Justiça climática

Crise climática exige proteger territórios e mudar modelo de desenvolvimento, defendem especialistas

Conferência na UnB, neta terça-feira (28), debateu a união entre ciência, políticas públicas e saberes ancestrais

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6ª Conferência Brasileira de Restauração Ecológica (Sobre 2026) reuniu pesquisadores, lideranças indígenas e representantes de comunidades tradicionais na Universidade de Brasília
6ª Conferência Brasileira de Restauração Ecológica (Sobre 2026) reuniu pesquisadores, lideranças indígenas e representantes de comunidades tradicionais na Universidade de Brasília | Crédito: Kennedy Cruz/Brasil de Fato DF

A restauração ecológica precisa ir além da recuperação de áreas degradadas e fazer parte das estratégias de enfrentamento da crise climática. A avaliação foi o eixo da segunda plenária da 6ª Conferência Brasileira de Restauração Ecológica (Sobre 2026), realizada nesta terça-feira (28), na Universidade de Brasília (UnB). Pesquisadores e representantes de povos e comunidades tradicionais defenderam que restaurar ecossistemas também passa pela proteção dos territórios e pela valorização dos conhecimentos tradicionais.

Com o tema “Restauração e Crise Climática: Mitigação, adaptação e Justiça”, a mesa reuniu a pesquisadora Mercedes Bustamante, o pesquisador Mateus Silva, a liderança indígena Tamikuã Txihi e Elizete Barreto. As apresentações abordaram o papel da restauração na redução dos impactos das mudanças climáticas e os desafios para transformar esse debate em políticas públicas.

O evento acontece até esta sexta-feira (31), na UnB, e reúne pesquisadores, gestores públicos, organizações da sociedade civil, empresas e representantes de povos e comunidades tradicionais para discutir a restauração ecológica no Brasil. Nesta edição, o tema central da conferência é “Restauração ecológica: inclusão e justiça climática”. 

Para a pesquisadora e bióloga Mercedes Bustamante, a restauração ecológica é uma ferramenta importante para enfrentar a crise climática, mas não substitui a necessidade de reduzir as emissões de gases de efeito estufa. “A gente está vivendo condições que o planeta não experimentava há pelo menos 300 mil anos. A restauração é cada vez mais importante para mitigação porque aumenta o sequestro de carbono, mas ela, sozinha, não resolve o problema. Se não reduzirmos as emissões provenientes da queima de combustíveis fósseis, não conseguiremos alterar essa trajetória”, afirmou.

A pesquisadora também destacou que a restauração não pode seguir um modelo único em todo o país. Segundo ela, as soluções precisam respeitar as particularidades de cada bioma e responder, ao mesmo tempo, à crise climática e à perda da biodiversidade.

“Hoje nós já enfrentamos duas grandes crises globais: a mudança do clima e a perda da biodiversidade. Restaurar ecossistemas ajuda a responder às duas, mas precisamos compreender que cada bioma possui características próprias e exige soluções específicas. Não existe uma única receita para todo o Brasil”, destacou.

Bustamante também lembrou que os efeitos das mudanças climáticas já fazem parte da realidade, com eventos extremos cada vez mais frequentes, e defendeu a restauração como uma estratégia para aumentar a capacidade de adaptação dos ecossistemas e das populações.

Conferência debateu os desafios da restauração ecológica diante das mudanças climáticas
Conferência debateu os desafios da restauração ecológica diante das mudanças climáticas | Crédito: Kennedy Cruz/Brasil de Fato DF

Restauração

O pesquisador Mateus Silva chamou atenção para um dos desafios da restauração ecológica: planejar os projetos considerando as mudanças climáticas que ainda virão. Segundo ele, as espécies plantadas hoje precisarão resistir a um ambiente diferente daquele em que estão sendo produzidas.

“A muda que a gente planta hoje vai chegar à maturidade em um clima completamente diferente. Isso exige pensar quais espécies terão condições de sobreviver às mudanças que já estão em curso e como aumentar a resiliência desses ecossistemas diante dos novos desafios”, afirmou.

O debate também abordou o papel dos povos indígenas e das comunidades tradicionais na conservação dos ecossistemas. Os participantes defenderam que políticas de restauração precisam incorporar os conhecimentos acumulados por essas populações e garantir a proteção dos territórios onde esses saberes continuam sendo praticados.

A liderança indígena Tamikuã Txihi defendeu que a restauração ecológica passa pelo reconhecimento dos conhecimentos produzidos pelos povos originários, historicamente excluídos das políticas ambientais e dos espaços de decisão.

“Nós nunca deixamos de produzir ciência e tecnologia. O nosso conhecimento foi invisibilizado durante muito tempo, mas ele continua vivo nos territórios. Não existe restauração sem ouvir aqueles que sempre cuidaram da floresta, das águas e da terra”, afirmou a liderança.

Para ela, enfrentar a crise climática também exige rever a forma como a sociedade se relaciona com a natureza e abandonar a lógica que reduz os territórios a recursos econômicos. “A terra não pode continuar sendo vista apenas como recurso econômico. Ela é um organismo vivo do qual fazemos parte. Quando destruímos uma floresta ou contaminamos um rio, estamos rompendo uma relação que sustenta a própria vida”, destacou.

A liderança indígena Tamikuã Txihi defendeu o reconhecimento dos conhecimentos dos povos originários nas políticas de restauração ecológica
A liderança indígena Tamikuã Txihi defendeu o reconhecimento dos conhecimentos dos povos originários nas políticas de restauração ecológica | Crédito: Kennedy Cruz/Brasil de Fato DF

Território e justiça climática

Representante da comunidade tradicional de Fecho de Pasto Clemente, na Bahia, Elizete Barreto destacou que a restauração ecológica depende da garantia dos territórios ocupados por povos e comunidades tradicionais. Segundo ela, essas populações preservam os biomas há gerações, mas ainda enfrentam conflitos fundiários e insegurança sobre suas terras.

“Não existe restauração sem território. Somos nós que mantemos essas áreas vivas há gerações, mas muitas vezes continuamos lutando para garantir o direito de permanecer nelas. Restaurar também significa proteger quem protege a natureza”, afirmou.

Elizete também defendeu que a recuperação ambiental começa nas ações e no fortalecimento das práticas tradicionais. “A restauração começa nas pequenas ações e na forma como cada comunidade cuida do seu lugar. Precisamos pensar na responsabilidade de cada um para que as próximas gerações encontrem uma terra mais saudável do que a que recebemos”, destacou.

Mercedes Bustamante também chamou atenção para o papel das escolhas políticas na agenda ambiental.  “O Brasil hoje está se aproximando de um momento de escolha, de um novo ciclo eleitoral que traz propostas muito distintas. É importante que a população brasileira se debruce sobre essas propostas e entenda qual é o conjunto de ideias e de grupos políticos que quer ver representado, não só no Executivo, mas sobretudo no Legislativo”, concluiu.

A programação da 6ª Conferência Brasileira de Restauração Ecológica segue até o final desta semana, com plenárias, mesas-redondas, oficinas e apresentações de pesquisas sobre recuperação de ecossistemas. Os debates reúnem pesquisadores, gestores públicos, organizações da sociedade civil e representantes de povos e comunidades tradicionais para discutir caminhos para ampliar a restauração ecológica no país diante da crise climática.


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Editado por: Clivia Mesquita

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