MARCO HISTÓRICO

Após mais de sete décadas, Feira do Livro de Porto Alegre terá primeira patrona negra

A escritora, antropóloga e educadora Heloisa Pires Lima foi a escolhida para marcar a 72ª edição do evento

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Heloisa Pires Lima é a primeira mulher negra escolhida como patrona da Feira do Livro de Porto Alegre; a 72ª edição ocorre de 30 de outubro a 15 de novembro
Heloisa Pires Lima é a primeira mulher negra escolhida como patrona da Feira do Livro de Porto Alegre; a 72ª edição ocorre de 30 de outubro a 15 de novembro | Crédito: Eduardo Fernandes / CRL

A escritora, antropóloga e educadora Heloisa Pires Lima, de 70 anos, foi anunciada nesta terça-feira (4) como patrona da 72ª Feira do Livro de Porto Alegre. Pela primeira vez em mais de sete décadas de história do evento, uma mulher negra ocupará o posto. Ela é também a segunda pessoa negra escolhida para a homenagem — o escritor Jeferson Tenório foi o primeiro, em 2020 — e a décima mulher entre todos os patronos.

O anúncio foi feito pela Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL). A 72ª Feira do Livro será realizada de 30 de outubro a 15 de novembro, na Praça da Alfândega, no Centro Histórico da Capital, com o tema “Essência que faz histórias”.

Nascida em Porto Alegre, em 1955, poucos dias após a primeira edição da Feira, Lima mudou-se ainda criança para São Paulo, onde construiu sua trajetória como escritora, antropóloga e educadora. Formada em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP), concluiu mestrado e doutorado em Antropologia Social. Também criou o Selo Negro Edições, do Grupo Summus Editorial.

Com cerca de 30 livros publicados, tornou-se uma das principais referências da literatura infantojuvenil voltada à valorização da cultura afro-brasileira. Entre suas obras de destaque está Histórias de Preta, publicado em 1998 pela Companhia das Letrinhas. O livro, que aborda a construção da identidade de uma menina negra, recebeu os prêmios José Cabassa e Adolfo Aizen e foi selecionado para a Brazilian Book Magazine, publicação apresentada na Feira do Livro de Bolonha, na Itália. Mais recentemente, lançou Livro tem língua?, pela Editora Passarinho, e Penteado, o meu e o do lado, pela PeraBook.

Para Lima, a literatura tem papel fundamental na formação das crianças e na construção de referências. “A literatura tem o poder de mostrar às infâncias que elas fazem parte da vida ao redor e que merecem ser contadas. Quando leitores e leitoras negros encontram personagens, memórias e referências construtivas que dialogam com suas vivências, há um fortalecimento da autoestima e uma ampliação das possibilidades de imaginar o próprio futuro”, disse.

Ao comentar o fato de ser a primeira mulher negra patrona da Feira, a escritora afirmou que a escolha representa uma responsabilidade coletiva. “Além da valorização da literatura infantojuvenil, existe essa representatividade das histórias negras, que ainda precisam ocupar os territórios imaginários de uma geração que está sendo formada. Representar essa população negra espalhada pelos rincões do Sul é uma responsabilidade enorme.”

‘Está faltando o mundo na literatura’

Lima conta que sua relação com a literatura nasceu da educação. Antes de se reconhecer como escritora, afirma que sempre se viu como educadora, convivendo diariamente com crianças e suas perguntas sobre o mundo. “Antes de me ver como escritora, eu sou educadora. Sempre tive crianças ao meu redor. Ao longo do tempo, fui descobrindo toda a dinâmica que existe por trás da infância e, principalmente, das ausências.”

Segundo a autora, foi a percepção dessas ausências que a levou a construir uma literatura comprometida com a diversidade. Ela questiona: “Se a origem continental europeia nos livros é linda, maravilhosa, cadê as outras? Está faltando o mundo aí. Se a literatura é uma janela para o mundo, ainda está faltando o mundo.”

Ela explica que suas obras buscam ampliar esse repertório e apresentar experiências negras pouco representadas na literatura brasileira. “O Histórias de Preta, por exemplo, apresenta uma infância do Sul, com frio, com Guaíba, com histórias que pertencem a este território.”

Para a escritora, seus livros nasceram das inquietações compartilhadas com crianças e adolescentes. “Um livro veio depois do outro porque uma criança faz uma pergunta, outra provoca uma conversa. O livro acaba sendo um grande mediador para construir conhecimento”, conta.

Do vínculo com o Sul à patronagem

Embora viva em São Paulo desde os nove anos, Lima afirma que nunca perdeu o vínculo com o Rio Grande do Sul. “Eu sempre vim para cá visitar a família. Cresci em São Paulo, mas o Sul continua sendo uma referência de coração.”

Ao assumir a patronagem, ela afirma que pretende participar ativamente da programação da Feira e ampliar a visibilidade da literatura destinada às infâncias e da produção de autores negros.

“Vou caminhar pela Feira, conversar com os leitores e contribuir para valorizar a literatura infantil e juvenil. Também quero acolher a produção negra que existe nos rincões do estado. Não sou apenas eu que estou sendo representada. Tenho responsabilidade pelo que essa escolha representa”, disse.

A escritora também destacou o trabalho permanente da Feira do Livro na formação de leitores. “A Feira não trabalha apenas durante os dias do evento. Existe um trabalho contínuo de sensibilização para a leitura nas escolas, nas livrarias, nas bibliotecas e nos espaços culturais. Isso é uma sabedoria que poucas feiras têm.”

Para Lima, esse compromisso faz da Feira um espaço de encontro entre escritores, leitores e diferentes gerações. “A Feira aproxima escritores, leitores e crianças. Ela cria vínculos que permanecem muito além daqueles dias de programação.”

Da esquerda para a direita: Martha Medeiros, patrona da 71ª edição; Roseni Siqueira Kohlmann; e Heloisa Pires Lima, atual patrona da Feira | Crédito: Eduardo Fernandes/CRL

Escolha marca momento histórico para a Feira

Primeira mulher a presidir a Câmara Rio-Grandense do Livro em 71 anos de história da entidade, Roseni Siqueira Kohlmann afirmou que a escolha de Heloisa Pires Lima como patrona da 72ª Feira foi guiada pela relevância de sua obra e pelo compromisso da gestão com a formação de leitores desde a infância. “Quando a gente fala da patrona da Feira, estamos homenageando uma pessoa pela sua obra, por tudo que ela representa na literatura. É uma homenagem que permanece para sempre.”

Segundo Kohlmann, a trajetória de Lima dialoga diretamente com a proposta do evento. “Ela tem mais de 30 obras, todas muito focadas nessas séries iniciais, e isso foi o que nós olhamos para que ela participasse como patrona. A literatura dela tem muito a ver com incentivo à leitura.”

A presidente destacou ainda o significado simbólico da escolha, que ocorre no mesmo período em que uma mulher ocupa pela primeira vez a presidência da Câmara. “Acho que isso é um momento histórico para as próximas gerações de leitoras e escritoras.”

Para Kohlmann, a diversidade precisa estar presente também nos livros e nos espaços culturais. “A literatura é ampla, é para todos. Não adianta aquela leitura para alguns e para outros, não. A Feira é de todos, a leitura é de todos”, declarou.

Ao falar sobre sua própria trajetória, afirmou que as mulheres ainda enfrentam desafios para ocupar espaços de liderança. “O machismo existe. Eu sou muito bem recebida, mas, para que tudo isso acontecesse, eu tive que mostrar que eu podia. Em muitos outros tempos, talvez alguns homens não precisassem provar tanto. Eu, como mulher, preciso estar sempre mostrando que posso.”

Kohlmann também adiantou que a programação da 72ª Feira terá atenção especial à literatura infantojuvenil, com novidades voltadas às novas formas de leitura e ao universo das crianças e dos jovens.

Autoridades destacam representatividade

Representando a Prefeitura de Porto Alegre, a vice-prefeita Betina Worm afirmou que a escolha de Lima reflete uma sociedade em que as mulheres ampliam sua presença em espaços de liderança. “É uma sociedade em que as mulheres conquistam espaços, lideram instituições, escrevem histórias e ajudam a construir o futuro da nossa cidade.”

A secretária municipal da Cultura, Liliana Cardoso, definiu a escolha de Lima como um momento histórico e destacou o simbolismo de uma mulher negra ocupar pela primeira vez a patronagem da Feira do Livro. “É um momento histórico porque a gente devolve o livro, recolocando no espaço de tempo da ancestralidade a história da mulher negra. A gente retoma e devolve livros que não puderam ser escritos pela falta de oportunidade, pela falta de acesso à alfabetização e pela violência de mais de 300 anos de escravidão.”

Representando o escritório do Ministério da Cultura no Rio Grande do Sul, a diretora Patrícia Affonso ressaltou o papel da Feira do Livro de Porto Alegre como referência nacional na promoção da leitura. “A Feira de Porto Alegre é a feira-mãe do Brasil. É uma feira que reúne escritores, autores e a população, aproximando cada vez mais as pessoas do mundo do livro.”

Affonso destacou ainda a retomada de políticas públicas voltadas ao livro, à leitura e às bibliotecas, além do fortalecimento das feiras literárias em todo o país. “Viveremos momentos muito inesquecíveis em uma nova Feira, que a cada edição se renova e é inédita para nós. Esse contato com os escritores e também conhecer mais a história da nossa patrona será muito especial.”

O secretário estadual da Cultura, André Venzon, destacou a importância do evento para o estado. “Seguimos construindo essa história por aqueles que vieram antes, por aqueles que continuam e por aqueles que virão, porque a Feira do Livro de Porto Alegre é o nosso expoente cultural no Rio Grande do Sul.”

A cerimônia também contou com a participação da escritora Martha Medeiros, patrona da edição anterior. Medeiros afirmou que a patronagem é uma experiência que permanece na trajetória dos escritores e desejou que Lima aproveite a proximidade com o público.

‘Essência que faz histórias’: campanha destaca trajetória da Feira

Durante a coletiva de imprensa, a organização apresentou a identidade da 72ª Feira do Livro de Porto Alegre, que terá como conceito “Essência que faz histórias”.

Desenvolvida pela Holding Impacto, a campanha parte da relação construída entre o evento e a cidade ao longo de mais de sete décadas, destacando a Feira como um espaço de encontro entre quem lê, quem escreve, quem descobre e quem se reencontra. “A história começa nas páginas, mas continua nas pessoas”, resume o conceito da edição.

A identidade visual tem como elemento central o jacarandá, símbolo da Feira do Livro, representando uma trajetória construída coletivamente por diferentes gerações. A proposta destaca que, embora a cidade tenha mudado e novas formas de acesso à cultura tenham surgido, a essência do evento permanece ligada ao encontro entre livros, leitores e escritores. “Há histórias que começam em páginas e continuam nas pessoas. A cada edição, a cidade se move, se encontra e se reconhece.”

Feira anuncia primeiros nomes da programação

A Câmara Rio-Grandense do Livro também divulgou os primeiros nomes confirmados para a programação da 72ª Feira do Livro de Porto Alegre, que reunirá autores brasileiros e internacionais.

Entre os destaques está a escritora, professora e ativista indígena Eliane Potiguara, primeira mulher indígena a publicar um livro no Brasil e indicada ao projeto internacional Mil Mulheres para o Prêmio Nobel da Paz.

Também estão confirmadas as participações da escritora, jornalista e ativista Bianca Santana; do sociólogo e escritor Jessé Souza; da escritora Aline Bei; e de Ana Maria Machado, vencedora do Prêmio Hans Christian Andersen, considerado um dos principais reconhecimentos da literatura infantojuvenil.

A programação internacional contará com a artista visual afegã Moshtari Hilal, o escritor português Afonso Cruz e a romancista francesa Neige Sinno. Também participam da Feira a jornalista Milly Lacombe, o escritor Marcelino Freire e a escritora, dramaturga e ativista Cidinha da Silva, em encontros com o público adulto e estudantes do ensino médio. Novos convidados e atividades serão anunciados nas próximas semanas.

Editado por: Marcelo Ferreira

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