Alguns sociólogos marxistas já estudaram e publicaram obras sobre fenômenos sócio-políticos singulares e originais como os ocorridos no Brasil durante o governo Bolsonaro.
Exemplos destes raros fenômenos: multidões rezando pra pneu; aglomerados aos milhares clamando por intervenção de ETs com celulares apontando aos céus; acampamentos populares defronte a quartéis pedindo intervenção militar, quando o governo legítimo era o próprio aliado dos manifestantes de Bolsonaro, etc.
A chave para entender esses fenômenos dentro da tradição marxista não é tratá-los como loucura ou simples irracionalidade, mas como sintomas ideológicos e formas de consciência reificada que brotam de condições materiais e sociais específicas do capitalismo neoliberal.
A base para essa análise vem da tradição da Escola de Frankfurt e de marxistas que estudaram o fascismo. Para tanto, temos que compreender o conceito de semicultura e pseudoatividade.
A chave de Theodor Adorno
O filósofo Theodor Adorno, embora não tenha vivido para ver Bolsonaro, forneceu o arsenal teórico mais preciso para decifrar as cenas brasileiras ocorridas durante o quadriênio do fascismo brasuca. Em ensaios como “Teoria da Semicultura” e “A Psicanálise dos Líderes Fascistas”, ele explica e esclarece.
Vamos os fatos, sempre conforme Adorno.
Rezar para pneu: é a manifestação de uma consciência coisificada. O pneu, objeto que impede a circulação (do lucro, da mercadoria, da força de trabalho), é fetichizado. A oração não é um ato religioso tradicional, mas um ritual mágico de uma sociedade que se sente impotente diante das forças econômicas que a governam. É a tentativa desesperada de exercer influência sobre um mundo que se tornou incompreensível, recorrendo ao pensamento mágico.
Agradecimento a extraterrestres com celular: aqui se unem dois conceitos de Adorno.
Semicultura: as pessoas têm fragmentos de informação (tecnologia, ufologia, teoria da conspiração) desconectados de qualquer contexto histórico ou crítico. O cérebro é uma miscelânea de recortes conflitantes. O celular, instrumento máximo da indústria cultural e da integração tecnológica, vira um mediador para uma salvação vinda de fora, uma fantasia escapista de redenção “ex machina”.
Pseudoatividade: apontar o celular para o céu dá a ilusão de participação ativa em um evento histórico, enquanto a rigor é uma rendição completa à passividade. É a simulação de uma práxis transformadora que, no fundo, apenas reforça a submissão a um poder incompreensível (seja ele extraterrestre ou estatal).
Acampamentos em quartéis pedindo intervenção militar: este é o exemplo mais clássico e perigoso.
O marxista grego Nicos Poulantzas, na obra “Fascismo e Ditadura”, ajuda a decifrar a crise de representação.
Uma parcela da população, sentindo-se traída pelas instituições democráticas liberais e sem uma organização de classe autônoma, projeta no aparato repressivo do Estado (o Exército e a polícia) a imagem de um árbitro neutro e salvador, acima dos conflitos sociais. Em 1964, isso ocorreu e nos envolveu em uma ditadura civil-militar que durou 21 anos.
É revelador de uma profunda consciência autoritária (pobres mais que de direita, autoritários convictos), que anseia pela ordem e pela eliminação da Política (que é entendida como mero conflito e fonte de corrupção) em nome de uma unidade nacional mítica.
Autores brasileiros que também analisaram o fenômeno
Vários intelectuais marxistas brasileiros contemporâneos publicaram obras analisando diretamente a base social e a flutuação ideológica do bolsonarismo, ecoando esses fenômenos.
Vladimir Safatle mescla marxismo, psicanálise lacaniana e teoria crítica.
Em obras e artigos recentes, Safatle analisa o bolsonarismo como um circuito de afetos que mobiliza medo, ódio e uma demanda punitiva, criando um estado de excitação política constante que dispensa qualquer mediação racional. É o que explica a energia libidinal em torno de um pneu ou de um quartel.
Sabrina Fernandes, em seu livro “Se quiser mudar o mundo”, e suas análises sobre o bolsonarismo partem de um marxismo ecossocialista para decifrar como a crise do capitalismo neoliberal criou um sujeito bolsonarista reativo.
Ela descreve como a frustração com a modernização e a precarização da vida se transforma em adesão a um discurso de ordem, mitos de salvação e pânico moral, que se manifestam nessas cenas de catarse coletiva irracional.
Mauro Iasi, um marxista mais ortodoxo, autor de “O dilema de Hamlet”, analisa a consciência de classe e seus impasses no Brasil. Seu arcabouço é útil para entender que esses fenômenos não são um desvio das massas, mas a expressão trágica de uma consciência fragmentada, típica de uma classe média em pânico e de um lumpemproletariado desorganizado, que não consegue formular uma alternativa de classe e, por isso, se agarra a soluções messiânicas e autoritárias.
O clamor por intervenção militar é a rendição total da pequena burguesia a um Estado forte que a proteja da ameaça (real ou imaginária) de proletarização.
Christian Dunker, um psicanalista que trabalha a teoria crítica marxista, na obra “O mal-estar, o sofrimento e o sintoma”, fornece a base para entender a “vida em forma de condomínio” e a lógica dos acampamentos: a criação de espaços de fantasia onde se encena uma comunidade ideal, protegida e homogênea, que nega ativamente a realidade do conflito social.
Em síntese, para o olhar marxista, não estivemos vendo “gente maluca”.
Estivemos vendo, sim, a forma necessariamente deformada e irracional que a angústia social assume em uma sociedade onde a experiência de classe é bloqueada, a cultura se transformou em semiformação (semicultura e semi-ignorância) e a política real foi substituída pela encenação de uma guerra cultural.
A reza para pneu é a oração de uma sociedade que desaprendeu a controlar o que produz e se nutre de medo e ranger de dentes.
O fenômeno é muito grave. Multidões rechaçam a convivência social estabelecida, não por clamar por uma revolução de cunho popular e de superação do capitalismo excludente, mas por manter uma “des-ordem” baseada na violência, no autoritarismo e no culto pagão a entidades insólitas como pneus e quartéis.
* Cristóvão Feil é sociólogo.
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.
