Bota Fé no Voto

‘História recente mostra uso da mentira sistemática, elaborada e financiada’, diz pesquisadora de religião e política em Brasília

Coalizão de organizações ecumênicas vai para ajudar fiés a reconhecer conteúdos enganosos durante período eleitoral

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Representantes de organizações ecumênicas e da sociedade civil lançaram a campanha Boto Fé no Voto, que incentiva o voto consciente e o enfrentamento à desinformação entre fiéis
Representantes de organizações ecumênicas e da sociedade civil lançaram a campanha Boto Fé no Voto, que incentiva o voto consciente e o enfrentamento à desinformação entre fiéis | Crédito: Flávia Quirino/Brasil de Fato

Uma coalizão de organizações ecumênicas e da sociedade civil lançou nesta quinta-feira (31), em Brasília, a campanha Bota Fé no Voto. A iniciativa busca combater a desinformação e a disseminação de notícias falsas nas comunidades religiosas, além de incentivar a participação cidadã e a defesa da democracia durante o processo eleitoral. O lançamento ocorreu na Catedral Anglicana de Brasília e reuniu pesquisadores, lideranças religiosas e representantes de movimentos sociais.

A campanha é articulada pela Coordenadoria Ecumênica de Serviço (Cese), pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic), pelo Coletivo Bereia, Cáritas Brasileira, Fé no Clima/ISER, Diaconia, Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Coletivo Novas Narrativas e Misereor.

Durante o evento, especialistas discutiram os impactos da desinformação sobre as comunidades de fé e defenderam que o enfrentamento às notícias falsas passa pela valorização da democracia, pela produção de informações confiáveis e pela ocupação dos espaços digitais com novas narrativas.

Compromisso com a verdade

A jornalista, pesquisadora e editora-geral do Coletivo Bereia, Magali Cunha, diferenciou a mentira presente nas relações humanas do uso sistemático da desinformação como instrumento político. Para ela, o problema deixa de ser individual quando passa a integrar estratégias organizadas para conquistar apoio, atacar adversários e influenciar processos eleitorais.

“Quando a mentira vira uma estratégia para convencer, para captar apoio, para trapacear, para destruir a reputação de alguém, para destruir uma pessoa considerada inimiga, aí a gente tem um grande problema. Nós estamos testemunhando na nossa história recente a mentira se tornar algo sistemático, estratégia pensada, elaborada e financiada”, afirmou.

Segundo a pesquisadora, a campanha nasce justamente para se contrapor a esse modelo de atuação política e reafirmar o compromisso das comunidades de fé com a verdade.

“Uma campanha como essa significa muito. Significa dizer que nós escolhemos a verdade. Nós não escolhemos a mentira como forma sistemática de agir coletivamente”, declarou.

Magali também chamou atenção para o fato de que comunidades religiosas estão entre os principais alvos da desinformação, justamente por serem construídas sobre relações de confiança e pertencimento. Na avaliação dela, quem produz notícias falsas se aproveita dessa característica para ampliar o alcance das mensagens.

“As pessoas de fé são pessoas boas e, porque são boas, acreditam. Quem trabalha com a mentira sistemática sabe disso e constrói mentiras especialmente para serem disseminadas nas comunidades de fé”, explicou.

Ela adiantou ainda que uma das frentes da campanha será identificar e enfrentar as principais fake news que circulam entre grupos religiosos, produzindo materiais informativos para ajudar fiéis a reconhecer conteúdos enganosos.

Abertura para o diálogo

Debate reuniu lideranças religiosas e representantes da sociedade civil para discutir os impactos da desinformação no processo eleitoral
Debate reuniu lideranças religiosas e representantes da sociedade civil para discutir os impactos da desinformação no processo eleitoral | Crédito: Flávia Quirino/Brasil de Fato

A coordenadora da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, Nilza Valéria, apresentou resultados de pesquisas realizadas com grupos evangélicos sobre temas como vacinação e saúde pública. Segundo ela, os dados indicam que, apesar da influência da desinformação, ainda existem possibilidades concretas de diálogo.

Ao comentar uma pesquisa que identificou resistência à vacina contra a covid-19, a jornalista destacou que parte das pessoas que demonstravam desconfiança acabou se vacinando, revelando que posições aparentemente consolidadas podem ser revistas.

“O que esse dado me traz é que nada está hermeticamente fechado. Eu tenho alguém que é contra a vacina, mas que tomou vacina. Eu tenho uma avenida aberta de diálogo com essas pessoas”, pontuou.

Para Nilza, esse cenário reforça a importância de campanhas que fortaleçam a confiança na informação e nas instituições democráticas. “É uma campanha em que a gente bota fé no voto porque a gente bota fé na informação, porque a gente bota fé na democracia e na cidadania”, afirmou.

Ela defendeu ainda que o diálogo deve partir da compreensão das referências e convicções de quem recebe as mensagens, em vez de reforçar divisões.

“A gente precisa buscar essa referência não a partir da gente, mas a partir do outro. Eu tenho que achar a brecha na convicção do outro porque sou eu que quero construir cidadania”, concluiu.

Disputar narrativas nas redes sociais

Encontro abordou o papel das comunidades de fé na promoção da democracia, da cidadania e da participação política
Encontro abordou o papel das comunidades de fé na promoção da democracia, da cidadania e da participação política | Crédito: Flávia Quirino/Brasil de Fato

Representando o Coletivo Novas Redomas, a jornalista e pastora Luiza Petersen abordou as transformações provocadas pelas plataformas digitais na circulação de informações religiosas e políticas. Para ela, influenciadores passaram a exercer um papel semelhante ao de lideranças religiosas tradicionais, alcançando milhões de pessoas e moldando opiniões por meio de conteúdos incorporados ao cotidiano.

As plataformas não são neutras. Elas têm interesses econômicos, interesses políticos. Os algoritmos são programados por milionários e bilionários com interesses muito específicos, especialmente na política”, afirmou.

Na avaliação da comunicadora, enfrentar a desinformação exige mais do que corrigir conteúdos falsos. É preciso criar vínculos, fortalecer comunidades e disputar os espaços digitais com mensagens capazes de gerar identificação.

“Para mudar esse jogo, a gente não precisa só falar a verdade; a gente precisa se conectar, entrar na comunidade e promover pertencimento”, defendeu.

Luiza argumentou que igrejas, pastorais e organizações populares já possuem experiência na construção de redes de apoio e podem transformar essa capacidade em uma estratégia para fortalecer valores democráticos. Segundo ela, também é necessário recuperar a esperança diante do avanço do discurso de ódio e do desencanto político.

“Botar fé no voto é um convite a nos reencantar com a possibilidade desse mundo de justiça, paz e alegria para todas as pessoas”, concluiu.

Ao longo do processo eleitoral, a campanha vai produzir conteúdos para enfrentar as principais notícias falsas que circulam entre comunidades religiosas, além de promover ações de mobilização e formação voltadas ao fortalecimento da democracia e do voto consciente.

Fake news exploram o medo

Um dos eixos da campanha Bota Fé no Voto será o enfrentamento das principais narrativas falsas que circulam entre comunidades religiosas durante os períodos eleitorais. Segundo a jornalista e pesquisadora Magali Cunha, editora-geral do Coletivo Bereia, o monitoramento realizado pela organização ao longo de mais de seis anos permitiu identificar os temas que mais mobilizam a desinformação e que serão alvo de materiais produzidos pela iniciativa.

Entre eles está a chamada “ideologia de gênero”, expressão que, segundo Magali, distorce debates sobre gênero e sexualidade para provocar medo e rejeição entre fiéis. Outro tema recorrente é a chamada “cristofobia”, narrativa que sustenta a ideia de que cristãos seriam perseguidos institucionalmente no Brasil ou que igrejas poderiam ser fechadas por determinados governos. A pesquisadora destacou que, embora existam casos de intolerância religiosa, especialmente contra religiões de matriz africana, não há perseguição sistemática aos cristãos no país.

Questões econômicas também aparecem entre os principais alvos da desinformação. De acordo com Magali, conteúdos alarmistas sobre inflação, preços de alimentos e uma suposta quebra do país buscam explorar o medo da população para influenciar escolhas políticas.

Além dessas narrativas já conhecidas, a pesquisadora alertou para novos temas que devem ganhar força nas eleições de 2026. Entre eles estão discursos que defendem o enfraquecimento da educação pública e o homeschooling como alternativa às escolas, a associação entre segurança pública e uma suposta ameaça de “narcoterrorismo”, a retomada de ataques à confiabilidade das urnas eletrônicas e boatos sobre uma possível intervenção dos Estados Unidos no Brasil em caso de reeleição do atual governo.

Para Magali, todas essas narrativas têm um elemento em comum: utilizam o medo para influenciar o comportamento eleitoral. “As pessoas têm que ter liberdade para escolher em nome da verdade, por um projeto de país, e não por medo”, afirmou.


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Editado por: Clivia Mesquita

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