“O regime neofascista hoje instalado nos Estados Unidos reedita, sem qualquer pudor, alguns dos horrores que o fascismo alemão desencadeou na primeira metade do século XX em sua ânsia expansionista”, afirmou o presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, durante o encerramento das sessões da Assembleia Nacional do Poder Popular (ANPP).
Diante do Parlamento cubano, o mandatário, que também é primeiro-secretário do Partido Comunista de Cuba, fez um longo discurso centrado no cenário internacional, no endurecimento da política dos Estados Unidos em relação à ilha e na defesa das reformas econômicas promovidas pelo governo para enfrentar a crise.
Nesse contexto, Díaz-Canel afirmou que o atual cenário internacional é marcado pelo crescimento da “xenofobia, do excepcionalismo nacionalista, da mentira como instrumento de dominação, do culto à personalidade, da proscrição de ideologias adversárias, do atropelo às culturas, da conquista de territórios e da espoliação de seus recursos naturais, bem como da punição coletiva de grandes populações humanas”. Além disso, fez uma ampla análise sobre o avanço da extrema direita, que classificou como “fascista”.
O presidente também dedicou uma parte significativa de sua intervenção à situação na Palestina e declarou: “Não esqueçamos que uma parte do mundo olhou para o outro lado enquanto os horrores do genocídio em Gaza eram desencadeados, e a história registrará a impunidade e a crueldade com que esse povo segue sendo massacrado e sua cultura, exterminada”.
Além disso, comparou a situação vivida pelo povo palestino à enfrentada por Cuba e alertou para os riscos representados pelo enfraquecimento de qualquer resquício do direito internacional.
“É preciso e urgente tomar consciência da gravidade dos fatos: qualquer uma de nossas nações pode se transformar em outra Gaza. Sem que esse genocídio tenha cessado completamente, tenta-se reproduzi-lo contra mais de 9 milhões de cubanos por meio de um bloqueio econômico e de um cerco energético, que levaram o sofrimento do povo cubano a níveis extremos, praticamente incompatíveis com as necessidades básicas da vida moderna.”
O encerramento das sessões ordinárias da ANPP — órgão legislativo unicameral do país — ocorreu em um momento em que Cuba enfrenta uma das maiores agressões dos Estados Unidos desde a tentativa de invasão da Baía dos Porcos.
No fim de janeiro, após o sequestro do presidente Nicolás Maduro, Washington iniciou uma forte ofensiva contra a ilha, impondo um estrangulamento energético — classificado por especialistas em direitos humanos da ONU como uma política de punição coletiva — e aprofundando a aplicação das chamadas “sanções secundárias”, por meio das quais ameaça impor medidas coercitivas unilaterais a entidades que mantêm relações comerciais com o Estado cubano.
Transformações econômicas
“Diante do complexo cenário que descrevi, como persistir na construção do socialismo? Como encontrar os recursos materiais e financeiros para manter as conquistas sociais da Revolução?”, questionou Díaz-Canel diante do Parlamento, após analisar o cenário internacional.
A partir dessa provocação, o presidente voltou a defender a necessidade de avançar nas reformas econômicas promovidas pelo governo e apresentou as transformações em curso como uma resposta necessária à crise enfrentada pelo país.
Desde meados de junho, o governo cubano vem implementando um pacote de 176 medidas que ampliam o setor privado e constituem o mais amplo processo de mudanças econômicas e sociais desde o triunfo da Revolução. As iniciativas transformam praticamente todos os mecanismos do modelo econômico cubano.
Embora tenha afirmado que as medidas foram submetidas a diferentes processos de consulta popular, o presidente reconheceu a existência de “preocupações legítimas e francas” em relação ao crescimento do capital privado e admitiu que se trata de questões às quais “é preciso dedicar a máxima atenção para evitar distorções”.
Nesse sentido, afirmou que “a participação e o controle popular não ficaram no passado, mas constituem uma linha permanente de trabalho e não podem se limitar a um slogan. De imediato, iniciaremos um processo de debate, a partir das estruturas do Partido, com os trabalhadores, para argumentar, esclarecer, mobilizar, contribuir, aperfeiçoar e corrigir o que for necessário ao longo do caminho, em tempo real”.
Ao mesmo tempo, defendeu a implementação das reformas ao afirmar: “A implementação efetiva dessas transformações constitui uma prioridade estratégica para a nação, e todos devemos compreendê-la com sentido de país. Elas envolvem mudanças que não estão isentas de riscos, mas assumir esse desafio é a primeira condição para superá-lo”.
Díaz-Canel também rejeitou a ideia de que as medidas representem uma abertura ao capitalismo ou atendam a exigências de Washington. “As transformações não são adotadas para agradar aos Estados Unidos, não respondem a nenhum tipo de exigência derivada de um limitado processo de conversações que realizamos neste período; são fruto de uma decisão soberana de Cuba”, afirmou.
O presidente apresentou o pacote de reformas como uma “prioridade estratégica para a nação” e sustentou que ele representa uma resposta à profunda crise econômica enfrentada pelo país, agravada nos últimos meses pela asfixia energética e pelo endurecimento das sanções dos Estados Unidos.
Defesa da soberania
Na parte final de seu discurso, Díaz-Canel voltou a concentrar suas críticas na política dos Estados Unidos em relação a Cuba e afirmou que “a Revolução está militarmente ameaçada pelo regime fascista estadunidense”, advertindo que um eventual ataque teria “terríveis e imprevisíveis consequências” para a paz regional.
No mesmo sentido, o presidente sustentou que a América Latina e o Caribe atravessam uma “visível guinada política para a extrema direita” e afirmou que os avanços alcançados nas últimas décadas em matéria de soberania, integração e cooperação regional deram lugar a “manifestações de subordinação” ao imperialismo estadunidense, de submissão aos interesses de uma grande potência e a governos de direita que, segundo suas palavras, “se entregaram ao grande capital transnacional, divorciados das necessidades de seus povos”.
Ao encerrar sua intervenção, afirmou que “o caminho é difícil, a situação é complexa, mas a vontade de vencer é inabalável. Não somos uma nação em disputa nem uma colônia; somos um povo soberano que decidiu seu próprio destino”.
