IDENTIDADE

Festa comemora resistência e ancestralidade da comunidade indígena Mirueira Pataxó (MG)

16ª edição do Kãdawe Upã Pataxi, em Guanhães, abriu portas da aldeia para a sociedade conhecer e valorizar costumes

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A celebração cultural e tradicional comemora a resistência, a ancestralidade e a identidade da comunidade indígena Mirueira Pataxó | Crédito: Charlon Andrada

O som ritmado dos maracás e os passos firmes das danças de Awê marcaram o início do Kãdawe Upã Pataxi – expressão Pataxó que significa “Festa da Minha Riqueza”. Realizada anualmente em julho na Fazenda Candonga, município de Guanhães (MG), a celebração cultural e tradicional comemora a resistência, a ancestralidade e a identidade da comunidade indígena Mirueira Pataxó. 

Em sua 16ª edição, a festividade abriu as portas da aldeia para que a sociedade conhecesse e valorizasse os seus costumes. Desde as primeiras horas da manhã, com o café coletivo, pinturas corporais e feiras de artesanato, o território se encheu de vida. Jovens e adultos se desafiaram em modalidades tradicionais como arremesso de lança, zarabatana, arco e flecha, corrida do maracá, cabo de guerra, equilíbrio no bambu e a tradicional prova do “Derruba o Toco”.

A cozinha coletiva

No coração da festa, o vapor que sobe das panelas gigantes revela outra dimensão da vida comunitária, a alimentação coletiva. Sob a coordenação de Bruna Cristina Caldeira Sena, casada com o vice-cacique Txoekin Pataxó, a cozinha comunitária ferve em ritmo acelerado. O mutirão de mulheres trabalha para garantir que haja alimento suficiente para todos.

Enquanto a rotina diária da aldeia exige comida para cerca de 80 moradores locais, durante o Kãdawe Upã a demanda dispara para centenas de visitantes, chegando a registrar picos de milhares de pessoas em programações abertas ao público. Servido por volta do meio-dia, o almoço coletivo é um ato de partilha e acolhimento. 

A escola precária e as urgências do cotidiano

Por trás do colorido das pinturas e da alegria das danças, contudo, existe uma realidade de duras privações. A comunidade Mirueira Pataxó enfrenta graves urgências estruturais, sendo a educação o gargalo mais doloroso.

“A escola da gente, ela é muito precária”, desabafa o vice cacique Txoekin Pataxó. “No tempo seco temos medo de cair uma telha na cabeça dos alunos, no tempo de chuva molha os alunos, os cadernos, temos que ficar trocando eles de lugar”, lamenta.

Atualmente, falta infraestrutura física básica até mesmo para abrigar as salas de aula para 22 alunos que estudam ali até o quinto ano. Como a escola é vinculada administrativamente à Carmésia, a distância geográfica dificulta o suporte pedagógico e as visitas da superintendência regional de ensino, que frequentemente alega falta de veículos ou motoristas para ir até a aldeia.

Ainda assim, a comunidade celebra pequenas vitórias contra o abandono estatal. “Nossa pedagoga agora vai ser aqui da aldeia, a Idiane. Ela é filha do cacique Patxohã e trabalha com educação infantil”, conta Bruna Sena, orgulhosa da jovem que se formou e trará para as salas de aula um olhar voltado para o fortalecimento da cultura indígena.

As demandas da comunidade ligadas à cultura e à espiritualidade esbarram diretamente na falta de infraestrutura. Sem um ponto de encontro adequado, as tradições e os rituais locais resistem de forma improvisada. O Cacique Patxohã traduz o sentimento de limitação que essa escassez impõe aos Mirueira Pataxó:

“A gente não tem um centro cultural aqui. A gente tem uma cabaninha ali, bem pequena, ela não suporta a nossa comunidade. É ali onde fazemos as nossas reuniões, nossos rituais. E onde a gente também tem as barracas onde a gente trabalha com artesanato, que também já ficam fora. Então, a gente quer um centro cultural em torno do qual a gente pudesse trabalhar”, diz.

Para além do desafio vivenciado nos momentos de fé e tradição, a vulnerabilidade estende-se à dignidade da moradia. Sem apoio habitacional público, várias famílias são obrigadas a viver em barracas de acampamento. Embora as lideranças indígenas busquem constantemente a interlocução com o poder público e órgãos de apoio, as soluções definitivas ainda caminham a passos lentos.

O parque estadual e a regeneração da Terra

Essa luta diária pela sobrevivência se desenvolve em meio ao cenário ecológico do Parque Estadual Serra da Candonga (PESC). Criado em dezembro de 1998 com 3.302 hectares de Mata Atlântica e mais de 40 nascentes preservadas, o parque sofre historicamente com a ausência de regularização fundiária.

Quando os Pataxós ocuparam a Fazenda Candonga em julho de 2010, migrando de Carmésia após saírem originalmente de Porto Seguro, na Bahia, em busca de subsistência, depararam-se com uma área severamente devastada pelo pisoteio do gado.

“Era uma área muito devastada onde tinha só criação de boi. Quem conheceu antes da nossa chegada percebe essa realidade totalmente diferente por ver a preservação que nós fizemos”, destaca o cacique Patchorã.

A recuperação ambiental promovida pela comunidade assegura a integridade das águas que abastecem toda a região. Entretanto, a insegurança territorial persiste. Embora tenham recebido a promessa de 1.260 hectares em 1999, os indígenas ocupam hoje apenas 260 hectares. Sendo uma comunidade extremamente jovem e em crescimento, onde os casamentos ocorrem cedo, o espaço atual tornou-se insuficiente, gerando apelos urgentes pela demarcação e entrega definitiva das terras.

Aliança de sangue e tambores com os quilombolas

Cercada por comunidades quilombolas no entorno de Guanhães, a aldeia Mirueira construiu uma aliança histórica e espiritual de proteção mútua.

“A luta é a mesma… e aí é um apoiando o outro na mesma luta”, resume a Cristiana Soares da Silva, Liderança da Comunidade Quilombola Moinho Velho, da Cidade de Senhora do Porto.

Essa parceria fraterna nasceu durante o encontro estadual “Fala Quilombo”, em Itabira, quando o cacique Patxohã conheceu Renato, liderança quilombola. A afinidade imediata gerou um intercâmbio cultural contínuo. O grupo quilombola passou a levar a sua tradicional apresentação do Bumba meu boi, para as festividades Pataxó, enquanto os indígenas retribuem participando ativamente das celebrações nos quilombos.

A conexão vai além das festas e toca a espiritualidade e a cura tradicional. Rudáh, Pajé responsável pela saúde indígena, destaca: 

“Espiritualidade, a gente sabe, é de todo mundo dessa luta, tanto dentro da comunidade indígena, quanto nossos irmãos quilombolas também… Então nós estamos nesse conjunto, nós vivemos em uma só comunidade”.

O espelho da história e o sentido de viver na Candonga

Para o povo Pataxó, viver e resistir na Serra da Candonga carrega um profundo significado histórico e espiritual. O território abriga o “Sítio natural, paisagístico, histórico e arquitetônico do Candonga”, tombado como patrimônio cultural municipal em 2003. A área deveria preservar a memória de um casarão do século XIX, hoje em ruínas, além de vestígios de senzalas, uma represa de lavagem de ouro e galerias subterrâneas escavadas na rocha pela companhia inglesa The Candonga Gold Co. Limited. Estima-se que, no auge da exploração, cerca de 10 mil pessoas escravizadas tenham trabalhado ali sob condições desumanas.

Até mesmo o nome “Candonga” é uma herança imaterial desse período. Segundo Dalmir Lott, descendente do fundador inglês da mineradora, o termo tem origem banto e remete às tramas e trapaças ligadas ao contrabando do ouro na época colonial. 

“Os fazendeiros que venderam as terras para o meu quinto avô se arrependeram. Aí, criaram um prostíbulo perto da entrada da fazenda. O que eles queriam, na verdade, era ouvir dos funcionários da mineração as informações sobre a exploração do ouro. Embriagados, os trabalhadores acabavam falando demais, gerando as tais ‘candongas’  conflitos e confusões. Essa seria a origem do nome do lugar”, conta.

Para os Pataxós, a sua vivência no parque é um elo que conecta os povos indígenas originários do território mineiro aos antepassados pretos que verteram seu sangue na mineração inglesa. Eles consideram os quilombolas e a si mesmos como herdeiros de uma mesma história de dor e resistência. Ao reflorestar as áreas degradadas pelo gado, ao proteger as nascentes e ao lutar pela sua escola e suas casas, o povo Pataxó resgata a dignidade desse solo sagrado.

A verdadeira riqueza (Kãdawe Upã) da Serra da Candonga já não é o ouro que outrora enriqueceu os ingleses, mas a floresta de pé, a água limpa que brota da terra e a soberania dos povos tradicionais que, juntos, decidiram que nunca mais serão silenciados.

Editado por: Lucas Wilker

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