A Venezuela se prepara para o início dos diálogos com setores oposicionistas, como parte da Programa de Convivência Democrática, anunciado pelo governo nacional. De um lado, deputados chavistas, liderados pelo presidente da Assembleia Nacional da Venezuela (ANV), o deputado Jorge Rodríguez, se sentarão para dialogar com um grupo de ex-parlamentares que ocuparam a ANV entre os anos de 2015 e 2021, liderados pela ex-deputada Dinorah Figuera.
A principal pauta da oposição é a realização de eleições sob condições estritas, como a renovação do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), a garantia de participação de organismos de acompanhamento e observação, a construção de um cronograma que envolva processos eleitorais nos diferentes níveis, e a restituição de direitos políticos de cidadãos que tenham sido inabilitados pelo Poder Eleitoral.
Por parte do governo, entre as reivindicações centrais está o reconhecimento do governo encarregado, liderado por Delcy Rodríguez, a suspensão de todas as sanções econômicas que pesam sobre o país, sobretudo por parte do governo estadunidense, e a devolução de fundos e ativos venezuelanos que foram bloqueados ou sequestrados no exterior.
Sobre essas conversas, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, disse nesta segunda-feira (20) que os EUA estarão “muito envolvidos” no processo de diálogo entre o governo e o setor da oposição na Venezuela, processo qualificado por ele como “início da transição democrática”.
“Acredito que as primeiras conversas oficiais começarão na primeira semana de agosto. Achei essa uma proposta muito significativa. Obviamente, veremos como isso evolui, mas acreditamos que esse acordo foi recebido na Venezuela como uma notícia muito boa e, naturalmente, é algo em que estaremos muito envolvidos”, alegou.
No entanto, as autoridades venezuelanas não confirmaram a participação direta de funcionários estadunidenses nas conversas.
Contra ‘tutela’ estadunidense
Um grupo de lideranças políticas chavistas lançou na terça-feira (28) a chamada “Declaração de Maracay”, durante as celebrações do aniversário de 72 anos do nascimento do ex-presidente Hugo Chávez, falecido em 2013. A ação ocorreu na cidade considerada o berço do Movimento Bolivariano Revolucionário 200. O texto é assinado por nomes conhecidos do chavismo, como os ex-ministros da Agricultura e posteriormente da Educação, Elías Jaua, e da Cultura, Reinaldo Iturriza.
O documento é uma espécie de programa político mínimo, com três pontos centrais, e foca na rejeição às imposições coloniais dos Estados Unidos. Entre os apontamentos, os signatários defendem “a necessidade imperativa de nos unirmos em defesa da Constituição da República Bolivariana da Venezuela, da soberania e da luta pela recuperação da independência”. E condenam o controle do governo estadunidense sobre os recursos do país.
“Rejeitamos, firme e categoricamente, qualquer forma de tutela ou dominação sobre nossa nação. Levantamos nossas vozes pela recuperação do controle soberano sobre os recursos econômicos derivados da venda de petróleo e outros recursos que atualmente estão sendo depositados em um fundo administrado pelo governo dos Estados Unidos, o que agrava a já muito difícil situação econômica e social das famílias venezuelanas”, diz o documento.
O grupo também se posiciona em relação ao anúncio do início do diálogo com setores da oposição, marcado para começar no dia 1º de agosto.

“Exigimos que este fórum seja coerente, honesto e transparente, priorizando os interesses da grande maioria dos venezuelanos; um diálogo nacional que inclua todos os atores políticos e sociais, acordado pelos venezuelanos, para os venezuelanos e pelos venezuelanos, sem qualquer interferência estrangeira, para desenvolver e construir uma solução política e democrática para a atual situação de tutela no país, permitindo a recuperação das condições econômicas, sociais e políticas necessárias para que o povo venezuelano viva com dignidade”, diz o texto.
Finalmente, o comunicado faz uma defesa à “mais ampla unidade nacional” e à promoção de “uma corrente de opinião organizada em favor da independência e dos direitos dos trabalhadores, por meio de mecanismos ou plataformas de coordenação e comunicação, e organizando assembleias, reuniões e encontros pela independência nacional em todos os estados e municípios do país, no melhor espírito de unidade e integração nacional”.
O grupo se declarou em atividade permanente para “alcançar os objetivos de independência nacional e defesa da Constituição do país”.
