“Cuidar dos outros é o mais importante na vida humana”. É assim que Maria Izabel Grein, militante do Setor de Saúde do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Paraná, define o legado deixado por sua amiga e companheira de luta, Maria Natividade de Lima, que faleceu na última quarta-feira, 22 de julho.
Dona Maria, como era carinhosamente conhecida, partiu em um encontro da militância sem-terra, no assentamento Contestado, na Lapa (PR), onde vivia há 25 anos. Rodeada por companheiras e companheiros de longa data, até o fim defendia a Agroecologia e a Saúde Popular como pilares da organização do povo e da luta por reforma agrária.
A militante dedicou a vida à luta pelo acesso à terra liberta, pela alimentação saudável e pela saúde do povo. Dizia com firmeza, mesmo nos momentos de adversidade: “continuo na resistência de um projeto de vida do cuidado, defendo a vida e a produção do jeito que meus pais me ensinaram, natural. Foi assim que eu me envolvi nesse projeto de vida e do cuidado não saio”.
Dona Maria virou símbolo da luta por reforma agrária popular. E sua história se confunde com a história do MST. Nasceu em 7 de agosto de 1952, de família camponesa, no sudoeste do Paraná. Naquela terra, seu pai havia lutado na vitoriosa Revolta dos Colonos, em Francisco Beltrão (PR).

Em 1984, passou a se envolver na Pastoral da Terra e no Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Nessa época, o pequeno lote de seus pais ficava insuficiente para repartir entre os 11 filhos e para as novas famílias que iam se formando.
Em 1988, carregando arroz e feijão crioulos, cultivo dos pais, colchonete, cobertor e uma chapa para cozinhar, Dona Maria e sua família foram acampar, junto a um grupo de famílias sem-terra, em Inácio Martins (PR). Numa terra ainda bruta, sem alimento, num dia de geada. As condições de vida eram precárias e o clima, severo. Algumas crianças e adultos morreram de frio, gripe e pneumonia, debaixo da lona preta.
Nesse momento de luta pela vida, Dona Maria integrou o Setor de Saúde do MST: organizava a produção de chás medicinais e também melhores condições de alimentação para o povo. A relação com as plantas medicinais e a saúde popular vinha da avó, parteira e benzedeira. Aquela terra grilada, seis anos depois, se tornou o assentamento José Dias.
Dona Maria se orgulhava em contar que fez parte daquela vitória marcante na história do MST do Paraná. Anos depois, desta vez assentada no Contestado, a militante ajudou a erguer a Unidade Básica de Saúde (UBS) Chica Pelega, uma das maiores conquistas coletivas da Reforma Agrária Popular, que tem a energia, as mãos e as batalhas de Dona Maria.
Dona Maria era militante da agroecologia. No lote, cultivava uma diversidade de alimentos, plantas medicinais e a água boa, que defendia como remédios. Criticava o ciclo de envenenamento do agronegócio e da indústria farmacêutica.
“Ingestão de comida envenenada e de água contaminada levam o povo a ingerir medicamentos alopáticos, que também envenenam. Tratam só dos sintomas e não vão na causa, por isso defendemos a farmácia viva, o respeito, diálogo e solidariedade, não para só produzir lucro”, dizia.
“É uma vida dedicada ao cuidado humano. Há beleza maior que isso?”, afirma Roberto Baggio, integrante da coordenação nacional do MST. No velório de Dona Maria, no Casarão do assentamento, também relatou: “Todos nós que estamos aqui, em algum momento ela cuidou de nós. Todos. E muitos que não estão aqui também foram cuidados por ela. Muitos. E talvez hoje a gente não consiga entender esse momento.”
Dona Maria fez parte do coletivo de Saúde Popular na Vigília Lula Livre, entre 2018 e 2019. Ela estava no primeiro grupo de militantes do MST que acampou nas ruas próximas à Polícia Federal. Também participou da Brigada de Solidariedade em Rio Bonito do Iguaçu, após a passagem de três tornados que deixaram 7 mortos, mais de 800 pessoas feridas e milhares de desalojadas.
Dona Maria se somou ao atendimento dos cerca de 1.000 militantes Sem Terra que passaram pela Brigada, durante os 43 dias de trabalho coletivo para reconstruir parte do que havia sido perdido.

Nos últimos anos de vida, Maria havia retomado o sonho de estudar. Dadas as condições de vida difíceis na infância, estudou até a terceira série, mas sempre defendia o acesso do povo ao conhecimento. Neste ano, formou-se no Curso de Extensão em Práticas Integrativas de Saúde (PICS) com Ênfase em Fitoterapia, entre 2024 e 2025. A formatura foi realizada no casarão histórico do assentamento Contestado.
Integrante do setor de Educação do MST, Izabel Grein conta que a maior alegria de Dona Maria era o estudo dos filhos, sempre na perspectiva do cuidado. Izabel e Dona Maria foram juntas para Rio Bonito do Iguaçu, nas últimas semanas, para um curso das brigadas populares no atendimento a atingidos por catástrofes. “Veja aí, ela não se contentou com aquele outro curso”, diz. Maria também estava fazendo o curso de Agentes Educadores e Educadoras Populares de Saúde (AgPopSUS), de defesa do sistema de saúde pública.
“O encerramento da vida dela é misterioso, porque o testemunho dela em todas as falas era de uma mulher realizada humanamente, e fez menção à origem, lá em Inácio Martins. Realizada por tudo o que coletivamente foi construído. Por isso que é misterioso”, descreve Baggio.
“E estava junto com ela quem? Um grande grupo de militantes, dirigentes, que estão juntos há 40 anos. Me veio muito a imagem para mim da ceia. Ao redor de Jesus também tinha um conjunto de discípulos. Testemunhando um legado. Um legado”, conclui.

