Na noite desta quarta-feira (29), a praça do Arsenal, no bairro do Recife, recebeu o festival Brota, com declamações de poesia, batalhas de rima, apresentações artísticas e musicais de prospectos e também de nomes já consolidados na cena hip hop pernambucana, a exemplo da premiada Bione. Organizado pelo movimento social Levante Popular da Juventude, o festival teve como tema a crítica à opressão policial. Mas isso não impediu que a polícia militar realizasse uma abordagem constrangedora a um dos artistas quando este chegava ao local para se apresentar.
O poeta Cleibson Silva, de 21 anos, havia acabado de chegar ao evento. A organização fretou um ônibus para os artistas de outras cidades da região metropolitana chegarem ao festival. “A maioria do grupo foi para um lado, mas eu e alguns amigos ficamos mais distantes e viemos em direção ao palco. Depois a fotógrafa me contou que os policiais já estavam nos ‘visando’, nos seguiram pela rua e quando eu estava já aqui perto do palco, cumprimentando meus amigos, os policiais me puxaram pela bolsa e me colocaram na grade”, relata o jovem, que fora convidado para uma apresentação ao fim do recital de poesias.
Eram cinco policiais militares, segundo o relato. “Eu levantei as mãos e as pessoas ao redor ficaram pedindo calma aos policiais, avisaram que eu era artista. Mas eles não deram ouvidos”, recorda Silva. Segundo o jovem, os policiais perguntaram se o celular era dele, se estava com documentos, de onde ele veio, para onde ele vai, o que estava fazendo no local, se usava alguma droga, se eu conhecia alguém. “Eu disse que tinha um baseado, que era artista e nunca tinha pisado numa delegacia. Eles abriram minha bolsa, pegaram o baseado, ficaram procurando se algo mais e disseram que seria ‘bagulho doido’ se encontrassem. Fiquei calado”, relata o poeta.
Os amigos se mantiveram relativamente próximos e observando a ação policial, devolvendo o constrangimento. Cleibson considera que a presença das pessoas inibe ações mais truculentas. “Já tomei abordagem sozinho, bateram na minha cara e quebraram meus óculos em três partes”, lembra ele.
Uma das organizadoras do festival é a artista visual e educadora popular Líllian Araújo. “A polícia desrespeitou o evento e toda a nossa produção. Marginalizam os artistas negros da periferia com base em estereótipos racistas. E ainda disseram que estavam ‘fazendo a segurança do evento’ — mas como, se estavam hostilizando os próprios artistas?”, questiona Araújo.
Os advogados do evento foram até o grupo de policiais tentar uma conversa. “Pedimos que não tomassem aquele tipo de atitude, que o evento era voltado para a juventude negra e das periferias. Os policiais responderam que estavam agindo para nos proteger — mas estavam oprimindo os próprios participantes do evento”, pontua a organizadora. Em 2025, durante o festival Rec ‘n Play, os artistas do hip hop se queixaram de abordagens e constrangimentos diários.
A organizadora considera que a ação policial e o fato de ela ocorrer justamente num evento para denunciar aquele tipo de conduta, “mostra o tipo de segurança pública que o governo de Pernambuco tem feito. Parece que o poder público não quer que a nossa juventude tenha acesso a cultura, a lazer e a espaços como este. E a tendência é isso piorar com o processo de privatização do centro do Recife. Seremos ainda mais excluídos desse local”, prevê Araújo. No fim de junho, ela mesma foi agredida a socos por policias militares durante um show de São João no centro da cidade.
O Brasil de Fato entrou em contato com a Secretaria de Defesa Social de Pernambuco (SDS), responsável pelas polícias no estado, mas até o momento não tivemos um posicionamento oficial do órgão sobre a atuação da PM na noite desta quarta-feira (29).
