O psicanalista e o teatrólogo se encontram no esperado solo “Todas as Minhas Mortes”, de Júlio Conte. Mas o consagrado diretor de “Bailei na Curva”, um dos maiores sucessos do teatro gaúcho, convidou seu amigo Marcelo Restori para dirigi-lo. “O encontro com o Marcelo foi essencial. Ele começou no teatro comigo e agora eu aprendo com ele. Formamos uma dupla que se complementa e se opõe. O corpo e a palavra em choque”, conta.
“Todas as Minhas Mortes” apresenta um monólogo dramático que explora as complexas relações entre pai, mãe e filho sob a ótica do luto e da finitude. O protagonista reflete sobre a paralisia cerebral de seu filho, Pedro, entrelaçando essa experiência com memórias de seus próprios genitores e referências a clássicos como Hamlet e Édipo. “Assim como, Sísifo que também aparece na dupla perspectiva da repetição e da criação, do castigo e da felicidade”, explica.
Através de uma encenação metalinguística, o ator e o diretor discutem a dor da existência e a inevitabilidade da morte, utilizando a imagem simbólica de uma pedra para representar o peso do destino. A narrativa transita entre o silêncio e o som, revelando como a vida se transforma em uma sequência de ausências e memórias fragmentadas. O palco transformado em divã para investigar a condição humana e a busca por sentido diante do sofrimento e da perda.

A peça terá única apresentação na próxima quarta-feira (5), às 20h, no Teatro Simões Lopes Neto do Multipalco Eva Sopher (Rua Riachuelo, 1089 Centro de Porto Alegre).
Os ingressos custam entre R$ 30 e R$ 120 (dependendo do setor). Venda online: aqui! A bilheteria no local funciona de terça a domingo das 16h às 20h.
Confira a entrevista:
Brasil de Fato: O título da sua obra sugere uma multiplicidade de fins. Na primeira cena, vemos o ator alternar entre as idades de velho, adulto e criança apenas trocando de casaco. Para você, a morte é um evento único ou uma sucessão de perdas de versões de si mesmo ao longo da vida?
Júlio Conte: A morte, que todos temem, é o que estrutura a vida. A finitude em diálogo com o infinito. Há uma passagem em Hamlet que ele diz que todos nós devemos uma morte à natureza. O que implica dizer que a morte nasce com a vida, são dois lados da mesma moeda. Um longo caminho de tensão entre elas, e o poder criativo deste conflito, as ferramentas que usamos para se manter vida.
“Todas as Minhas Mortes” nos remete a essência humana, ao primeiro indício de humanidade que é enterrar os seus. Cemitérios devem ter sido a primeira criação humana ao lado do fogo.
O luto é o trabalho mais importante e constituinte da humanidade. A elaboração determina a aceitação da perda, a sombra do objeto que cai sobre o sujeito, e a introjeção de virtudes, princípio, ideias daquele que se perdeu. No fundo, somos feitos da mesma matéria dos nossos mortos. A identidade se forma como um precipitado das perdas, nossos mortos e nossas mortes, que carregamos na vida e que nos faz viver e seguir.
Você descreve o pai como um “cristal lapidado pelo olhar dos filhos” e o amor/ódio como a “matéria bruta, granito a ser esculpido”. Como o falecimento do seu pai alterou a forma como você enxerga o seu próprio reflexo nesse “prisma”?
O prisma se refere a interface de decomposição de luz branca no espectro de cores que também representa espectro de Hamlet, o pai que cobra do filho a vingança.
A tensão entre pai e filho é constante, essencialmente porque há uma dupla identificação: ao mesmo tempo que é uma função, função pai, é um homem, um humano. Com isso se estabelece uma dupla leitura, pelo viés a verticalidade e da horizontalidade, entre superior e inferior, e entre iguais. Simetria e assimetria da relação.
Importante, no entanto, destacar que não se trata de uma autobiografia, mas sim de uma autoficção. Isso é muito importante, pois narrativa não se restringe aos fatos reais, mas sim uma realidade particular, específica e singular e, justamente por isso, universal. A autobiografia restringe a experiência particular e fechada, a autoficção se abre como um modelo aberto para as possibilidades.

A figura de seu filho, Pedro, é central e representada pela imagem da “pedra”. Você menciona que “no silêncio da pedra” havia sussurros e palavras cifradas. Como foi o processo de transformar a “inércia inorgânica” da paralisia cerebral do Pedro em uma narrativa teatral potente?
O Pedro é uma pessoa real, meu filho, ao mesmo tempo é um filho em sua dimensão desconhecida, como qualquer filho que precisa ser conhecido e reconhecido. Muita gente estranha o fato de que não sabemos quem realmente são essas pessoas que chamamos de filhos. Vem de nós, mas não são nós, são estranhos no trajeto de criação do familiar.
O Pedro na peça é a sombra de um sonho que tento sonhar no palco.
Não é apenas o meu filho, é o filho de todos que são pais, em graus variados de particularidades.
Existe um momento de espelhamento profundo quando, aos 70 anos, um ortopedista revela que seus tropeços são sequelas de uma paralisia cerebral sofrida no nascimento. Como essa revelação tardia mudou sua percepção sobre a “luta contra o mar de angústias” que você compartilhou, inconscientemente, com seu filho?
O tempo do inconsciente não é o tempo cronológico. No entanto, gostaria de saber da minha sequela há mais tempo. Eu teria sido uma pessoa melhor e seria menos cruel comigo. A sequela sempre esteve presente e este é um dos temas principais da peça. Saber foi uma maneira da sequela emocional se relacionar com a física. Quando isso acontece sempre é um alívio.
Você afirma na peça que “enquanto a medicina trabalha para mitigar o sofrimento, o teatro nos ensina a sofrer melhor”. A escrita e a encenação de “Todas as Minhas Mortes” foram o seu método de “sofrer melhor” o luto pelo Pedro e pelos seus pais?
Samuel Beckett escreveu: erre, erre mais, erre melhor”. A fala é uma paráfrase de Beckett. Ao aprender a sofrer a vida toma sentido. A grande dor é aquela que não se sente e por isso nada se pode fazer para lidar com ela. Uma pessoa pode sentir uma dor, mas não sofrer a dor. Neste caso sofrer implica num crescimento emocional.
O luto, como falei acima, é o elemento estruturante da humanidade.

Como foi o processo de criação de “Todas as Minhas Mortes”?
O encontro com o Marcelo Restori foi essencial. Ele começou no teatro comigo e agora eu aprendo com ele. Formamos uma dupla que se complementa e se opõe. O corpo e a palavra em choque. Eu escrevia, ele cortava, eu improvisava e ele potencializada. Eu com as palavras, Marcelo com o teatro físico, o corpo e os silêncios em cena.
Começamos a trabalhar um ano atrás. No meio do caminho surgiu “A Hora de Erico”, que ficou como um ramo desta peça e “Todas As Mortes” como uma derivação de “A Hora de Erico”.
Quando voltamos para “Todas as Minhas Mortes”, depois de “A Hora de Erico”, percebemos que estávamos fazendo um trabalho novo, original, nem teatro físico, nem dramaturgia tradicional, mas sim teatro físico com dramaturgia, deste modo, nos renovamos.
Por que você utilizou referências a clássicos como Hamlet e Édipo?
Os mitos estão claramente em todos os trabalhos do Marcelo e implícitos em alguns meus. Não se pode pensar sem os mitos, são modelos mentais que a humanidade precisou criar para se inventar.
Hamlet e Édipo são presenças no nosso cotidiano, assim Sísifo que também aparece na dupla perspectiva da repetição e da criação, do castigo e da felicidade. Sísifo feliz, como afirma Alberto Camus.
Você acredita que “a arte salva”?
Sim, se tem algo que nos salva é a arte, a poesia, a nossa essência é poética na medida que transcende a si mesmo, a nossa condição mais humana para enfrentar o abismo que sempre nos ronda.
