CINEMA

Mestra Percília: ‘Sou Kalunga, moro na roça e tenho uma história para contar’

Entre as raízes do Cerrado, mestra de saberes quilombola compartilha memórias ancestrais de seu povo

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Percília dos Santos Rosa é guardiã de saberes tradicionais, artesã e raizeira enraizada na comunidade do Vão de Almas, na Chapada dos Veadeiros (GO)
Percília dos Santos Rosa é guardiã de saberes tradicionais, artesã e raizeira enraizada na comunidade do Vão de Almas, na Chapada dos Veadeiros (GO) | Crédito: Bia Carvalho

“Além de fazedora de filme, a senhora está fazendo o quê?”, pergunto à Mestra Percília. Ela vai enumerando suas milhares de possibilidades: “eu vendo óleo de coco, de buriti, de mamona, vendo farinha de jatobá, de baru, raizada, xaropes, eu faço costura também, faço bolsa, faço crochê, um montão de saia, bolsinha de retalho, coberta de retalho. Eu faço isso aí tudo”. 

Na semana em que estreava o curta-metragem Percília junto da cineasta goiana Bia Carvalho, boa parte das coisas que a Mestra Kalunga cita ocupavam uma banca na feira da Tenda Multiétnica, programação que integrou o 27º Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica), em meados de junho na Cidade de Goiás. Quem passava ali poderia ser agraciado com a fala “conversadeira” e cheia de saberes “aprendidos dos povos”, que forneciam uma prévia de um modo de vida contado agora em produção audiovisual. 

Gravado em 2025, o documentário acompanha a partilha de saberes de Percília dos Santos Rosa na comunidade Vão das Almas, no Território Kalunga – maior quilombo no Brasil. Na trajetória do curta, acompanhamos modos de cuidado e tradições culturais que atravessam o cotidiano da Mestra; plantas, rezas e cantos compartilhados criam um cenário da vida compartilhada, solidária e recíproca no chão ancestral do Cerrado da Chapada dos Veadeiros, em Goiás.

Nesta produção essencialmente cerradeira, o afeto e confiança confluem entre territórios do nordeste e sul goiano para um encontro de possibilidades para além da lógica extrativista de saberes. Dona Percília e Bia decidiram fazer cinema de outro jeito, com autonomia e partilha.

Leia a entrevista com as diretoras:

Brasil de Fato DF – Eu gostaria de conhecer um pouco das raízes de vocês. Como vocês se apresentam e de onde vêm?

Mestra Percília: Eu me chamo Percília do Santo Rosa, sou nascida e criada na comunidade Vão de Alma. Nascida na roça, criada no mato, como dizia minha avó. E até hoje moro lá e não pretendo mudar, o meu território para mim é muito bom. Lá no meu território, de cada coisa eu faço um pouco. Capino de enxada, corto de machado, colho fruta no Cerrado, ponho lenha na cabeça, e água do rio também. Só que agora não ponho mais, porque eu coloquei uma água lá em casa, aí melhorou mais. Mas antes era tudo no rio, lavava vasilha, roupa, água para beber. É pertinho, no quintal já pega. 

Bia Carvalho: Eu me chamo Bia, tenho 35 anos, sou de Pires do Rio, mas moro em Alto Paraíso há 10 anos e sou graduada em Jornalismo. Eu sou da roça, a minha avó descende dos Caiapós do sul, então eu sempre tive afeto pelos povos indígenas. Eu deixei Pires do Rio muito jovem para tentar fazer Jornalismo em Goiânia e fiquei lá 7 anos, mas Goiânia era muito grande para mim. Eu senti que precisava ir para Alto Paraíso para ficar dois meses, me acalmar e voltar para Goiânia. Mas fui tão acolhida pelo Cerrado, pelas águas e pelas pessoas que acabei não voltando.

Dona Percília, e a vida da senhora no seu território, conta mais?

Percília – Minha vida foi sofrida, criei meus filhos separada do marido, porque o marido bebia muito, aí separei. Não criei no berço de ouro, mas foi muito bem criado. Eu tenho cinco filhos: a Zelmira, a Eva, o Adão, o Salvador e o Gelson e eu dei muita oportunidade para eles. Eu estudei só um pouquinho em casa, porque na minha época a escola era mais difícil, mas quis dar toda a oportunidade para eles aprenderem a ler. O Adão formou agora, no dia 23 de maio, defendeu o doutorado dele. É um orgulho que eu tenho de ver meu filho formar. Ele quer ficar lá, voltar para o território, porque é bom para ensinar os que ficam. E hoje eu estou andando no mundo. Arranjei essa linda, maravilhosa Bia, que fiz um filme com ela. E esse filme eu quero ver passar no Brasil inteiro, pro povo me conhecer. Porque quando eu morrer, que Deus me levar, aí o povo já vai me conhecer.

Que eu sou Kalunga, nasci na roça e tenho uma história para contar. Eu acho tão bonito ter uma história de uma pessoa que já foi e ter uma história para ver ainda dela.

E nesses caminhos, como foi que vocês se encontraram?

Bia – Território em Alto Paraíso, na Chapada dos Veadeiros, é uma palavra que fala muito alto. E não fala muito alto só porque está na moda mesmo, se fala em território e reivindica-se os territórios que estão constantemente sendo tirados, estão constantemente em disputa. Tem pessoas que estão ali há muito tempo, tem pessoas que entendem muito do Cerrado, e eu acho que a partir dessa busca minha de aproximação, de confluir com as águas, de tentar identificar, conhecer as plantas, e eu fui conhecendo o povo Kalunga também. E aí fui voluntária do Raízes pela primeira vez em 2019, e conheço a dona Percília, aí vou encontrando ela constantemente no Raízes, no Encontro de Culturas, na Aldeia Multiétnica. Vou me encantando por essas mulheres que são muito resilientes, muito fortes, muito sabedoras, assim, detentoras de sabedorias muito diversas. 

Percília – Eu sou uma pessoa muito conversadeira, barulhenta, amigueira. Aí encontrei essa rainha aqui lá na aldeia [Aldeia Multiétnica], nós conversamos um pouco. Um dia ela mandou uma mensagem pra mim perguntando se eu queria fazer um edital com ela. “Topa, hein?”, eu falei topo, bora fazer, bora pra frente. Isso já tem uns dois anos, aí começou a fazer o filme, ela levou o pessoal lá em casa. Primeiro, ela foi sozinha ver, depois já levou o pessoal para filmar. E eu gostei muito! Pessoas tudo maravilhosas. Para mim, tudo é meus irmãos de casa, são meus amigos de verdade. Eu sei que é difícil a gente ter amigo, mas essa é amiga de verdade. E eu tenho ela como minha irmã, de verdade. 

Bia: A dona Percília entende profundamente de Cerrado, ela tem muito saber, sabe fazer muitas coisas. Quando a gente foi gravar o filme, a casa dela não tinha estrutura para atender uma equipe de oito pessoas e a família dela que estava lá no momento. Ela e a filha dela saíram com um facão no mato, cortaram um monte de vara, fizeram um monte de banco debaixo da mangueira no quintal, fizeram um fogão de lenha com vara e barro no quintal para poder receber a gente melhor, para poder acolher a gente melhor. Quando acontece essa aproximação, é muito valioso. 

Curta-metragem Percília carrega ancestralidade quilombola, dominando os mistérios das plantas do Cerrado para o feitio de remédios, xaropes e chás | Crédito: Bia Carvalho

Muita gente fala que o cinema vai até as comunidades, extrai a história e vai embora. Como vocês tentaram se distanciar dessa ideia?

Percília – Vai muita gente na nossa região. Inclusive foi uma vez fazer um plantio de baunilha, e esse plantio de baunilha não deu nada. Começou muito bom, muito bonito e depois nem sei contar pra você o que foi, o que é que deu, sei que não saiu nada. E aí depois eu vi falando que o cara ganhou dinheirão e nós, ó, não viu nada.

Como é que você pega a pessoa do território, fazem coisa com seu nome e depois fica só pra ele? É difícil você encontrar gente que você confia, que você sabe que fala a verdade. Mas quando você encontra uma, você sabe que está falando a verdade. Seu coração conta, você está falando que ela está falando a verdade, você não vê mentiras, você não vê falhas, você não vê nada. E do filme eu me orgulho muito, né? Gravou, fizemos e devolveu para todo mundo ver. Não é só para mim, mas para todo mundo. Está a minha família, cunhado, irmão, outras pessoas também. E aí não ficou só em mim, ficou em mais gente, assim que eu queria. Do jeitinho que eu queria, ela fez. Por isso que eu falei, é a pessoa que a gente ama, que a gente gosta, que a gente confia. Se eu vou fazer um filme e eu vou botar só eu? Isso para mim é sem graça.

Bia – Eu tive o privilégio de fazer um mestrado em cinema documental em Cuba no ano passado. Lá existe um jeito de fazer cinema que eu acho que é muito honesto, humano e respeitoso com as outras pessoas. A dona Percília ser co-diretora é muito importante para mim, para ela conseguir se posicionar e dizer o que ela quer.

Por exemplo, o que me interessou a fazer o filme com ela foi sobre a resposta que ela deu para uma pessoa que estava reclamando que estava muito caro o óleo de mamona dela. A gente poderia ter feito o filme sobre o óleo de mamona, mas ela sugeriu que a gente fizesse sobre o xarope. Então, fizemos sobre a busca de plantas no Cerrado para fazer o xarope, o canto que ela cantou quando ela estava pegando, tudo isso tem a ver com a decisão dela. 

Tem escolas de cinema que consideram que num documentário você nunca deve pagar o personagem. Eu discordo veementemente disso. Temos filmes que às vezes pagam 200 mil para uma atriz principal, e está pagando 120 reais para elas [mulheres kalunga] passarem 12 horas no dia dançando sussa. Isso é uma subvalorização do saber delas. Então, para mim, é muito importante que ela seja remunerada. E, na minha cabeça, era importante pagar melhor as pessoas durante o filme; na cabeça dela era importante pagar mais pessoas, mesmo que recebessem pouco, e foi feito. 

E lançaram o filme num festival internacional, né!? Já tinha pensado nisso algum dia? 

Percília – Não, eu não pensei não. Eu já vim aqui várias vezes [Cidade de Goiás]. Umas três vezes, duas vezes. Mas eu não pensava de eu vir aqui mostrar filme algum dia. Eu não pensava. Mas só que quando você tem aquele dom, aquela fé, você tem quem ajuda, aí você aparece. 

A senhora já tinha visto um filme no cinema? 

Percilia – Não, foi a primeira vez. Só tinha visto no telãozinho mesmo, assim. Eu Gostei. 

Bia: É interessante ela dizer, e eu imaginei que poderia ter sido a primeira vez que ela foi ao cinema. Eu acho que isso é muito importante ser lembrado, porque Goiás tem poucas salas de cinema. E a gente já perdeu esse caráter de cinema de rua ou cinema popular. A gente quase não tem. Eu fui ao cinema pela primeira vez com 19 anos, e aí com 20 ou 21 eu já estava querendo fazer cinema. Não sabia nem como, não sabia nem o quão difícil, quão caro, quão distante às vezes as coisas são. 

Acho que Goiás, inclusive, enquanto Estado, precisa difundir melhor a arte. A gente está passando por esse momento aqui na Cidade de Goiás, dos cursos de artes visuais e cinema estarem sendo ameaçados, quando a gente deveria estar ampliando isso. A gente tem pouca oferta para apreciação de arte no Estado, a maioria das cidades do interior não tem essa possibilidade de ver exposições, de experimentar a arte nas suas diversas maneiras e possibilidades.

E depois dessa experiência, com essa vontade, quais os próximos passos?

Bia – Eu gostaria de voltar a fazer mostra, inclusive vamos fazer em três comunidades diferentes. Agora eu sei que Pires do Rio está com um cinema. Eu quero muito levar o Percília para passar lá, vai ser muito especial para mim. É um cinema público que está acontecendo, ou pelo menos estava, no Museu Ferroviário. Eu fiquei com muita vontade de passar lá, sobretudo para que minha mãe e minha avó pudessem ver. Acho que para mim também é muito importante que eu faça um tipo de filme que minha mãe e minha avó entendam. Que minha mãe e minha avó possam assistir. A minha avó provavelmente também nunca foi a uma sala de cinema. E acho que isso, na realidade, deve ser uma porcentagem gigantesca de goianos que nunca foi a uma sala de cinema.

Percília – Aí se for para sair outro, nós fazemos de novo também, não é verdade!? Se sair outro, a gente torce para levar a vida para frente. Quando a gente tem aquela fé, aquela força, sai outra coisa. Vamos fazer? Vamos fazer! A gente não pode parar. E eu não quero parar também. Cada vez mais, andando, andando mais.

Confira o trailer do documentário ‘Percília’

O filme estreou dia 19 de junho durante a programação da Mostra Cinema Indígena e Povos Tradicionais do 27º Fica, a próxima exibição está prevista para o Festejo de Nossa Senhora da Abadia que ocorre de 12 a 17 de agosto, na Comunidade Vão de Almas, em Cavalcante (GO). Ainda em setembro, há previsão de exibição também no Ribeirão dos Bois e Engenho II, territórios que integram o Quilombo Kalunga.


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Editado por: Clivia Mesquita

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