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‘Argumento contra voto feminino não é novo, o que surpreende é ele ainda ser usado’, avalia pesquisadora

Julie Ricard coordenou pesquisa sobre grupos de homens que usam o Telegram para combater direito ao voto feminino

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Crédito: Edilson Rodrigues / Agência Senado
O ataque ao direito ao voto para mulheres passou a ser uma das principais pautas da extrema direita | Crédito: Edilson Rodrigues / Agência Senado

Um estudo realizado pelo Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas (DesinfoPop), da Fundação Getúlio Vargas, mostra que comunidades de homens no Telegram defendem abertamente o fim do voto das mulheres.

O tema voltou ao debate público recentemente, quando figuras bolsonaristas, como o empresário Paulo Figueiredo e a deputada federal Julia Zanatta (PL-SC), se manifestaram publicamente criticando o voto feminino.

A pesquisadora do DesinfoPop, Julie Ricard, coordenou o estudo sobre o tema e conta que há “uma centena de grupos que fazem parte da machosfera“, que usam o aplicativo para propagar essa ideia em grupos que tratam sobre diversos temas e que são públicos.

Ricard destaca que a análise não é individualizada, ou seja, não leva em conta as particularidades do usuário, mas procura observar o comportamento do grupo.

“A nossa busca por palavra-chave foi usando a expressão ‘voto feminino’ e alguns sinônimos: ‘sufrágio feminino’, ‘sufrágio das mulheres’. Então, um termo neutro. Cerca de 87% dessas mensagens são ataques ao direito de voto das mulheres de uma forma muito agressiva, declaradas como se fossem uma obviedade, com declarações do tipo: ‘Voto feminino foi o pior erro da humanidade’; ‘é uma desgraça do Ocidente’; ‘num país certo, mulheres não deveriam votar’. Tem uma série de declarações desse tipo que são simplesmente uma afronta a um direito constitucional e fundamental da nossa democracia”, avalia Ricard ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.

Segundo a pesquisadora, há dois tipos de discursos mais comuns que são utilizados para justificar a misoginia. “O essencializante, que atribui características supostamente naturais às mulheres. Ou seja, quando alguém diz uma característica natural, quer dizer uma característica imutável. E aí tem um grupo de características, que a gente define como um sexismo paternalista, que são características do tipo: ‘as mulheres são mais emocionais’, ‘são menos racionais’, então elas não conseguem votar tão bem quanto os homens. Isso é um argumento que existe há décadas e não é nada novo. O que é novo é ele ainda estar sendo utilizado”, aponta.

“E aí tem o que a gente chama de sexismo hostil, que são argumentos do tipo: as mulheres são egocêntricas, são hipergâmicas ou até psicopatas, seriam incapazes de amar. É interessante notar que esses dois argumentos se contradizem entre eles, mas isso realmente não é o que importa, porque o que está sendo colocado é uma suposta justificativa para argumentar que as mulheres não deveriam votar. Esses dois discursos têm esse mesmo objetivo”, pontua.

O outro tipo de discurso bastante comum, segundo Julie Ricard, é que as mulheres “não deveriam votar porque historicamente votam na esquerda”. “Existe aí um discurso muito político que se constrói em cima dessas afirmações essencializantes, que deixa claro qual o objetivo desses grupos e as motivações que estão por trás disso também”, afirma.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Rodrigo Gomes

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