O mês de julho foi marcado pela repercussão de casos de violência em escolas públicas no Paraná. No início do mês (6), um professor foi ameaçado de morte em São José dos Pinhais após pedir silêncio a alunos da sala de aula vizinha à sua. O educador precisou sair escoltado da escola. Na saída, ele e seus filhos de 12 e 14 anos, que também estudam na instituição, foram cercados, e as ameaças foram reiteradas. A Polícia Civil do Paraná (PC-PR) segue investigando o caso.
No dia 10, outros dois casos repercutiram no estado. Em Ponta Grossa, um estudante foi espancado por um homem e um adolescente dentro de um colégio cívico-militar. Uma equipe do 1º Batalhão da Polícia Militar do Paraná foi acionada para atender à ocorrência, classificada pelos agentes como de alta complexidade.
Segundo informações da Polícia Civil, um dos agressores seria um ex-estudante da unidade, que teria ido até o colégio cobrar a vítima por desavenças anteriores envolvendo uma suposta namorada. Ainda conforme a Polícia Civil, após o estudante reagir às agressões, o irmão mais velho do ex-aluno também passou a atacar a vítima, na tentativa de ajudar o autor. Para escapar dos agressores, a vítima relatou à polícia que precisou se esconder na sala dos professores.
A presidenta do Núcleo Sindical de Ponta Grossa, Rosângela de Anhaia, afirmou que o sindicato está acompanhando o caso e cobrando mais informações: “Na propaganda, o governo Ratinho Jr. aponta as escolas cívico-militares como mais seguras do que a escola convencional, mas, na prática, não é o que estamos vendo. A violência contra um estudante dentro de um colégio que se dizia ‘blindado’ escancara a falta de monitoramento dos próprios militares”, afirmou.
O segundo caso do dia 10 ocorreu em Cascavel. Uma adolescente venezuelana de 15 anos foi espancada por colegas após sair do Colégio Estadual Olinda Truffa de Carvalho. Segundo relatos da família, a agressão ocorreu após um histórico de bullying e xenofobia relacionados à sua nacionalidade e às dificuldades com o idioma português. A jovem foi derrubada, arrastada pelos cabelos e agredida por vários estudantes, chegando a desmaiar durante o ataque. Ela foi socorrida e encaminhada para atendimento médico.
As ocorrências reacenderam discussões sobre prevenção da violência, mediação de conflitos, acompanhamento psicossocial e fortalecimento das políticas de proteção à comunidade escolar. Em nota, a APP-Sindicato declarou que “episódios brutais de xenofobia não são fatos isolados, mas o resultado direto do desmonte de políticas de integração e de ensino de línguas nas escolas estaduais paranaenses”.
A secretária de Políticas Sociais e Direitos Humanos da APP-Sindicato, Jussara Aparecida Ribeiro, destaca que a garantia de direitos humanos exige proteção imediata: “O direito à educação só é pleno quando garante a permanência e a dignidade de cada estudante, sem distinção de nacionalidade. O ocorrido em Cascavel alerta para a urgente necessidade de acolhimento. Punir equipes escolares que já atuam no limite do cansaço não resolve o problema; o Estado precisa assumir sua responsabilidade pedagógica e humana”.
Escola enquanto espaço humano
Em entrevista ao Brasil de Fato PR, Aline Chalus Vernick Carissimi, doutora em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), afirma que “é necessário produzir uma nova mentalidade nas crianças e jovens”. Segundo ela, isso passa por conhecer a organização da sociedade, fruir da arte e da cultura e pensar criticamente as atitudes dos indivíduos.
Nesse sentido, a especialista defende a retomada de componentes curriculares como artes, sociologia e filosofia, que considera “ferramentas poderosas no combate à violência”. Para Carissimi, “pensar a escola coletivamente, como um espaço vivo, dinâmico, afetivo, é crucial para a melhoria da vida em sociedade. A escola não pode deixar de ser esse espaço humano para ser um espaço automatizado, invadido por plataformas educacionais, simulados, excesso de provas e avaliações em larga escala, para novamente se configurar como o espaço da vida e da esperança, onde não cabe a violência, a insegurança, para construir o amanhã mais fraterno”.
As escolas cívico-militares começaram a operar no Paraná em 2021. Atualmente, o estado conta com 312 colégios militarizados, mantidos mesmo após o governo federal extinguir o Programa Nacional de Escolas Cívico-Militares (Pecim) em 2023 e após consultas públicas marcadas por denúncias de autoritarismo.
Segundo levantamento publicado em maio deste ano pela Fundação Carlos Chagas (FCC), em parceria com o Ministério da Educação (MEC), sete em cada dez gestores de escolas públicas no Brasil (71,7%) relatam dificuldade em dialogar sobre o enfrentamento às violências no ambiente escolar.
Protocolos são insuficientes
Em relação aos recentes casos de conflitos envolvendo estudantes e pessoas de fora da comunidade escolar, Aline Carissimi ressalta que o estado apresenta protocolos específicos para mediação de conflitos.
No entanto, avalia a especialista, essas sistematizações funcionam apenas como orientações para as escolas, e o protocolo “ainda é insuficiente, especialmente se considerarmos a necessidade de formação consistente às equipes escolares sobre a temática, abordagem e mediação, além, é claro, de políticas intersetoriais que envolvam outras secretarias de governo na produção de ações e protocolos de combate à violência”.
Parceria público-privada é prejudicial
Outro elemento agravante, segundo Carissimi, é a gestão terceirizada das escolas, implementada pelo atual governo por meio do programa Parceiros da Escola.
Para ela, “o governo insiste no discurso de que a gestão privada faz apenas o gerenciamento administrativo e estrutural da instituição, mas a escola é formada por gente que tem projeto de vida, pressupostos que vão muito além do processo meramente gerencial. Lida-se com vidas humanas, formação humana; portanto, não é possível dissociar o todo escolar, separando parte administrativa e pedagógica, a lógica empresarial não cabe na escola pública”.
O Brasil de Fato PR procurou a Secretaria Estadual de Educação (Seed-PR) para comentar os casos, mas não obteve resposta até o fechamento desta reportagem. O espaço permanece aberto para manifestação.

