DIRETO DE HAVANA

Professora da UnB depõe sobre a resistência cubana contra o mais longo bloqueio da humanidade

Com mais de 40 anos de vivência no cotidiano de um país sitiado, Maria Auxiliadora César fala sobre a história e a luta

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O Ministério de Relações Exteriores de Cuba classifica a situação atual como um crime de lesa humanidade, enquanto a imprensa dos Estados Unidos constrói narrativas para cooptar não só setores diplomáticos, mas sua população e a de outros países a seu favor
O Ministério de Relações Exteriores de Cuba classifica a situação atual como um crime de lesa humanidade, enquanto a imprensa dos Estados Unidos constrói narrativas para cooptar não só setores diplomáticos, mas sua população e a de outros países a seu favor | Crédito: Eugênio Bortolon

Maria Auxiliadora César, Professora Emérita da Universidade de Brasília (UnB), já passou mais de 40 anos indo a Cuba. Agora, é uma moradora consciente e envolvida com os assuntos cubanos. Mora e sofre as dificuldades de um povo que, desde a Revolução de 1959, passa por um bloqueio econômico estarrecedor. Fundadora do Nescuba/Ceam/UnB – Núcleo de Estudos Cubanos/ Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares da UnB; coordenadora da Casa Brasil em Havana/Cuba, aqui ela presta um depoimento sobre o país que adotou.

Professora aposentada, ex-Universidade de Brasília - UnB, Maria Auxiliadora Cesar (conhecida por Dôra)
Professora aposentada, ex-Universidade de Brasília – UnB, Maria Auxiliadora Cesar (conhecida por Dôra) | Crédito: Divulgação da Dôra e da Casa Brasil

Conhecida como Dôra, mora em Havana e lá está construindo e coordenando, com uma série de parcerias, a Casa Brasil, onde serão realizadas atividades culturais, econômicas e tantas outras ações de apoio aos cubanos a partir de 17 de setembro, quando será inaugurada. Ela é de 1945 e nasceu no Mato Grosso. Fez graduação em Ciências Sociais (1977) e depois Serviço Social e uma série de estudos no Brasil e em Cuba, além de atuar como professora. Participa principalmente na área de Política Social, prestando consultorias e desenvolvendo os seguintes temas: política social, bem-estar, capitalismo e socialismo, gênero, criminalidade, exploração sexual de crianças e adolescentes e sistema penitenciário. Tem publicado livros e é autora de artigos em diferentes revistas.

Confira o que ela escreveu: 

Minha primeira viagem a Cuba se realizou em 1984, mesmo sem relações diplomáticas entre Brasil e Cuba, interrompidas pelo golpe militar de 1964 até 1986, 40 anos depois de seu restabelecimento neste ano de 2026. Continuei viajando anualmente a Cuba, enquanto participante do Movimento Brasileiro de Solidariedade, participando de eventos, brigadas de solidariedade e comemorações de datas históricas, como o 1° de Maio e o 26 de julho.

Em 1986 foi criada em Brasília a Associação Cultural Brasil Cuba e em 1995 o Núcleo de Estudos Cubanos (Nescuba), na Universidade de Brasília. Entre 1996 e 2000, realizei meus estudos de doutorado em Ciências Sociológicas na Universidade de Havana, no chamado ‘Período Especial em Tempos de Paz’, quando me dediquei a estudar as políticas sociais em relação à mulher, realizando um contraponto socialista ao bem-estar capitalista.

Nestes 42 anos de contatos com a realidade cubana, este é o período mais complexo da história que vive o governo e o povo cubanos, mais do que o Período Especial* quando desapareceu o campo socialista e aqui chegaram jornalistas do mundo inteiro para os ‘furos’ de reportagem sobre a queda do sistema socialista cubano e a de Fidel Castro, e lá se vão quase 40 anos, o que reforça os argumentos que a seguir utilizo, com um breve balanço histórico, necessário para a compreensão do porquê Cuba resiste, busca alternativas e avança nestas quase sete décadas desde o triunfo da Revolução, a despeito de um bloqueio que dura mais de 64 anos de formalmente assinado e seu conjunto de leis.

EUA sempre quiseram se apoderar da ilha

Os Estados Unidos, desde o século 18, tem o propósito intransigente de se apoderar de Cuba. Declarações de diversos de seus presidentes diziam da absolutamente necessária anexação de Cuba aos Estados Unidos, e assim seguiu no século 19, com a política da “maçã madura**”. Durante as guerras de Independência cubanas (A Guerra da Independência – 1895 a 1898 – foi a última das três guerras dos cubanos contra o domínio espanhol, sendo as outras duas a Guerra dos 10 anos – 1868 a 1878 – e a chamada Guerra Chiquita – 1878 a 1880).

 O governo norte-americano foi, na verdade, um aliado eficaz do governo espanhol. Depois de espanhola, Cuba se torna, por meio de manobras de traição, de colônia a uma neocolônia americana, quando iniciou oficialmente a ocupação militar dos EUA. A primeira medida foi a dissolução do Exército Libertador cubano com o objetivo de eliminar toda possibilidade de resistência do povo.

 Em 1902 foi proclamada a pseudo “Independência de Cuba” (a bandeira cubana foi içada pela primeira vez no Morro Cabaña, substituindo a bandeira norte-americana), com uma Constituição que tinha um apêndice – a Emenda Platt – cujos textos permitiam aos Estados Unidos intervir militarmente ‘… para repor a paz e a constitucionalidade em Cuba, caso estivessem ameaçadas’.  Na verdade, o que estava ameaçada era a soberania de Cuba.

Tratados se seguiram, assinados à época, que iam na mesma direção de políticas intervencionistas. Até o triunfo da Revolução em 1º de janeiro de 1959 houve forte instabilidade política e vários governos militares, golpes de Estado e ditaduras, ao longo da história pré-revolucionária, como consequência da imensa pressão e intromissão política e econômica do governo estadunidense sobre o país.

Patriotas cubanos lutavam pela independência de Cuba desde o século 18 e resistiam. José Martí, do seu exílio político, já a partir de 1891, dedicaria suas energias, junto a inúmeros cubanos como Maximo Gómez, para criar uma instituição de novo tipo, estruturar uma forte e sólida unidade revolucionária. Em 1892 é fundado o Partido Revolucionário Cubano, organização de luta pela independência de Cuba, único na América Latina.  

Uma população combativa ao longo da história

No ano do centenário do Herói Nacional José Martí, em 26 de julho de 1953, um grupo de jovens, liderados por Fidel Castro, se colocou na vanguarda da luta pela verdadeira independência de Cuba
No ano do centenário do Herói Nacional José Martí, em 26 de julho de 1953, um grupo de jovens, liderados por Fidel Castro, se colocou na vanguarda da luta pela verdadeira independência de Cuba | Crédito: Eugênio Bortolon

Essa história pré-revolucionária forjou o espírito de lutas e resistência do povo cubano. A Universidade de Havana foi palco de lutas desde 1921, com a liderança de Julio Antonio Mella, logo fundada a Federação de Estudantes Universitários – FEU, com um espírito combativo de gerações que fizeram história de pensamento e ação revolucionárias. Fidel Castro ingressa no curso de direito desta Universidade com 19 anos, e outros tantos militantes revolucionários como José Antonio Echeverría, fundador do Diretório Revolucionário em 1956.

No ano do centenário do Herói Nacional José Martí, em 26 de julho de 1953, um grupo de jovens, liderados por Fidel Castro, se colocou na vanguarda da luta pela verdadeira independência de Cuba e protagonizaram o assalto aos Quartéis Moncada e Carlos Manuel de Céspedes, em Santiago de Cuba e Bayamo, respectivamente, com o objetivo de desencadear a luta armada contra a ditadura de Fulgencio Batista (1952-1958). Foi uma derrota militar e uma vitória política de transcendência extraordinária para o povo cubano e para o movimento de libertação nacional. Os sobreviventes foram processados, condenados e presos.

Libertados, foram para o México, voltaram no Iate Granma em 1956, perderam muitos homens e, antes de subir para a Sierra Maestra, Fidel disse diante dos poucos sobreviventes, com apenas sete fuzis: “ganhamos a guerra”, e com persistência e compromisso com a revolução se desencadeou mais uma etapa de guerra revolucionária, culminando com a vitória em 1º de janeiro de 1959. Desde o início do triunfo revolucionário, o governo dos Estados Unidos começou a tomar medidas para derrotar a Revolução.

O recrudescimento do bloqueio econômico

Nestas mais de seis décadas do processo revolucionário, houve diferentes e atrozes ingerências dos Estados Unidos, desde atentados terroristas a bomba a hotéis e shoppings, guerras bacteriológicas no campo, medidas de impacto durante o período especial, 243 medidas a mais durante a pandemia da covid-19, e mais recentemente a reinclusão de Cuba na lista de países supostamente promotores de terrorismo, além do atual recrudescimento do bloqueio em todas as suas dimensões, reiteradas ameaças militares e perseguições e ações judiciais a prestigiosas instituições cubanas e a seus dirigentes, nunca vistas em nenhum período do processo revolucionário.

O que sinto hoje, ao viver nesta Ilha pequena geograficamente e grande em humanismo, em solidariedade internacionalista e em exemplos de políticas sociais efetivas, hoje prejudicadas pelas políticas imperiais, com costas a 90 milhas de distância dos Estados Unidos?

Sou testemunha de uma guerra multidimensional, nunca vivenciada tão intensamente como agora, e cito Fidel quando, já em 1994, em pleno período especial, disse: ‘… não é embargo, como chamam eufemisticamente, não é bloqueio, como nós chamamos, é guerra, é perseguição tenaz, constante’.

Vejo agora um bloqueio que aumenta em proporções jamais experimentadas, sem precedentes na história nesta segunda edição do governo Trump e do ocorrido na Venezuela com o sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores.

Além do bloqueio econômico, comercial, financeiro, extraterritorial, de sanções a empresas e bancos, há um bloqueio naval, com cerco energético de quase sete meses. A falta de energia, os apagões (média de 20 horas sem energia por dia, em algumas zonas pode durar até 40 horas seguidas), num calor sufocante, afetam o sistema de educação, saúde, transporte, alimentação, a área de agricultura e de distribuição de água, enfim, causam impactos acumulados no cotidiano do cubano e da cubana; há espera angustiantes de cirurgias; tratam de suspender todo programa de cooperação médica, que traz divisas para Cuba e beneficia outros países.

É difícil a contabilização em números dos prejuízos materiais e incalculável em relação ao dano humano. Milhões de dólares em ajuda não se pode executar por dificuldades nas transações bancárias e, muitas vezes, estas se arrastam por meses.

Crime de lesa humanidade

O Ministério de Relações Exteriores de Cuba classifica a situação atual como um crime de lesa humanidade, enquanto a imprensa dos Estados Unidos constrói narrativas para cooptar não só setores diplomáticos, mas sua população e a de outros países a seu favor. Tudo isso ocorre em um cenário mundial de guerra, de crises econômicas internacionais, de um mundo unipolar, de genocídios como o de Gaza, enfim, de políticas imperiais contra a humanidade.

Por outro lado, vejo também, sedimentados por gerações que lutaram e lutam para salvar a Revolução, governo, instituições, organismos de massa, mulheres e homens, jovens, enfim, um governo e um povo que resiste, busca alternativas, tem o apoio de distintos países, defende seus princípios socialistas, haja vista as massivas manifestações recentes da comemoração do 1º de Maio e as realizadas, também em todo o país, em defesa do líder da Revolução Raúl Castro, indiciado sem provas por acontecimentos que aconteceram há 30 anos, irritando sobremaneira aos Estados Unidos.

Cuba continua em movimento, nutrida de memória e luta: comemora os 40 anos do Centro de Engenharia Genética e Biotecnologia (CIGB) – polo científico ampliado no Período Especial – e continua os trabalhos de homens e mulheres de ciência, descobrindo vacinas contra tumores cancerígenos, e novos ensaios clínicos para descoberta de medicamentos para doenças graves, ‘doses de talento para salvar vidas’.

Também comemora os 65 anos da publicação “Palavras aos intelectuais”, quando Fidel se reuniu na Biblioteca José Martí e abriu as portas para o pensamento liberto aos intelectuais e artistas; refina petróleo cubano de muito enxofre pesado; amplia a instalação de placas solares que, aos poucos, vai mudando a configuração do acesso à energia; aprovou na Assembleia Nacional do Poder Popular – ANPP, após consultas em diferentes âmbitos da sociedade, o documento Transformações Econômicas e Sociais, com 176 medidas agrupadas em 23 eixos temáticos;  mobiliza para próxima discussão do Código do Trabalho; solicita e é concedida uma Sessão Extraordinária da Assembleia Geral da ONU para apreciação da sua declaração para denunciar o recrudescimento do bloqueio.

Ajudas humanitárias de diversos países

Além disso, os apoios crescem, em ajudas humanitárias de diversos países, organizações e forças políticas, movimentos de solidariedade, amigos e amigas de Cuba, e em infraestrutura energética, especialmente da China e Rússia, enfrentando o bloqueio, demonstração de que Cuba não está só.

Enquanto os Estados Unidos provocam um sofrimento e um castigo coletivos, apostam em uma desestabilização da ordem, e acusam a Cuba, sem fundamento, de se constituir uma ameaça aos Estados Unidos, o povo cubano, responde com resistência: participa em exibição de obras de teatro, cinemas, atos comemorativos de eventos históricos, concertos os mais diversos, espetáculos de dança, e outros, desafiando inumeráveis dificuldades.

E quando vem a noite os cubanos acendem suas velas, suas lanternas, vão para o Malecón (grande avenida à beira do mar), para as ruas conversar com os vizinhos e fogem da escuridão e do calor, interagem em um ato de sobrevivência e desafiam o momento doloroso.

No fim da semana passada fui à Plaza Vieja, coração de Havana Velha, ao evento de início da temporada de férias de verão para crianças. Em um dos espaços, acabou a luz e o calor era sufocante – leques apareceram por todos os lados, assim como celulares e lanternas de organizadores e do público que iluminavam o palco, onde os pequenos atores encenavam a obra de teatro infantil com entusiasmo que emocionava, com a participação de crianças e pais que cantavam juntos, desafiando o bloqueio, com palmas e vivas ao final.

Fidel, líder histórico da Revolução Cubana continua sendo forte inspiração para avançar com resistência e firmeza na defesa dos princípios socialistas da Revolução.

Encerro este breve depoimento com palavras de Martí, Herói Nacional da República de Cuba que, como disse Fidel, foi o autor intelectual do Assalto ao Quartel Moncada: “A um plano obedece o nosso inimigo: de acovardar-nos, dispersar-nos, dividir-nos, afogar-nos. Por isso nós obedecemos a outro plano: ensinar-nos toda nossa altura, apertar-nos, juntar-nos, burlá-lo, fazer afinal a nossa Pátria livre. Plano contra Plano”.

Havana/Cuba, julho de 2026
Ano do Centenário de nascimento de Fidel Castro Ruiz

* O Período Especial foi uma grave crise econômica em Cuba iniciada em 1989 e 1990, marcada pela escassez extrema de energia, alimentos e combustíveis. Essa crise ocorreu após o fim da União Soviética, que era a principal parceira comercial e fonte de subsídios da ilha.

** Cuba gravitaria como uma fruta que, ao se separar de sua árvore, vai cair nas mãos dos Estados Unidos, corroborando a Doutrina Monroe e a sua política expansionista, já naquela época.

Editado por: Katia Marko

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