Juventude periférica

Produzido por jovens em medidas socioeducativas, podcast ‘ZO em Foco’ vira ferramenta de cidadania

Iniciativa do Centro Social Santo Dias aproxima jovens em conflito com a lei do saber e de novas perspectivas de vida

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As mãos de três jovens seguram um panfleto do podcast 'ZO em Foco'
Adolescentes produzem podcast na zona oeste de São Paulo | Crédito: Divulgação

Um endereço residencial na região do Rio Pequeno, na zona oeste de São Paulo, é tomado por um grupo de cerca de dez adolescentes, a imensa maioria formada por meninos com idades entre 12 e 17 anos. Há uma agitação no ar, uma mistura de ansiedade e energia típica da juventude. Eles se preparam para gravar mais um episódio do podcast ZO em Foco.

Na terceira gravação, um imprevisto muda a dinâmica do grupo. O adolescente que estava à frente da produção e faria a condução do roteiro não pôde comparecer. Com o tempo apertado para ensaiar com um novo apresentador, houve um momento de hesitação.

Foi então que o inesperado aconteceu: uma das poucas meninas do grupo demonstrou proatividade. Sem receios, ela assumiu a frente da situação, repassou o roteiro, escolheu rapidamente as perguntas e partiu para a entrevista. Não satisfeita em apenas cumprir o roteiro, formulou questionamentos próprios e, após a gravação, demonstrou um interesse genuíno em, quem sabe, seguir o caminho do jornalismo no futuro.

A cena, que poderia ser um simples projeto escolar, carrega um peso muito maior pelo contexto em que ocorre. O podcast “ZO em Foco” não é uma atividade extracurricular. Trata-se de um projeto desenvolvido como parte do cumprimento de medidas socioeducativas em meio aberto, especificamente Prestação de Serviço à Comunidade (PSC) e Liberdade Assistida (LA) por adolescentes infratores.

A iniciativa ganha vida no Centro Social Santo Dias, uma organização da sociedade civil que atua há 38 anos no bairro do Rio Pequeno, zona oeste de São Paulo.

Geralmente, o cumprimento de horas de prestação de serviços à comunidade ocorre pelo seu viés estritamente punitivo, limitando o potencial de transformação desses jovens. Danielle Helena Alves Luscri, psicóloga e gerente do serviço, explica que os adolescentes costumavam ser enviados pelo sistema de justiça para escolas ou postos de saúde da região para cumprir suas horas de forma puramente braçal e mecânica.

“Os outros espaços não tinham caráter pedagógico. Mandavam o menino testar caneta, tirar prato da mesa, essas coisas”, relata Luscri. Incomodados com a falta de sentido dessa rotina, a equipe decidiu inovar e criou um projeto de PSC coletivo, voltado para a comunicação dentro da própria instituição.

Como é a produção do podcast

Quem encabeça essa linha de frente com os adolescentes é o professor e oficineiro Fernando Araújo Konesuk. Ele explica que a rotina de produção do podcast subverte a lógica tradicional que, historicamente, afasta esses mesmos jovens das salas de aula.

No “ZO em Foco”, o trabalho é horizontal. Os jovens discutem em grupo quem serão os convidados e os motivos para chamá-los. Em seguida, realizam a apuração da biografia do entrevistado para formular as perguntas com embasamento.

“Se a gente for falar de educação, são em grande parte meninos que odeiam a escola. Toda vez que a gente fala em ir para a escola, eles dizem: ‘Não, pelo amor de Deus, não'”, relata Konesuk. “Aqui a gente consegue ofertar um acesso e uma construção de conhecimento que dialoga mais com os interesses deles. A gente consegue fazer a medida socioeducativa ser cumprida de uma forma que eles curtam fazer.”

O professor atua como um mediador. A elaboração do roteiro exige leitura e debate constante, competências muitas vezes negadas a esses jovens por um sistema de ensino público sucateado. Ao pesquisar a vida do entrevistado e estruturar o programa, eles vão além do cumprimento de uma ordem judicial e exercem a cidadania de forma ativa.

Afeto como ferramenta

Para a equipe da Santo Dias, o motivo de esses adolescentes cumprirem medidas antecede o ato infracional. Ana Paula, psicóloga do projeto, alerta que a criminalidade é o fim de uma longa linha de negligência. 

“Quando eles chegam pra gente, o ato infracional aparece muito mais como um sintoma de uma problemática que atravessa a vida deles, com violações muitas vezes desde o nascimento”, avalia a psicóloga.

Ela explica que são jovens que cresceram sem perspectiva, vindos de famílias que, há gerações, sofrem com a ausência do poder público. O Estado, que deveria ser o fiador de direitos básicos como educação, lazer e cultura, muitas vezes só se faz presente no território periférico por meio da força policial.

“Se um adolescente foi criado desde a primeira infância sem nenhuma perspectiva, sem ninguém que dissesse para ele que ele pode mais do que roubar uma moto ou pegar um celular, ele fica condicionado a acreditar que aquilo é o máximo que ele pode fazer da vida”, diz Ana Paula.

Para quebrar esse ciclo vicioso, a punição pura e simples já se provou ineficaz, na avaliação dos profissionais do Santo Dias. A ferramenta de transformação social mobilizada pela equipe técnica do local é invisível aos olhos da Justiça: o afeto.

“A nossa única via de acesso com esses meninos é o vínculo”, reforça a psicóloga. “É buscar o meio do cuidado, fazer com que eles percebam que são mais valorosos do que a sociedade mostrou para eles até hoje.”

Fernando Konesuk compartilha dessa mesma diretriz. Para o professor, o grande diferencial do projeto é criar um espaço seguro de acolhimento. “É saber que as pessoas gostam deles, que querem o bem. Se acontecer alguma situação delicada, a gente vai estar junto com eles.”

Porta para o futuro

Apesar dos resultados considerados expressivos pela OSC, os desafios estruturais e a luta contra o senso comum punitivista são imensos. Danielle Luscri ressalta a dificuldade de integrar o atendimento com outras áreas do poder público.

Ainda assim, a equipe segue resistindo. Para Konesuk, o trabalho diário de gravação e edição com os jovens é uma forma prática de lutar contra o aprisionamento em massa da juventude de quebrada. É, nas palavras dele, uma tentativa de “arriscar sonhar em outras possibilidades, de pensar no mundo sem cadeia”.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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