa. ”Eram 50. Dez hectares já foram desmatados para a construção do Cestto, do grupo Zaffari.” Ela destacou que uma liminar suspendeu o desmatamento até a apresentação de estudos considerados confiáveis.
Para Aguiar, defender a floresta é proteger as próximas gerações. “Vamos seguir lutando. Antes de ser pela floresta, é por nós e pelos nossos descendentes, que vão precisar de árvores, de água e de viver em segurança, sem medo da próxima chuva.”

Cidade Baixa e Mato do Júlio reforçam articulação
Representando o coletivo Cidade Baixa de Luta, Eneida Brasil afirmou que a defesa do clima também passa pelo enfrentamento da gentrificação e da verticalização. “Estamos mobilizados contra esse processo de gentrificação e contra as construções cada vez mais altas, que estão sufocando a arquitetura original, a cultura e a alegria da Cidade Baixa.”
Ela ressaltou que o bairro é um território negro e histórico da Capital e resumiu a mobilização com o lema da caminhada: “A gente também acha que o clima é de luta”.
Já Alan da Costa, do Movimento Mato do Júlio, destacou que a articulação entre coletivos tem possibilitado conquistas ambientais, como a suspensão de desmatamentos na Região Metropolitana de Porto Alegre e do despejo de esgoto no rio Tramandaí. “Mobilizar pessoas durante sete anos é um desafio, mas além da luta a gente também precisa reconhecer as vitórias.”
Segundo ele, fortalecer essa rede é fundamental para manter as mobilizações. “Começamos nosso movimento em Cachoeirinha e fomos nos aproximando de aliados em Porto Alegre, no Litoral, na Serra e no Interior. É isso que precisamos: construir uma rede para continuar essas lutas.”

Semana aproximou debate climático da população, avalia representante da COP
Para a diretora do Departamento de Clima do Ministério das Relações Exteriores e negociadora-chefe do Brasil para a COP30, Lilian Chagas, a realização da Semana de Ação Climática de Porto Alegre contribuiu para aproximar um debate global da realidade cotidiana da população.
De acordo com Chagas, iniciativas como essa ajudam a ampliar a compreensão sobre os riscos impostos pelos eventos climáticos extremos e sobre a necessidade de mudanças individuais e coletivas. “É superimportante porque gera um movimento para que as pessoas tenham maior consciência dos riscos que os eventos extremos representam para a população e das medidas necessárias para evitar que eles continuem acontecendo.”
Na avaliação da diplomata, levar a discussão climática para os bairros é um dos principais méritos da iniciativa. “É muito importante que essas discussões saiam do abstrato e das grandes conferências e aterrizem nos bairros, na casa das pessoas. Uma semana como essa faz exatamente isso: gera conscientização, capacidade de criar soluções e mobilização.”
Chagas destacou que as novas chuvas registradas durante a programação reforçam os alertas feitos pela ciência sobre o agravamento dos eventos extremos. “Historicamente sempre choveu no inverno. O que o aquecimento da temperatura global faz é tornar esses eventos mais intensos, mais dramáticos. A chuva cai com mais força e o poder de destruição é muito maior.”
Para ela, o país precisa ampliar o compromisso com a agenda climática. “O Brasil precisa acordar para essa pauta. Não apenas os governantes, mas toda a sociedade. Precisamos compreender o valor das florestas, dos espaços verdes, das escolhas de consumo, das cidades resilientes. Já existe muito conhecimento produzido. Agora é preciso implementar.”

Sociedade civil precisa ocupar cada vez mais espaço, afirma especialista
A especialista em política climática e legislativa do Instituto Clima e Sociedade (iCS), Carmynie Barros e Xavier, avaliou que a primeira Semana de Ação Climática representa um marco para o Sul do país. Segundo ela, a programação aproximou debates técnicos das demandas apresentadas pela população. “Conseguimos observar prioridades relacionadas ao Plano Clima, às agendas de adaptação e mitigação vinculadas ao Rio Grande do Sul, ao Pampa e à Mata Atlântica. Foi uma oportunidade de dar voz à sociedade civil e traduzir políticas públicas em ações concretas.”
A especialista ressaltou que a coincidência entre a realização do evento e um novo período de chuvas evidenciou a urgência da pauta climática. “Isso demonstra o quanto os eventos extremos estão próximos da nossa realidade e como já estamos observando, na prática, as transformações dos nossos ecossistemas.”
Para Xavier, um dos principais desafios é ampliar a participação das comunidades na formulação das políticas públicas. “Precisamos potencializar a aproximação da sociedade civil com a agenda climática. As vozes periféricas precisam ser escutadas, assim como a juventude e os territórios.”
Ela considera que o país avançou na centralidade do tema, especialmente após sediar as discussões internacionais sobre clima. “Estamos no caminho. O Brasil passou a ocupar uma posição de destaque e todos os biomas e estados estão mobilizados. As pessoas estão levando suas demandas reais para os espaços de decisão e isso é fundamental para fortalecer as políticas de adaptação e mitigação.”

Semana fortaleceu articulação em torno da justiça climática
Para a advogada popular Marina Dermann, do Instituto Preservar, a Semana de Ação Climática consolidou um espaço de articulação entre movimentos sociais, universidades, pesquisadores, órgãos públicos e comunidades atingidas pela crise climática. Conforme pontuou, o encontro aproximou os conhecimentos produzidos nos territórios da formulação de políticas públicas. “Foi um encontro de saberes e experiências que nasceu dos territórios e dialogou diretamente com os grandes desafios da agenda climática.”
Dermann destacou ainda a presença da embaixadora Lilian Chagas e da diretora-executiva da COP30, Ana Toni, como um reconhecimento da importância do Rio Grande do Sul no debate internacional sobre adaptação e justiça climática. “O Rio Grande do Sul ocupa hoje um lugar central nos debates sobre adaptação, resiliência e justiça climática. O que acontece aqui interessa ao Brasil e ao mundo.”
Ela também ressaltou a atuação do Instituto Preservar na advocacia popular e na litigância estratégica em justiça climática, além dos debates sobre reforma agrária, agroecologia, agricultura familiar, transição energética, carvão mineral, expansão da soja, da silvicultura e uso de agrotóxicos.
Na avaliação da advogada, um dos principais legados da Semana foi colocar o Bioma Pampa no centro da agenda climática. “Historicamente esse bioma recebeu menos atenção do que outros biomas brasileiros, apesar de sua enorme importância ecológica e estratégica. A proteção do Pampa apareceu de forma transversal em diversos debates e acredito que essa articulação construída durante a Semana vai gerar novas iniciativas, pesquisas, incidência política e ações concretas de proteção desse patrimônio ambiental.”
Para Dermann, enfrentar a crise climática exige a construção conjunta entre ciência, políticas públicas e os conhecimentos produzidos nos territórios. “A Semana da Ação Climática mostrou que enfrentar a crise climática exige diálogo entre ciência, políticas públicas e os conhecimentos produzidos nos territórios. É dessa convergência que surgem as soluções mais consistentes e mais justas para o futuro.”
