Em um momento em que o Rio Grande do Sul ainda enfrenta os impactos sucessivos da crise climática e da expansão do agronegócio sobre o Pampa, lideranças do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), de movimentos populares, cooperativas, universidades e instituições de pesquisa defenderam, na quarta-feira (30), a agroecologia como eixo estratégico para a reconstrução produtiva dos territórios do Pampa e da Zona Sul gaúcha.
Realizado na BioNatur – cooperativa de assentados pela Reforma Agrária, que atua como um banco vivo de sementes agroecológicas -, em Candiota, o “Seminário de Agroecologia – Produzir com a Natureza, Cuidar da Vida” reuniu dezenas de lideranças para debater sementes crioulas, bioinsumos, agregação de valor, transição agroecológica e fortalecimento da agricultura familiar. A programação foi organizada em três painéis dedicados às sementes da transição agroecológica, às tecnologias da agroecologia e à sociobiodiversidade.
Durante a abertura, o superintendente do MDA no Rio Grande do Sul, Milton Bernardes, destacou que o seminário marca a retomada da política territorial no estado. “Resgatamos a política territorial, resgatamos a figura dos agentes territoriais. Este é um momento de escuta, de troca de experiências e de reconstrução das políticas públicas voltadas para a transição agroecológica.” Para Bernardes, o encontro é o primeiro de uma série de seminários que serão realizados em outros territórios gaúchos, aproximando o ministério das demandas locais e fortalecendo a atuação dos agentes territoriais.

Em mensagem enviada ao seminário, o secretário nacional de Agricultura Familiar e Agroecologia do MDA, Vanderlei Ziger, afirmou que a transição agroecológica será uma das principais estratégias do governo federal para fortalecer a agricultura familiar diante da emergência climática. O secretário destacou medidas recentes, como o Plano Safra, o Desenrola Rural e ações de renegociação das dívidas dos agricultores, defendendo que políticas públicas, pesquisa, juventude rural e fortalecimento das mulheres do campo caminhem juntas na construção de sistemas alimentares mais resilientes.
Ao final, Ziger manifestou a expectativa de que o seminário se torne uma referência nacional para a agroecologia e defendeu que as propostas debatidas nos territórios sejam transformadas em ações concretas do ministério.
Agroecologia como resposta à emergência climática
Ao longo das falas, a crise climática apareceu como um dos principais desafios da agricultura gaúcha. Presidente do Centro de Educação e Pesquisa Popular em Agroecologia (CEPA) e dirigente do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra, Luís Flávio Soares Abreu, o Kiki, defendeu que a agroecologia deixou de ser apenas uma alternativa de produção para se tornar condição indispensável para enfrentar o colapso ambiental.
“Nós não vamos vencer essa crise climática se não transformarmos a agricultura pela agroecologia.” Ele criticou o avanço do modelo baseado em monoculturas e agrotóxicos, apontou a degradação do bioma Pampa e defendeu investimentos públicos para fortalecer agroindústrias locais, ampliar a produção de alimentos e garantir a permanência das famílias no campo. Kiki também anunciou a criação de uma pós-graduação em bioconstrução, em parceria com o Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul), relacionando a formação técnica à necessidade de adaptar as moradias rurais às mudanças climáticas.
Outro eixo central do seminário foi a soberania sobre as sementes. Alcemar Adílio Inhaia, da BioNatur, apresentou a expansão nacional da cooperativa de sementes agroecológicas e defendeu a construção de uma política pública específica para a produção de sementes adaptadas aos diferentes biomas brasileiros. Segundo Inhaia, embora programas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) sejam estruturantes, ainda são insuficientes para atender à demanda crescente pela produção de sementes agroecológicas. “O desafio agora é pensar uma rede nacional de sementes adaptadas aos territórios e aos biomas brasileiros.”

Solange Abreu, da Copampa, apresentou um retrato das mudanças vividas pelos assentamentos da região. Ela lembrou que muitas famílias passaram a arrendar seus lotes para a soja, abandonando a produção diversificada de alimentos. Com a ampliação dos mercados institucionais, especialmente por meio do Programa de Aquisição de Alimentos, esse movimento começa a ser revertido. Atualmente, a cooperativa abastece cinco quartéis da região, movimentando semanalmente alimentos produzidos pela agricultura familiar e camponesa. Segundo Solange, o acesso aos mercados tem estimulado novamente a produção para o autoconsumo e para a comercialização do excedente.
Agricultura familiar disputa espaço com o agronegócio
As lideranças presentes também chamaram atenção para as dificuldades enfrentadas pela agricultura familiar diante da concentração de recursos públicos e privados no agronegócio.
A vereadora Luana Vais destacou que a agricultura precisa ocupar papel central no debate sobre a transição energética da região carbonífera. “Não existe mudança da matriz econômica de Candiota sem colocar a agricultura no centro desse debate.” Ela também defendeu o fortalecimento dos agentes territoriais do MDA como instrumento para aproximar as políticas públicas das necessidades concretas das comunidades rurais e criticou a burocracia enfrentada pelos agricultores para acessar programas federais.
Pesquisador da Embrapa Pecuária Sul, Alberi Noronha ressaltou que iniciativas como o seminário cumprem um papel estratégico ao aproximar governo, pesquisa, movimentos sociais e agricultores. Para ele, o Estado deve atuar como articulador das diferentes instituições diante dos desafios relacionados à soberania alimentar, à saúde da população e às mudanças climáticas.
Eitel Maicá, do Instituto Cultural Padre Josimo (ICPJ), avaliou que a região perdeu força no debate agroecológico ao longo dos últimos anos, apesar do acúmulo histórico de organizações sociais. Segundo Maicá, um dos principais desafios é transformar as políticas públicas em instrumentos que cheguem efetivamente às famílias agricultoras. “O problema hoje não é apenas criar políticas. É fazer com que elas cheguem até quem produz.” Ele também alertou que a dependência crescente da soja torna a região vulnerável a futuras crises econômicas e climáticas.
