A trajetória de um jornalista que enfrentou a ditadura militar e defendeu a democracia é o ponto de partida de um livro que também revela uma jornada pessoal de reencontro entre pai e filho. A obra resgata a vida e o legado de Paulo Branco, que passou pela Tribuna da Imprensa, Última Hora, Bandeirantes, TVE, dentre outros veículos, e é contada pelos olhos de seu filho.
Branco foi preso durante a ditadura, chegou a se candidatar a deputado estadual no Rio de Janeiro e trabalhou nos governos dos presidentes Tancredo Neves e Itamar Franco. De uma família libanesa, também foi um forte defensor da causa árabe, pautando a questão da Palestina. Chegou a se encontrar com os líderes Yasser Arafat e Muammar Kadafi.
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O livro Em Confidência: as memórias de um jornalista de coragem será lançado nesta sexta-feira (31), a partir das 17h, na Casa de Mystérios, na Rua Pedro Ernesto nº 21, Gamboa, centro do Rio. Após a sessão de autógrafos haverá também uma festa para celebrar. O livro está à venda na Amazon e pode ser acessado aqui.
Nesta entrevista ao Brasil de Fato, o autor fala sobre o processo de pesquisa que deu origem ao livro, reflete sobre o papel do jornalismo em tempos de autoritarismo e analisa os desafios da profissão na era das redes sociais. A conversa também aborda temas como a formação política de diferentes gerações e os rumos do Brasil diante do atual cenário nacional e internacional.
Brasil de Fato – O que é que te inspirou a fazer o livro?
Paulo Branco Filho – A história começa há uns 15 anos, quando sinto a necessidade de conhecer a história dos meus antepassados, sobretudo do meu pai, que morreu em 2004.
Entender e conhecer o meu pai para me conhecer enquanto indivíduo, mas também conhecer a história do nosso povo e país. Pelo fato do meu pai ter sido jornalista, político, ser sempre frequentado por eles, naturalmente tive esse interesse. E com o passar do tempo, essa coisa de me conhecer fazendo psicanálise, entendendo a história do meu pai e da minha família, comecei a ler muito. Chegou um determinado momento que, inclusive, está no livro, você abriu as portas no Fazendo Media para eu escrever e foi muito importante. Ali pude viver brevemente a rotina de um jornalista quando cobrimos o Fórum Social Mundial em Porto Alegre.
Então o livro vem depois como uma forma de me entender e me reconectar com meu pai, já que ele morre numa fase muito complexa, no final da minha adolescência. Isso, infelizmente, não aconteceu com ele em vida, apenas subjetivamente depois.
O livro conta a trajetória profissional do teu pai, tanto no campo jornalístico quanto no campo político, né?
Meu pai foi, de fato, um jornalista. Acho que enquanto candidato a deputado, na década de 1970 e depois, quando trabalhou no governo Tancredo Neves e foi assessor do Francisco Dornelles, vai junto à sua verve de jornalista. Porque era luta contra a ditadura, a censura e no caso do governo de transição foi pelo estabelecimento da democracia. Sinto que era compromisso e preocupação dele para que houvesse uma estabilidade no país. Depois trabalhou no governo Itamar Franco e consegui resgatar algumas cartas suas enfatizando seu compromisso com o estabelecimento da democracia. Quando o Fernando Collor caiu, estimava-se que o Itamar também não se sustentaria, então ninguém queria assumir cargo de um governo que poderia já nascer morto, havia um temor muito grande.
Meu pai foi criado solto em Vassouras (RJ), seu pai era um médico muito respeitado que trabalhava muito e sua mãe era uma figura complexa. Acredito que tenha sido um mau estudante, mas sempre gostou muito de ler. E Vassouras é uma cidade que tem uma história política, o pai do Carlos Lacerda é uma figura de lá. E foi uma época de efervescência, porque a partir dos anos 1930, quando Getúlio Vargas assumiu o poder, o Brasil dá uma decolada. Era uma sociedade que respirava política, e no período do Juscelino Kubitschek teve muito fomento à cultura e ao cinema. O país estava avançando. O próprio João Goulart, com as reformas de base. E o meu pai cresce com isso, né?
Em 1968, já como estagiário na Tribuna da Imprensa, combatia a ditadura em Vassouras e foi preso por denunciar um político local e a ditadura. A Tribuna foi uma grande escola de jornalismo, meu pai teve muito contato com o Hélio Fernandes. Ficou praticamente 30 anos naquele jornal, até sair para a Bandeirantes. Sempre fez rádio em paralelo, teve uma breve passagem pela Última Hora e outros veículos.

Fala um pouco mais sobre essa questão da combatividade contra a ditadura e a importância do jornalista num regime autoritário.
O que define essas figuras é a palavra coragem. Você está vivendo uma ditadura que está colocando as pessoas arbitrariamente na cadeia, muita gente sumindo, tortura, e a figura se predispõe a fazer oposição a isso. A forma como o Hélio Fernandes enfrentou e afrontou a ditadura, por exemplo, é um troço impressionante. Então era importante fazer o registro do livro, porque quando a gente fala de ditadura no Brasil, normalmente são as grandes figuras que foram assassinadas, se exilaram, a luta armada, mas eu queria também falar de pessoas que enfrentaram com convicções e posições bem enraizadas e se mantiveram no território nacional.
Eram presos, saiam da prisão, eram processados e voltavam para a atuação jornalística. Essa é uma das marcas do livro. Eles tinham que ter uma habilidade para ter informação, a maneira como expressar isso, como se organizar ao receber um processo. O Hélio Fernandes foi desterrado três vezes, preso acho que doze, respondeu a mais de cem processos. Você manter a convicção, ter a coragem de enfrentar e dar a sorte de continuar vivo não é fácil.
Como você olha para o jornalismo sendo feito hoje, com essa transição geracional e tecnológica?
O advento da tecnologia cria uma impressão de que há uma democratização da informação, o que não é verdade porque todas essas plataformas e redes sociais têm dono e um norte. E elas se fortalecem com o dinheiro do grande capital, com a propaganda. A geração pós 1930, quando se começa a construir uma ideia de nação, recebe um estímulo cultural muito forte. É um país que avança, cresce e essa geração se preparou muito.
Hoje sofremos um pouco com o excesso de informação e tecnologia. É a guerra híbrida disputando as mentes, e isso fatalmente está atrapalhando os estudantes a lerem mais, a assistirem mais filmes. A velocidade da informação mudou muito. E isso é muito ruim para a gente fazer uma elaboração subjetiva, para se pensar nas coisas de forma mais ampla. Mas, apesar disso, sou otimista. Vamos nos reinventando e disputando as coisas.
Um foco no livro é a trajetória da sua família chegando do Líbano, e seu pai militou pela causa palestina a ponto de entrevistar o Yasser Arafat. Como é isso?
Isso vai muito da sensibilidade da pessoa, e ele era muito informado, um estudioso do tema. Pode ser que tenha influído a vinda dos avós para cá no interesse dele pela causa palestina e da libertação dos países árabes, mas acho que vai muito mais pela sensibilidade e humanismo, seu estudo, além da coragem. Porque você se posicionar contra o sionismo, a favor da Palestina, tem um custo alto.
Você vê aí o Breno Altman, do Opera Mundi, que é judeu, sofre perseguição e volta e meia alguma ameaça. É um tema muito delicado. Meu pai começa a escrever muito sobre a questão da Palestina na década de 1980. Pelos livros que tinha em casa, você via que era uma pessoa esmiuçando tudo naquela região. E ao se aproximar de algumas figuras, é convidado para ir ao Líbano, onde a OLP estava, mesmo sem falar fluentemente as línguas estrangeiras. Ficou do lado do Yasser Arafat, que devia ser uma figura super carismática, e eles tiveram uma interação.
Meu pai também esteve na Líbia, em 1984, com o Muammar Kadhafi, a convite do aniversário da revolução. Mas tive o cuidado de deixar três versões. Isso é uma coisa curiosa quando você vai fazer uma biografia, porque às vezes surgem umas histórias e as pessoas vão alinhando com as suas fantasias. Mas que a relação dele com o mundo árabe se dá por uma necessidade de combater o imperialismo.
A sua formação não é acadêmica nem é da área, embora escreva bem. Como é que você vê isso? Escrever um livro não é uma coisa fácil…
O fato de ter sido filho de jornalista tinha uma pressão talvez no meu inconsciente para que eu seguisse aquela linha, mas sempre quis ter uma história própria. Nossa geração cresce com o neoliberalismo, é uma outra história, praticamente antagônica. Somos fruto de 21 anos de ditadura, e depois vêm os governos Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, uma invasão do repertório cultural norte-americano misturado a ideias contra o Estado e o próprio povo. Um empobrecimento intelectual absurdo, um país que está sem direção e sem identidade. Somos fruto disso também.
A era Lula é o resgate da crença no Brasil e nos brasileiros. Há profunda inclusão, os debates políticos voltam com força, a cultura se fortalece. Na oposição ao pai, fui lutar e praticar artes marciais, porque sempre gostei de me desafiar.
Meu pai morre em 2004 e no ano seguinte fui campeão sul-americano, o maior título que conquistei, além do brasileiro. Entrar em contato com aquilo era uma coisa muito dolorosa, porque meu pai morreu num período em que estávamos começando a nos reconectar melhor. Depois comecei a trabalhar no comércio de carteira assinada, treinando muito, competindo, me preparando e organizando financeiramente. Arrumei um patrocínio através do esporte, comecei a fazer faculdade, até que subir no ringue já não estava mais resolvendo o meu caos emocional. Dentre as contradições que me incomodavam, me percebia como um ignorante em várias coisas, uma pessoa limitada do ponto de vista intelectual. Então fui entender um pouco mais sobre o que eu estava fazendo no mundo, por que o mundo é assim, como a sociedade se organiza, porque sempre fui muito sensível.
Sentia as contradições sociais na rua, meu pai tinha uma maneira muito sutil de estimular essas coisas. Nisso acabei tendo uma experiência jornalística, postava textos políticos com certa repercussão e agora escrevi o livro.
A gente falou muito sobre antiimperialismo, o que está em jogo agora com as eleições e a atual conjuntura?
Estamos vivendo algo similar ao golpe contra o Jango. É um momento decisivo para o Brasil. E essa urgência se dá para uma lógica complexa e que vai demandar uma certa sabedoria e flexibilidade. A partir da democratização do Brasil, o país viveu um processo de desindustrialização profundo. Apesar do governo Lula flertar com uma Petrobras e bancos públicos fortes, e agora com a Nova Indústria Brasil, ainda não conseguimos trazer esse debate para o centro da política. E isso é de suma importância, porque desde o golpe da Dilma [Rousseff], eles combateram toda a estrutura de país que foi construída com Getúlio Vargas.
Foram em cima dos direitos do trabalho, vendemos a Eletrobras, refinarias e poços de petróleo, etc. O debate público passou a ser pautado pelas partes. A industrialização e a apropriação das riquezas para transformá-las em benefício para o povo ficou em segundo plano. Mas acredito que as pessoas passaram a perceber os seus excessos e as suas contradições, e a gente tem uma oportunidade de se reencontrar com esse aspecto do debate.
Até porque, sem desenvolvimento, não há bons empregos, bons salários e ninguém vai aguentar essa loucura dos trabalhos informais, com horas ilimitadas e péssimas remunerações.
Temos poucas figuras que fazem isso com muita qualificação, como o Zé Dirceu, que é uma figura altamente preparada e tem uma leitura muito sofisticada de Brasil. A outra é o Elias Jabbour, que o tempo todo pauta isso. Temos que focar no comum para a maioria, que é a necessidade de um Estado se apropriar das riquezas nacionais e transformá-las em benefício para o seu povo. A criminalização da política ganhou muita força, até hoje a gente não se recuperou disso.
O discurso liberal está latente no meio da juventude, que tem recebido muita informação dessas plataformas na internet. Estamos amadurecendo nesse lugar, e esse tem que ser o norte do debate no campo da esquerda. O cenário atual é muito parecido com o do golpe de 1964, quando os Estados Unidos estavam tentando repactuar força no continente. Eles precisam de países no seu entorno servindo ao projeto deles, não ao nosso. Precisamos ajudar o Lula, porque é a figura para enfrentar isso.
Eleger um bom Congresso, ver onde é que a gente vai botar essa energia para ir para essa disputa. Precisamos refletir sobre a forma como a gente pensa a política. A nossa geração tem uma cultura muito maniqueísta de lidar com as coisas. Se a figura faz alguma coisa na contramão daquilo que estimo, a gente descarta. E isso dificulta muito a construção de uma política, mas nós vamos conseguir.

