Paranoia extremista

Javier Milei ataca opositores de seu governo e chama universitários de ‘terroristas’

O presidente argentino acusou membros da oposição, professores e jornalistas de serem terroristas disfarçados

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O presidente da Argentina, Javier Milei
O presidente da Argentina, Javier Milei | Crédito: Connie France/AFP

O presidente argentino Javier Milei provocou controvérsia após fazer um comentário violento contra aqueles que se opõem ao seu governo. Durante uma entrevista na televisão na noite de segunda-feira (3), o líder de extrema-direita classificou estudantes, professores, jornalistas e pesquisadores na Argentina como terroristas, ecoando a retórica usada em 2010 pelo ditador Jorge Rafael Videla para explicar sua perseguição à esquerda.

“Então você tem terroristas disfarçados de estudantes, terroristas disfarçados de jornalistas, terroristas disfarçados de professores, terroristas disfarçados de pesquisadores”, afirmou o líder do partido La Libertad Avanza, criminalizando protestos e atividades científicas no país, que se encontra sob sua controversa administração neoliberal.

Em seu discurso, o presidente argentino atacou a esquerda e relacionou a influência de Antonio Gramsci ao governo de Cristina Fernández de Kirchner, afirmando que a estratégia de tomada de poder na mídia, na cultura e no Estado chegou a uma fase 2.0, na qual os agentes se infiltram como estudantes, professores e pesquisadores.

Essa acusação coincide textualmente com os argumentos apresentados em junho de 2010 pelo ditador militar Jorge Rafael Videla em sua defesa perante os tribunais de direitos humanos. Nesse julgamento criminal, o líder genocida da ditadura argentina alegou que o kirchnerismo supostamente empregou métodos gramscianos sem violência para estabelecer um regime marxista e tomar as instituições públicas como reféns, acrescentando que o pensador italiano poderia se orgulhar de seus alunos enquanto a Constituição lamentava a república extinta.

Em seu depoimento judicial de 2010, Videla defendeu as ações do Estado repressivo, assumindo a responsabilidade militar por sua suposta guerra ao terror. Após declarar que haviam vencido o conflito militar, mas não conseguiram capitalizar essa vitória politicamente, o oficial militar condenado denunciou um suposto terrorismo judicial contra ele, um padrão autoritário que o atual presidente da Argentina emula hoje para deslegitimar as demandas sociais.

O uso dessa mesma narrativa pelo atual presidente revive a lógica repressiva da ditadura para estigmatizar a dissidência e justificar ataques aos setores educacional e midiático do país.

O presidente da Argentina também rejeitou a denúncia apresentada pela ex-presidente Cristina Fernández de Kirchner ao Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas sobre irregularidades e perseguição política no caso Vialidad. Após se referir à líder peronista de forma depreciativa como prisioneira e ladra, o chefe de Estado declarou que os apelos internacionais não lhe diziam respeito.

Este ataque verbal à principal figura da oposição constitucional expõe a falta de garantias institucionais no país do sul e a completa falta de vontade das autoridades nacionais em exercer o controle democrático e respeitar os direitos humanos.

O presidente argentino também atacou seu homólogo brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, chamando-o de ladrão e prisioneiro libertado por recurso administrativo. Sem apresentar qualquer prova para suas alegações, Milei afirmou que o presidente do Partido dos Trabalhadores financiou uma campanha eleitoral contra ele, coordenada diretamente com o Partido Democrático dos Estados Unidos.

Essas acusações infundadas prejudicam as relações diplomáticas bilaterais na América do Sul, enquanto a sociedade argentina exige respostas eficazes à inflação, ao desemprego e a uma deterioração institucional sem precedentes na história recente.

A declaração controversa provocou uma rejeição imediata do governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, que denunciou a Casa Rosada (o palácio presidencial) por extorquir governos regionais para impor suas reformas. Kicillof lembrou que, após 30 meses de políticas neoliberais, a produção e o consumo internos despencaram, resultando na perda de 300 mil empregos e no fechamento de 26 mil empresas devido a um foco econômico em atividades do setor primário que beneficia apenas uma pequena minoria.

O chefe de Estado argentino descartou o alerta sobre a delinquência familiar — que já ultrapassa os índices da crise de 2001 — e acusou o governador de Buenos Aires de ser comunista, assegurando que Buenos Aires e La Rioja não estão crescendo porque rejeitam o Regime de Incentivo a Grandes Investimentos (RIGI).

A crise econômica da Argentina está se aprofundando devido ao severo ajuste fiscal implementado pelo governo nacional de extrema direita.

Entretanto, a desaprovação do governo do presidente argentino Javier Milei subiu para 64,8%, enquanto seu índice de aprovação caiu para 32,2%, refletindo uma perda de apoio que se estende até mesmo aos eleitores de sua própria coalizão.

Segundo um estudo nacional realizado pelas empresas de consultoria Alaska e Trespuntozero, 76,8% da população considera a situação econômica atual uma crise, e 63,7% apontam o governo Milei como o principal culpado pela deterioração, superando em muito aqueles que atribuem a culpa às administrações anteriores.

O descontentamento popular está se aprofundando devido ao impacto diário da crise nos setores sociais, já que duas em cada três pessoas gastam sua renda antes do dia 20 do mês.

Dados do Monitor de Opinião Pública da Zentrix Consultora indicam que 87,4% da população percebe que seus salários estão perdendo poder de compra diante da inflação, obrigando 61,9% a se endividar para cobrir alimentação e serviços básicos.

Nesse cenário, os líderes da oposição estão liderando as avaliações positivas, enquanto o público rejeita a continuidade das medidas de austeridade do governo.

Editado por: Telesur
Conteúdo originalmente publicado em: Agência Braisl

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