A comunidade quilombola e a cidade de Porto Alegre inauguram sábado (1º/8), a partir das 11h, o Monumento a Dandara dos Palmares, a guerreira negra dos tempos coloniais que desafiou o Império Português e se tornou uma lenda da história brasileira. A obra fica no canteiro central da avenida Divisa, em frente ao número 2199, no bairro Santa Tereza. Será uma obra de arte pública com sete metros de altura feita em aço corten – é material resistente à corrosão, com aparência de ferrugem e alta durabilidade, com elementos como cobre, cromo, níquel e fósforo.
Dandara dos Palmares (1654-1694) foi uma guerreira e liderança central do Quilombo dos Palmares, destacando-se por liderar táticas de defesa militar, rejeitar acordos parciais de paz que mantinham a escravidão e simbolizar a resistência feminina negra. Não se sabe se Dandara nasceu no Brasil ou no continente africano, mas teria se juntado ainda menina ao grupo de pessoas negras que desafiaram o sistema colonial escravista por quase um século. Ela teve quatro filhos: Motumbo, Acaiuba Zambi, Aristogíton dos Palmares e Harmódio dos Palmares. Foi casada com Zumbi dos Palmares.
O monumento gaúcho a Dandara reuniu oito artistas – Adriana Xaplin, Jeanice Dias Ramos, Paulo Corrêa, Rafael do Nascimento Garcia, Ricardo Cardoso, Sabrina Stephanou, Tiago Gonçalves e Vinicius Vieira. A ação de homenagem integra o projeto Território de Dandaras, financiado pelo Estado, através do Edital 23/2024.
Durante o evento de inauguração também será entregue o Prêmio Dandara dos Palmares a mulheres negras que desenvolvem trabalho pela visibilidade da comunidade afro-brasileira no RS, como Izis Abreu, Jéssica Cardoso, Lore Abrão, Mara Núbia de Oliveira, Malvina Beatriz Souza, Maria Cristina Santos e Rainha Ginga Francisca Dias.
A inauguração do Monumento e a premiação são realizadas pela Stephanou Cultural, com apoio do Instituto Estadual de Artes Visuais – IEAVi, da Organização de Mulheres Negras Maria Mulher, da Associação dos Escultores do Rio Grande do Sul – AEERGS, da Associação dos Moradores da Vila Tronco – Amavtron, do Coletivo Preta Velha, do Coletivo Negro Terragrita e da Coordenação de Artes Visuais da Secretaria da Cultura de Porto Alegre. O ateliê do escultor, arquiteto e urbanista Vinicius Vieira teve participação decisiva na obra. Fica localizado na rua Sofia Veloso, número 15, sala 101, na Cidade Baixa.
Território de resistência
Território de Dandaras faz referência a espaços de luta, resistência e moradia inspirados ou batizados em homenagem à guerreira que lutou ao lado de Zumbi contra a opressão e a perseguição às pessoas escravizadas. O termo remete a ocupações urbanas, comunidades ou projetos culturais focados no protagonismo feminino negro, na ancestralidade e no direito à terra. Homenageá-la simboliza a força, a estratégia de defesa e a recusa a acordos que mantenham a falta de humanidade contra as minorias.
Dandara foi capturada em 6 de fevereiro de 1694. Para não retornar à condição de escravidão, cometeu suicídio, eternizando-se como um ícone máximo da luta contra o cativeiro. Seu nome está gravado no Livro dos Heróis da Pátria.
Existem também outros movimentos atualmente ligados à Dandara. Ocupação Dandara em Belo Horizonte (MG), fundada em 2009 por mais de mil famílias em busca de moradia decente. Há ainda Projetos e Coletivos, expressões usadas em iniciativas de arte, educação e ativismo que valorizam a soberania e a cultura das mulheres negras e quilombolas.
Em Porto Alegre, o principal destaque na homenagem a esta líder da comunidade negra é a Marcha Independente Zumbi e Dandara, ato político e cultural que ocorre anualmente há mais de duas décadas, sempre no mês de novembro, unindo coletivos sociais e sindicatos.
O ponto final da marcha é o Largo Zumbi dos Palmares, referência à memória da resistência negra, que também evoca o legado de Dandara ao lado de Zumbi. O espaço público se forma no cruzamento da avenida Loureiro da Silva com as ruas João Alfredo, José do Patrocínio e a Travessa do Carmo, conhecido antigamente como Largo da Epatur.
Zumbi dos Palmares
Dandara dos Palmares foi companheira de Zumbi dos Palmares o último dos líderes do Quilombo dos Palmares, o maior do período colonial. Zumbi, ou Francisco Zumbi, nasceu em 1655 na Serra da Barriga, capitania de Pernambuco, atualmente União dos Palmares no estado de Alagoas. Viveu até 20 de novembro de 1695. Morreu na Serra Dois Irmãos, atualmente Viçosa, Alagoas. A palavra zumbi ou Zambi, vem do termo zumbe, do idioma africano quimbundo e significa fantasma, especto, alma de pessoa morta.
O Quilombo dos Palmares era um reino formado por pessoas escravizadas que escaparam dos engenhos, fazendas, senzalas e prisões. Ele ocupava uma área próxima ao tamanho de Portugal (92,09 mil quilômetros quadrados). Naquele momento sua população alcançava por volta de 30 mil pessoas. Zumbi falava o idioma dos escravizados e aprendeu português e latim e até ajudava na missa dos católicos.
O reinado de Zumbi durou de 1680 a 1695. No ano de 1678, o governador da capitania de Pernambuco, esgotado por tantos conflitos com o Quilombo dos Palmares, fez um pedido de paz ao líder Ganga Zumba. Ofereceu liberdade se o quilombo obedecesse às ordens portuguesas. Ganga aceitou, mas Zumbi se revoltou, rejeitou e se tornou o novo líder.
Passados 15 anos, o bandeirante paulista Domingos Jorge Velho foi convocado para invadir o quilombo. Em 6 de fevereiro de 1694 a capital de Palmares foi destruída e Zumbi ferido. Apesar de ter sobrevivido, foi traído por supostos amigos, apunhalado, mas resistiu até 20 de novembro de 1695. Teve a cabeça cortada, salgada e levada ao governador Melo e Castro. Em Recife, a cabeça foi exposta em praça pública no Pátio do Carmo, visando desmentir a crença da população sobre a lenda da imortalidade de Zumbi. Em 14 de março de 1696, o governador de Pernambuco, Caetano de Melo e Castro, escreveu ao rei português:
“Determinei que pusessem sua cabeça em um poste no lugar mais público desta praça, para satisfazer os ofendidos e justamente queixosos e atemorizar os negros que supersticiosamente julgavam Zumbi um imortal, para que entendessem que esta empresa acabava de todo com os Palmares.”
