Cultura Socialista

Shanxi, a província onde a China busca preservar a memória do passado e construir o futuro

Lar de mais de 28 mil prédios históricos, região discutiu em evento a conexão entre patrimônio, memória e identidade

No audio source provided.
A Cidade Antiga de Yuci, na província de Shanxi, preserva séculos de história da China. Com origem na dinastia Zhou (1046-256 a.C.) e estruturas desenvolvidas ao longo de diferentes períodos históricos.
A Cidade Antiga de Yuci, na província de Shanxi, preserva séculos de história da China. Com origem na dinastia Zhou (1046-256 a.C.) e estruturas desenvolvidas ao longo de diferentes períodos históricos. | Crédito: Bruno Falci / Brasil de Fato

Às margens do Rio Amarelo, considerado um dos berços da civilização chinesa, está a província de Shanxi, uma das regiões com maior riqueza histórica e arquitetônica da China. Com milhares de anos de história, preserva templos, cidades antigas, aldeias tradicionais e uma das maiores concentrações de prédios históricos de madeira do país.

Shanxi possui 53.875 bens culturais imóveis registrados, incluindo 28.027 edifícios históricos, e concentra mais de 70% das construções de madeira anteriores à dinastia Yuan (1271-1368) preservadas na China, segundo especialistas em patrimônio. A província também abriga três sítios reconhecidos como Patrimônio Mundial pela Unesco: a Cidade Antiga de Pingyao (1997), as Grutas de Yungang (2001) e o Monte Wutai (2009).

Entre os exemplos mais importantes da arquitetura antiga estão templos e edifícios de madeira que atravessaram séculos, incluindo estruturas históricas das dinastias Tang (618-907), Liao (916-1125), Jin (1115-1234) e Yuan (1271-1368).

Foi esse cenário que recebeu a Semana Internacional de Proteção do Patrimônio Cultural, sob o tema “Unidade para a Prosperidade, Patrimônio para a Eternidade”. O evento foi realizado na Cidade Antiga de Yuci, em Jinzhong, cujas ruas, templos, pátios tradicionais e construções históricas revelam aspectos da organização social e urbana da China tradicional.

A reportagem em vídeo produzida para o Brasil de Fato acompanha como Shanxi busca transformar seu patrimônio histórico e cultural em uma ferramenta de preservação, educação e desenvolvimento social. A partir da Semana Internacional de Proteção do Patrimônio Cultural, o material mostra os desafios de manter viva uma herança milenar e, ao mesmo tempo, criar novas formas de conectar esses recursos culturais com a sociedade e as futuras gerações. O Brasil de Fato também conversou com especialistas chineses que participaram do encontro.

O evento reuniu mais de 100 participantes, entre especialistas chineses e estrangeiros, pesquisadores, profissionais da área cultural, representantes diplomáticos e jornalistas internacionais, para discutir a preservação, transmissão e promoção do patrimônio cultural diante dos desafios do desenvolvimento contemporâneo.

A programação incluiu fóruns internacionais, palestras acadêmicas, visitas técnicas a locais históricos, exposições temáticas, atividades educativas para jovens, apresentações culturais e demonstrações do uso de tecnologias digitais aplicadas à conservação.

Além dos debates, os participantes visitaram locais históricos da província e acompanharam apresentações culturais que conectaram tradições antigas às novas formas de comunicação do patrimônio.

Para os especialistas, a preservação deixou de ser apenas uma questão cultural e passou a ser também um elemento de desenvolvimento urbano, participação social e construção da identidade coletiva.

Do patrimônio como memória ao patrimônio como parte da vida

Para Ding Feng, urbanista e secretária-geral da Fundação de Conservação do Patrimônio Ruan Yisan, “nos últimos 30 anos, a China — especialmente o governo — alcançou importantes avanços na conservação do patrimônio construído, incluindo cidades históricas, vilas, aldeias e edifícios. A China possui uma enorme riqueza patrimonial devido à sua longa história”.

Feng destaca: “Esta província tem uma importância fundamental.” Segundo a especialista, Shanxi ocupa uma posição estratégica porque reúne uma parte significativa da arquitetura histórica chinesa.

A Semana Internacional de Proteção do Patrimônio Cultural, segundo Ding Feng, representa uma nova etapa na preservação, em que a sociedade passa a ter um papel central.

“Este evento é muito importante porque demonstra que a conservação do patrimônio já não é apenas uma tarefa dos especialistas, mas também de toda a sociedade. A participação do público é o futuro.”

Ding Feng, urbanista e secretária-geral da Fundação de Conservação do Patrimônio Ruan Yisan – Foto: Bruno Falci / Brasil de Fato

A urbanista explica que, depois de décadas de proteção e restauração, o principal desafio agora é integrar o patrimônio à vida cotidiana.

“Durante os últimos 30 anos, a conservação do patrimônio se tornou um aspecto muito importante para o desenvolvimento da sociedade, especialmente do ponto de vista econômico, por exemplo, por meio do turismo. No entanto, depois desses 30 anos de desenvolvimento e conservação, percebemos que não basta considerar o patrimônio como um recurso para o turismo.”

Para Ding Feng, os edifícios históricos não devem ser vistos apenas como atrações, mas como espaços vivos. “O patrimônio construído faz parte da vida das pessoas; pertence a todos. Por isso, o grande desafio para o futuro é como integrá-lo à vida cotidiana.”

Segundo ela, a participação popular será fundamental para preservar a grande quantidade de bens históricos existentes na China. “Se queremos proteger uma quantidade tão grande de patrimônio construído, precisamos envolver a população e encontrar novas formas de reutilizá-lo.”

Tecnologia para preservar e divulgar a memória

Enquanto Ding Feng destaca a necessidade de transformar o patrimônio em parte da vida cotidiana, An Hai, subdiretor do Instituto de Pesquisa para a Proteção da Arquitetura Antiga, Esculturas Policromadas e Murais da Província de Shanxi, aponta como a tecnologia pode ajudar a preservar e divulgar essa memória histórica.

Segundo An Hai, a Semana Internacional de Proteção do Patrimônio Cultural amplia o debate sobre a preservação histórica ao fortalecer o intercâmbio internacional. “Nesta edição, convidamos jornalistas de meios internacionais e especialistas estrangeiros interessados na arquitetura antiga para debater juntos o desenvolvimento e o futuro do patrimônio arquitetônico de Shanxi.”

O pesquisador afirma que os bens históricos da região recebem cada vez mais atenção dentro de uma perspectiva de cooperação global.

An Hai, subdiretor do Instituto de Pesquisa para a Proteção da Arquitetura Antiga, Esculturas Policromadas e Murais da Província de Shanxi – Foto: Bruno Falci / Brasil de Fato

“Nossa província possui vários sítios declarados Patrimônio Mundial, e esses bens culturais recebem cada vez mais atenção graças aos esforços conjuntos da comunidade internacional e ao marco da governança global.”

Como Instituto de Arquitetura Antiga de Shanxi, a instituição é responsável por diferentes etapas da preservação. Segundo ele, o trabalho passou por uma transformação ao longo das últimas décadas.

“Nos últimos 20 anos, concluímos, em grande parte, o trabalho de proteção emergencial dos edifícios históricos com maior valor científico, artístico e histórico. Agora, nosso maior desafio é como revitalizá-los, promovê-los e transmiti-los às futuras gerações.”

Para An Hai, a inovação é uma aliada. “Minha principal missão é utilizar as tecnologias mais avançadas para ampliar a divulgação da arquitetura antiga e fazer com que ela seja mais conhecida pelo público.”

O instituto utiliza escaneamentos em alta definição, renderização em tempo real, modelagem tridimensional e outras técnicas digitais para criar registros fiéis dos edifícios históricos, esculturas policromadas e murais. A realidade virtual completa o trabalho.

“Utilizamos grandes ambientes de realidade virtual (VR), permitindo que pessoas, de diferentes lugares e em diferentes momentos, entrem virtualmente nesses espaços e conheçam os edifícios históricos, suas esculturas policromadas e seus murais.”

Ela destaca ainda o significado da Semana Internacional de Proteção do Patrimônio Cultural. “Considero este evento muito significativo, não apenas para Shanxi, mas para toda a China. Também representa um compromisso do governo com a proteção do patrimônio cultural.”

An Hai ressalta, porém, que toda inovação precisa respeitar um princípio fundamental: a autenticidade. “Todas as tecnologias que utilizamos precisam estar baseadas na preservação da autenticidade dos bens culturais.”

A proteção do patrimônio, segundo os especialistas ouvidos pelo Brasil de Fato, não termina na restauração dos edifícios: o desafio é garantir sua transmissão, tornando a memória parte do presente e do futuro. Em Shanxi, preservar o passado significa também construir novas formas de relação entre história, identidade cultural e desenvolvimento.

Editado por: Gia Matheus Almeida

|

Newsletter