PELA CIDADE BAIXA

As histórias de Sofia Veloso e Baronesa do Gravataí, duas mulheres insuperáveis no bairro

Elas viveram nos séculos 19 e 20, deixaram um legado para a cidade e são nomes de ruas na região, um feito especial

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Porto Alegre tem 9.453 ruas, avenidas, logradouros, alamedas, travessas, das quais apenas 379 com nomes de mulheres
Porto Alegre tem 9.453 ruas, avenidas, logradouros, alamedas, travessas, das quais apenas 379 com nomes de mulheres | Crédito: Rafael Rosa

Ao caminhar pela Cidade Baixa, o fotógrafo Rafael Rosa observa: “Pô, não vi um nome de mulher nestas ruas”. O assunto interessou, ficou guardado na memória para uma futura pesquisa. Depois de algumas semanas, surgiu a pauta da Editora Coragem na rua Sofia Veloso. “Bingo, enfim um nome de mulher em rua”. Surgiu a matéria. Pois é, em todo o bairro existem apenas duas mulheres homenageadas com nomes de ruas, em região que tem uma área de 76,2 hectares (ou 0,762 km 2), com quase 20 mil habitantes, ligada ao Centro Histórico e ao Parque da Redenção: Baronesa do Gravataí e Sofia Veloso.

Porto Alegre tem 81 bairros em uma área territorial total de 495,39 km2Conforme o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2022, a população é de1.332.845 habitantes (hoje, um pouco mais), o que resulta em uma densidade demográfica de aproximadamente2.690 habitantes por km2.  A cidade tem 9.453 ruas, avenidas, logradouros, alamedas, travessas, das quais apenas 379 com nomes de mulheres, conforme publicação feita pela ex-vereadora e presidente da Câmara Municipal, Maria Celeste (PT), no livro “Logradouros públicos em Porto Alegre: presença feminina na denominação”, organizado pela funcionária do Memorial da casa legislativa Rosa Ângela Fontes. Os nomes de ruas são uma atribuição da Câmara de Vereadores.

Em todo o bairro existem apenas duas mulheres homenageadas com nomes de ruas
Em todo o bairro existem apenas duas mulheres homenageadas com nomes de ruas | Crédito: Rafael Rosa

O lançamento feito em 2007 integrou as comemorações do aniversário de 234 anos da Câmara. Passados quase 20 anos do livro, os números estão um pouco maiores, mas nada muito substancial.

O livro reúne verbetes com nomes de mulheres que se denominam ruas da Capital. Na obra, aparecem figuras conhecidas, como Luciana de Abreu e Elis Regina, mas também pessoas anônimas que se destacaram em suas comunidades e, por isso, foram homenageadas com nomes de logradouros. “Na dor e na alegria de cada uma destas mulheres se constrói a história da cidade de Porto Alegre”, disse, na época, Maria Celeste.

A Baronesa e Sofia foram grandes personagens da capital gaúcha no século 19 e, por isso mesmo, são as grandes e únicas homenageadas com seus nomes na Cidade Baixa entre mais de 50 personalidades homens que têm seus nomes gravados ali. Caminhando por toda a extensão destas ruas em um dia qualquer pouca gente pôde responder quem eram essas figuras. Alguém chegou a dizer que a baronesa era mulher de um barão. Mais nada. E de Sofia falaram que era a mulher que fez uma caridade imensa, doando vários casarões para o Asilo Padre Cacique, o que foi confirmado pela direção daquela casa de acolhimento de idosos.

Baronesa parece esquecida e mal-cuidada

A rua tem bares, grafites, restaurantes simples para o dia a dia
A rua tem bares, grafites, restaurantes simples para o dia a dia | Crédito: Rafael Rosa

Percorrendo a rua em toda a sua dimensão, da Ipiranga até a República, a gente nota uma rua em estado de apatia. Calçadas em estado precário, casas em mau estado ou simplesmente em petição de miséria. Arquitetura feita sem arquiteto, sem grandes inovações. Alguns prédios comuns. Bares, grafites, restaurantes simples para o dia a dia. O grande destaque é que ali funciona o Centro de Policiamento da Capital da Brigada Militar.

Outros destaques podem ser conferidos como a Escola Mãe Admirável, o Bar do Alexandre (há outro no Menino Deus), padaria, confeitaria, alfaiataria (extintas em quase toda a cidade), escola de capoeira e belos grafites no muro da Igreja Santo Antônio.

Uma das ruas transversais históricas da Baronesa é a avenida Luiz Guaranha, rua sem saída, sem canteiros centrais nem movimento intenso. Ali estão as raízes de um povo ao longo de seus 100 metros de extensão. Conhecida como Quilombo Areal da Baronesa, a avenida concentra uma comunidade formada por cerca de 300 moradores, que personificam a resistência negra em Porto Alegre desde o século 19. Foi lá que nasceu também o carnaval de rua da Capital.

Formada à beira do Guaíba, a comunidade está localizada entre a Cidade Baixa e o início da zona sul, no bairro Menino Deus. Como a região era banhada pelo Guaíba, a moradia na esquina da Luiz Guaranha com a rua Baronesa do Gravataí foi residência de veraneio do Barão do Gravataí, que recebeu o título na vinda de Dom Pedro II a Porto Alegre em 1852.

Com a morte dos barões, os escravizados mantiveram suas rotinas, vivendo nas estrebarias e cuidando dos animais. Porém, a situação se inverteu após a chegada do italiano Guaranha. O caixeiro-viajante transformou o cotidiano dos moradores quando decidiu reformar as casas e cobrar pagamento de aluguel até meados dos anos 1980. 

“Era tudo muito simples, as casinhas velhas e a rua de chão batido”, lembra Sônia Xavier, que viveu 60 anos no Areal em reportagem publicada em 2015. A neta de pessoas escravizadas foi morar junto com a mãe e o irmão no espaço onde era o antigo casarão.

Quem foi a personagem da rua

O nome da Baronesa do Gravataí era Maria Emília de Menezes Pereira, falecida em 1888. Suas antigas terras formaram o “Areal da Baronesa”, atual bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre. Os imóveis na região variam de preço de R$ 200 mil a R$ 1,2 milhão. A rua nasceu a partir do loteamento da antiga Chácara da Baronesa. Em 1879, ela dividiu suas terras e as entregou oficialmente à Câmara Municipal.

Com a abertura dos caminhos no local, a população e os registros oficiais passaram a chamá-la de rua Baronesa do Gravataí. O uso do nome se consolidou definitivamente após o falecimento dela, em 1888. Diferente de outras vias da região que mudaram de nome, a Baronesa do Gravataí já nasceu com a identidade atual em função do loteamento do próprio “Areal da Baronesa“.

Paredes da região trazem belos grafites
Paredes da região trazem grandes grafites | Crédito: Rafael Rosa

A Baronesa, naturalmente (ou não), era mulher do Barão de Gravataí, um casal que brilhou nos salões da sociedade porto-alegrense nos anos 1850. Eles receberam o título das mãos de Dom Pedro II. João Batista da Silva, o Barão, nasceu em Braga, Portugal em 1797 e em 1823 veio para Porto Alegre.

Era pobre, segundo dizem os historiadores. Tinha visão comercial e muita energia. Montou logo um estaleiro de pequena dimensão, cresceu, onde hoje é o Pão dos Pobres. Fez fortuna. De início fazia pequenos barcos para navegação fluvial. Mais tarde, chegou a construir grandes embarcações, que atravessavam o Atlântico.

A Baronesa era de uma tradicional família açoriana de Rio Pardo. Ela casou com o Barão em abril de 1823. Em 1826, a família construiu o famoso Solar da Baronesa, destruído por incêndio. Só existe um solar da Baronesa, mas em Pelotas. As terras foram sendo adquiridas ao longo do tempo, se constituindo no Arraial da Baronesa (e Areal).

Ajuda a Duque de Caxias para derrotar os farrapos

O marido era um cara generoso e ajudou, com muito dinheiro, Duque de Caxias, presidente da Província, sem cobrar juros, na Revolução Farroupilha. Ajudou, de certa forma, a derrotar os farrapos. Segundo conta a história, ele dispensou os agradecimentos. Suas terras tinham extensos matos, plantações de alimentos, frutos e verduras. Comida para o ano inteiro, além da pesca que se poderia fazer no Guaíba.

Foi nesse manancial de riqueza que os escravizados fugidos se escondiam, longe dos capitães-de-mato (caçadores de escravos). Os escravos precisavam de roupas e passaram a assaltar as pessoas que por ali passavam nas chamadas e famosas “Emboscadas”. Eles armavam tocaias, esperando as vítimas às escondidas.

Em 1845, ao final da Revolução Farroupilha, Dom Pedro II visitou Porto Alegre e se hospedou no Solar da Baronesa. O imperador ficou tão grato que, em 1852, João Batista da Silva Pereira, depois de receber tantos agradecimentos da família imperial e comandar uma tropa na Guerra contra o Uruguai, recebeu o título de Barão do Gravataí.

Em 1853, ainda cheio de vigor, o Barão, com apenas 56 anos, morreu subitamente por uma estranha hemorragia. Até o imperador ficou comovido e aproveitou o momento para confortar a viúva Maria Emília com o título de Baronesa.

Com 44 anos, inexperiente em negócios, nem ela sabia direito tudo que tinha. A extensão das terras era algo inexplicável. O comércio do marido parou e ela foi perdendo o glamour e precisou encarar uma velhice precoce tomada por muita amargura. Abandonada pelos amigos, o solar também deixou de ser visitado por políticos e famílias da sociedade. Faltava dinheiro. Era quase o fim.

Pouco tempo depois um incêndio repentino transformou o solar em cinzas. Em 1879, aos 71 anos, a Baronesa resolveu transformar as suas terras em loteamentos e encaminhou pedido aos vereadores. Com o mapa dos terrenos na mão e o pedido aceito, as vendas começaram e ela conseguiu sobreviver dignamente.

Assim, a parte da cidade ficou conhecida como Arraial (ou Areal) da Baronesa, embrião do bairro Cidade Baixa. Em 17 de março de 1888, Maria Emília Menezes Pereira morreu aos 80 anos. O local onde morou e as cercanias se transformaram na atual rua Baronesa do Gravataí.

A benemérita abolicionista Sofia Veloso

Sofia Veloso fez a doação de parte de sua propriedade para o Asilo Padre Cacique
Sofia Veloso fez a doação de parte de sua propriedade para o Asilo Padre Cacique | Crédito: Rafael Rosa

Assim como a Baronesa, Sofia Veloso também era de origem nobre. Ela nasceu em 1856, não teve filhos e possivelmente nem tenha se casado, mas era proprietária de muitas terras na região onde virou nome de rua. Talvez uma herança. Nascida em 1856 na própria capital gaúcha, Sofia Veloso possivelmente morava onde hoje é a avenida João Pessoa.

Ela ganhou prestígio e ficou muito conhecida em uma época em que as mulheres não tinham voz e nem visibilidade. Eram apenas esposas e donas de casa. Seus direitos eram limitados. Conforme está no Guia Histórico de Porto Alegre, assim mesmo, foi ativista abolicionista e integrante do Centro Abolicionista da cidade, criado em 1883.

O nome de Sofia, porém, foi solenemente ignorado entre os líderes do movimento, onde só constavam homens. A presença feminina foi registrada apenas na relação com caridade e ajuda social, a partir da visão que se tinha na época do papel das mulheres, relacionado à delicadeza e generosidade.

Percorrendo a rua, criada em 1904, ali estão dez casas que estão registradas na mesma matrícula no poder público e são listadas como Patrimônio Histórico. Os casarões, geminados ou não, todos preservados não correm risco de destruição, mas necessitam de preservação constante, mas faltam recursos.

Há também cinco prédios, um centro afroumbanda, escola infantil, tattoo shop, um hostel. Vários escritórios se localizam nas casas preservadas. Destaque para a Editora Coragem, uma organização progressista, e muita movimentação de estudantes. É uma rua pacata, que começa na Lima e Silva e forma um L invertido, desembocando na República – ou ao contrário.

Sem herdeiros, Sofia realizou um grande ato comunitário e humanitário para a cidade: a doação de parte de sua propriedade para o Asilo Padre Cacique. As casas que ali estão foram construídas nos anos 1930. Como a própria Sofia morreu em 1930, é provável que ela tenha doado o terreno para o asilo e, alguns anos depois, o então prefeito José Montaury mandou construir as casas, para que a renda de aluguéis fosse direcionada para o Padre Cacique. Essa situação se mantém até os dias de hoje. A Editora Coragem, por exemplo, paga R$ 4,5 mil mensais.

A doação de Sofia é uma das fontes de receita do Asilo Padre Cacique até hoje. O asilo é uma organização não governamental, sem fins lucrativos. A entidade foi fundada em 19 de junho de 1898 pelo padre baiano Joaquim Cacique de Barros, que já naquele século realizava obras assistenciais. Filho de um mestre na construção de barcos, nasceu em Ribeira do Itapagipe, Salvador, em 11 de agosto de 1831, tendo, aos 32 anos de idade, vindo morar, exercer o sacerdócio e dedicar-se a causas filantrópicas em Porto Alegre, à época com aproximadamente 20 mil habitantes.

Em sua longa trajetória, o asilo sempre enfrentou momentos de dificuldades. Em muitos momentos, a sociedade, organizada para acolher e manter pessoas idosas carentes de ambos os sexos, sem distinção de raça, cor ou credo religioso e sem custos para os internos. São acolhidos ali cerca de 200 pessoas. O asilo tem grandes gastos principalmente com alimentos e remédios e sobrevive, além dos aluguéis, de ajuda da comunidade.

Desde 2007, a Sofia tem servido também para carnaval de rua para moradores e frequentadores da Cidade Baixa.

Editado por: Katia Marko

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