ELEIÇÕES

‘Minas está descarrilhada’, diz cientista político sobre candidatura de Zema ao Planalto

Especialista avalia que legado do ex-governador pode dificultar tentativa de nacionalizar discurso de gestor eficiente

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Zema
Ex-governador de MG Romeu Zema, durante encontro nacional do Novo em São Paulo  | Crédito: Cauiá Maia/Divulgação

Com o discurso de que pretende “fazer no Brasil o que fez em Minas Gerais”, o ex-governador Romeu Zema (Novo) oficializou, na segunda-feira (27), sua candidatura à Presidência da República durante a convenção nacional do partido, em Brasília. Para o cientista político Estevão Cruz, entretanto, a principal dificuldade do candidato será justamente defender nacionalmente o legado construído ao longo de quase oito anos à frente do governo mineiro. 

“Minas está descarrilhada”, resume o pesquisador, ao afirmar que a narrativa de eficiência administrativa cultivada por Zema não encontra respaldo na realidade do estado.

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A candidatura coloca definitivamente Zema na disputa pelo Palácio do Planalto como uma alternativa dentro do campo da ultra direita. Nas pesquisas de intenção de voto, o ex-governador aparece entre 2% e 4% das preferências, distante dos principais concorrentes, mas tecnicamente empatado com outros presidenciáveis como Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Filho (MDB) em parte dos levantamentos. Em cenários de segundo turno, aparece empatado tecnicamente com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, embora ainda seja um nome pouco conhecido nacionalmente.

Durante a convenção, Zema voltou a defender sua principal bandeira eleitoral: a de que sua gestão em Minas Gerais seria exemplo de responsabilidade fiscal, redução do tamanho do Estado e eficiência administrativa. O discurso também foi marcado por críticas ao governo Lula, ao Supremo Tribunal Federal (STF) e pela promessa de ampliar reformas econômicas liberais em âmbito nacional.

Na avaliação de Cruz, entretanto, a comparação entre Minas Gerais e o projeto que Zema pretende apresentar ao país tende a expor contradições da própria administração estadual. 

“Um dos slogans do governo dizia que Minas estava nos trilhos. Isso não corresponde aos fatos. Minas está descarrilhada. Do ponto de vista fiscal, ao invés de melhorar as capacidades estatais com a vantagem que ele obteve de não pagar a dívida, o que ele fez foi destruir essas capacidades e ampliar enormemente a dívida”, afirma.

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Segundo o cientista político, a situação se reflete diretamente em políticas públicas que sofreram sucessivos cortes ao longo da gestão. 

“Quando dizemos que ele não melhorou as capacidades estatais, isso se comprova nos fracassos da sua gestão em áreas críticas como educação, saúde, assistência social, mas também na segurança pública. Essa área, que costuma ser tratada como uma vitrine para candidaturas da direita, representa uma vidraça enorme para Zema, diante da crise com os servidores e da piora dos índices de violência no estado”, explica.

‘Zema inaugura 2026 com a pior situação fiscal do país’

Embora tenha construído sua imagem pública como empresário e gestor eficiente, os últimos anos do governo Zema foram marcados por críticas em diversas áreas da administração pública.

Na saúde, entidades de trabalhadores, especialistas e movimentos sociais denunciaram o fechamento e a reestruturação de hospitais da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), além da tentativa de transferência de serviços públicos para organizações sociais. Também foram alvo de críticas os atrasos na conclusão dos hospitais regionais prometidos desde a campanha de 2018 e a política salarial direcionada aos servidores da área.

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Outro tema que gerou desgaste foi a utilização de recursos públicos em campanhas publicitárias que atribuíram ao governo estadual obras financiadas por municípios e pelo governo federal, caso revelado pelo Brasil de Fato MG.

Na educação, os indicadores também caminharam na direção oposta ao cenário nacional. Dados do Censo Escolar de 2025 mostram que Minas Gerais registrou queda superior a 40% no número de escolas públicas de tempo integral entre 2022 e 2025. O estado passou de aproximadamente 1,2 mil unidades para pouco mais de 800 escolas nessa modalidade, afastando-se das metas previstas pelo Plano Nacional de Educação.

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Já na economia, uma das principais vitrines da gestão, o governo ampliou significativamente a política de renúncia fiscal. Em 2025, os incentivos concedidos a empresas chegaram a R$ 19,4 bilhões, enquanto a dívida consolidada de Minas ultrapassou R$ 200 bilhões. Entre os casos que geraram maior repercussão esteve a divulgação de benefícios fiscais concedidos à Eletrozema, empresa pertencente à família do ex-governador.

Para Cruz, esses dados fragilizam a principal narrativa construída por Zema desde que ingressou na política. “O discurso da austeridade fiscal não resiste senão como um simulacro. É uma representação sem ligação com a realidade. A gestão de Zema não é de austeridade fiscal. É de destruição fiscal”, afirma.

O pesquisador avalia que o governo só conseguiu apresentar algum equilíbrio financeiro graças ao período em que deixou de pagar parcelas da dívida com a União e aos recursos obtidos no acordo firmado após o rompimento da barragem da Vale, em Brumadinho. “Fora isso, Zema inaugura 2026 com a pior situação fiscal do país”, sinaliza.

Pouco conhecido fora de Minas

Além do desafio de defender sua administração, Zema terá outro obstáculo na campanha presidencial: tornar-se conhecido nacionalmente em um curto espaço de tempo. Embora governe um dos maiores estados do país desde 2019, sua popularidade permanece concentrada em Minas Gerais. Para Estevão Cruz, isso reduz significativamente as possibilidades de crescimento eleitoral.

“O Zema é amplamente desconhecido do eleitorado nacional. Ele tende a continuar assim devido ao grande isolamento político e eleitoral em que sua candidatura se encontra. Não terá tempo para se apresentar. E, evidentemente, com a sua exposição, as críticas também tendem a aparecer”, acrescenta o cientista político, ao ressaltar que o ex-governador ainda enfrenta um dilema político ao tentar ocupar um espaço entre o bolsonarismo e uma direita liberal.

Durante a pré-campanha, Zema intensificou críticas ao governo federal e ao STF, passou a defender o impeachment do ministro Alexandre de Moraes e lançou vídeos da série “Os Intocáveis”, nos quais ministros da Corte e o presidente Lula aparecem representados por fantoches. Ao mesmo tempo, evitou confrontos mais duros com Flávio Bolsonaro, de quem chegou a ser cogitado como possível vice meses atrás.

Para Cruz, essa estratégia tende a transformar a candidatura em uma extensão do bolsonarismo, e não em um projeto próprio. 

“Tudo leva a crer que ele aproveitará o pouco tempo de televisão e os debates para desqualificar o presidente Lula, ao invés de construir sua própria imagem. A candidatura de Zema tende a funcionar como força auxiliar do bolsonarismo”, defende.

Privatizações e apoio empresarial

Outra marca da campanha deverá ser a defesa da privatização de empresas públicas, uma das principais bandeiras de Zema desde que assumiu o governo mineiro. Para o cientista político, porém, essa pauta perdeu força junto à população brasileira.

“É uma posição ideológica cada vez mais contestada, inclusive entre economistas liberais. Trata-se de uma política de dilapidação do patrimônio público em favor de setores econômicos específicos”, pondera.

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Segundo ele, mesmo em Minas Gerais, o ex-governador encontrou forte resistência para avançar com essa agenda. 

“A privatização da Copasa só foi possível no último ano do governo e após sucessivas mudanças na Constituição mineira para retirar a necessidade de consulta popular”, recorda.

Na avaliação de Cruz, nem mesmo a aproximação com setores empresariais deve garantir maior competitividade à candidatura presidencial. 

“A elite econômica nacional está muito mais concentrada em torno das candidaturas de Flávio Bolsonaro e, em menor medida, de Ronaldo Caiado. Nem em Minas Zema conseguiu liderar um projeto nacional capaz de representar estrategicamente esses setores”, analisa.

De acordo com especialistas, enquanto busca definir o nome que ocupará a vice-presidência de sua chapa, Zema inicia a campanha tentando ampliar seu espaço na direita e extrema direita brasileira. Para seus adversários e para parte dos analistas, entretanto, a principal disputa não será apenas por votos, mas pela narrativa sobre aquilo que, de fato, ficou como legado de sua passagem pelo governo de Minas Gerais.

Editado por: Lucas Wilker

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