Serviçais dos EUA

Assim como Milei, presidente do Paraguai está sendo usado por Trump para prejudicar Lula

Cientista político Paulo Niccoli Ramirez avalia decisão paraguaia de convocar seu embaixador após uma fala de Lula

No audio source provided.
'Escudo das Américas' reúne aliados conservadores e de direita em debate sobre a América Latina
‘Escudo das Américas’ reúne aliados conservadores e de direita em debate sobre a América Latina | Crédito: Reprodução/White House

A decisão do presidente do Paraguai de convocar o embaixador do Brasil em Assunção para entregar uma nota de repúdio pelas declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre a Guerra do Paraguai é parte de um tensionamento influenciado pelo governo dos Estados Unidos.

Essa é a avaliação do cientista político Paulo Niccoli Ramirez, que considera que os presidentes latino-americanos alinhados ao presidente estadunidense Donald Trump agem como “serviçais dos interesses dos EUA”, para prejudicar a campanha de Lula à reeleição.

Ele relacionou a ação paraguaia à postura do presidente da Argentina, Javier Milei, que ofendeu Lula várias vezes durante a convenção do PL de confirmação da candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República.

“Isso [convocação do embaixador] é muito mais uma cortina de fumaça, porque a ordem do Trump é prejudicar ao máximo possível a candidatura do Lula. No ano passado, o Congresso do Paraguai aceitou uma proposta dos EUA de instalação de uma base militar no país. Isso só aumenta as tensões com o Brasil. E o presidente do Paraguai, assim como o Milei, está sendo usado como instrumento político para prejudicar a candidatura do Lula”, avalia Ramirez.

O cientista político ressalta que o Brasil é um foco de resistência na América Latina aos interesses da extrema direita internacional, que tem Trump como seu maior expoente hoje, por isso “o clima hostil ao presidente Lula em nosso continente pode se intensificar”.

“O Brasil está cercado por presidentes conservadores que beiram o fascismo ou são fascistas declarados. No Chile temos o [José Antonio] Kast, filho de nazistas; na Bolívia, também um presidente de extrema direita [Rodrigo Paz]; no Peru, a [Keiko] Fujimori. Por isso é importante a reeleição de Lula, para que os interesses imperialistas sejam barrados na nossa região ou ao menos amenizados”, explica.

A fala de Lula se deu em um contexto em que o presidente brasileiro defendia a modernização das Forças Armadas. “A gente gosta de paz, mas a gente não pode se esquecer de que, um belo dia, o Paraguai resolveu invadir o Brasil. Invadiu Corumbá, ao mesmo tempo invadiu o Uruguai, invadiu a Argentina. E aquela guerra que parecia que era nada durou cinco anos”, disse Lula.

Ramirez relembra que o contexto geopolítico daquele conflito era, de alguma forma, semelhante ao atual, já que a Inglaterra incentivou e tirou proveito do conflito, vendendo armas para todos os envolvidos. Da mesma forma, os interesses dos Estados Unidos não são apenas ideológicos, mas econômicos.

“O que o Trump faz hoje não é muito diferente, ao acirrar as rivalidades aqui na nossa região, entre os países não alinhados com os Estados Unidos, para alimentar a indústria bélica. Provavelmente veremos, em alguns meses, o Trump anunciando venda de caças, armas, para os países aliados aqui na nossa região contra o Brasil. O que sustenta os EUA é a indústria militar”, afirmou.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Gia Matheus Almeida

|

Newsletter