FÉ E LUTA

Em Pernambuco, católicos promovem Caravana da Democracia, desta sexta-feira (30) ao domingo (2), combatendo o discurso de ódio dentro do cristianismo

Ação percorrerá três regiões do estado, defendendo bispo do interior que vem sofrendo ataques por defender trabalhadores

No audio source provided.
Dom Limacêdo é responsável pela Diocese de Afogados da Ingazeira
Dom Limacêdo é responsável pela Diocese de Afogados da Ingazeira | Crédito: Diocese de Afogados da Ingazeira/Divulgação

Começa nesta sexta-feira (31) a Caravana da Democracia, uma mobilização liderada por pastorais, organizações da sociedade civil, movimentos populares e lideranças de diversos setores do catolicismo no estado. Reforçando o legado de Dom Hélder Câmara, que promovia a fé católica de mãos dadas com a luta em defesa dos mais pobres e por qualidade de vida para o povo trabalhador, a caravana tem como pautas centrais o combate à intolerância e ao discurso de ódio, além da defesa da soberania popular. Até o domingo (2), ocorrem atividades culturais e políticas em Recife, Pesqueira, Afogados da Ingazeira e Serra Talhada.

A caravana tem como tema “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça: fé, democracia e esperança no Semiárido”, além de um lema é em defesa de um líder católico recentemente criticado por defender os mais pobres no interior do estado: “Com Dom Limacêdo, na defesa da democracia!”. Uma mobilização que reage aos ataques sofridos pelo bispo que tem sido voz ativa no Sertão pernambucano em temas como a defesa do fim da escala 6×1 e a condenação aos ataques golpistas do 8 de janeiro de 2023 em Brasília

Dom Limacêdo foi nomeado, em 2023, bispo da Diócese de Afogados da Ingazeira, responsável por 17 paróquias espalhadas pelo Sertão do Pajeú. Desde 2025, vem recebendo acusações de “estar usando a igreja para fazer política” ao defender ideias como o fim da escala 6×1 e ser contrário aos movimentos golpistas que aconteceram em Brasília em 8 de janeiro de 2023. O bispo se diz agradecido pela movimentação, que deixa claro que seus caminhos não são solitários dentro da fé católica. 

“Vemos que a luta é mais ampla e não estamos sozinhos nessa caminhada. É como um rio que é alimentado por vários afluentes, como aqui temos o Pajeú, que, nas palavras de Luiz Gonzaga, vai cair no mar”, afirma o Dom Limacêdo, em entrevista ao Brasil de Fato. É um reforço àquilo que acredita ser um dos principais males a ser combatidos pela Igreja, a indiferença. “Ela destrói o ser humano. Mas a solidariedade o renova. O Concílio Vaticano 2º falou justamente disso, que a Igreja precisa estar em diálogo constante com o mundo”, complementa. 

A concentração para a saída da Caravana será na Igreja das Fronteiras, no bairro da Boa Vista, centro do Recife, onde será também realizada uma bênção. O local carrega um simbolismo para os ideais da iniciativa, pois foi morada por muitos anos de Dom Helder Câmara, referência da fé católica na luta pelos direitos humanos. 

É um lembrete de como Pernambuco possui uma tradição católica ligada às lutas do povo nos centros urbanos e nos campos, passando por nomes como os padres Antônio Henrique e Reginaldo Veloso. “Por aqui, carregamos essa tradição que sempre procura unir fé e vida, daquilo que as escrituras sagradas de Mateus falam sobre ajudar a quem tem fome, sede, doença. O que nos alinha é essa alteridade de Cristo, do cuidado com o ser humano. “Procuramos viver esse evangelho de paz e justiça”, afirma o Dom Limacêdo.  

Aproximando o período eleitoral, no qual a vigilância sobre discursos ganha uma nova dimensão – em 2018, quando era auxiliar da Arquidiocese de Olinda e Recife, o bispo chegou a ser notificado pelo TRE após acusações por supostamente trazer “apologia” a candidaturas –, ele encara o momento com naturalidade, impulsionado pela certeza de que cabe a si também trazer reflexões sobre a política e seu impacto na vida cotidiana, principalmente em relação aos mais pobres.

“É um momento muito delicado, mas também muito bonito, de expressar opiniões, avaliar projetos. A democracia, mesmo sendo a melhor forma de fazer política, é muito frágil”, afirma o bispo. Nesse cenário, ele se diz ativo e vigilante para que os caminhos da democracia se tornem mais sólidos, sem medo de cobrar políticos que, depois de eleitos, vão trabalhar em pautas que fogem dos projetos apresentados aos eleitores. “É um período muito precioso que precisamos viver. O voto branco ou nulo, por exemplo, nunca é o caminho, pois damos lugar aos piores candidatos. Temos que votar, exercer nossa cidadania, mesmo que possamos errar”, conclui. 

Depois de sair do Recife, a Caravana da Democracia segue para Pesqueira, no Agreste, onde será realizada uma roda de conversa com a comunidade local e o bispo da Diocese de Pesqueira, Dom José Luiz Ferreira Salles, e das Cáritas Diocesana de Pesqueira e Garanhuns. No mesmo dia, a caravana aporta em Afogados da Ingazeira, onde realiza um grande encontro no sábado (1º), em frente ao Cine Pajeú, a partir das 15h. Pela noite, os participantes seguirão em caminhada até a Catedral do Senhor Bom Jesus dos Remédios. No domingo (2) a programação terá início com a celebração da Santa Missa na Catedral de Afogados da Ingazeira. Em seguida, o grupo seguirá para Serra Talhada, onde serão realizadas visitas ao presídio e ao Abrigo Ana Ribeiro. À noite, haverá celebração eucarística na Concatedral Nossa Senhora da Penha.

Editado por: Vinícius Sobreira

|

Newsletter