TRANSPARÊNCIA

Moradores das periferias na zona norte do Recife realizam censo independente para mapear famílias com moradias sob risco de deslizamento

“Censo das Barreiras” entrevistou moradores de 115 casas em área de risco nos bairros de Água Fria e Nova Descoberta

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Censo é realizado desde 2024 em comunidades da Zona Norte do Recife
Censo é realizado desde 2024 em comunidades da Zona Norte do Recife | Crédito: Dudu Silva/Redes do Beberibe

No último sábado (1º), a comunidade do Córrego do Boleiro, no bairro de Nova Descoberta, zona norte do Recife, teve acesso em primeira mão aos números e às histórias levantadas pelo Censo das Barreiras, iniciativa do coletivo Redes do Beberibe, que busca entender a realidade das famílias que vivem em situação de risco de deslizamento de terra na capital do estado. O projeto entrevistou moradores de 115 casas localizadas em área de situação de risco alto (R3) e muito alto (R4) nos bairros de Água Fria e Nova Descoberta.

A escolha do Córrego do Boleiro para o lançamento dos dados carrega uma dimensão simbólica e histórica. Há 30 anos, em 1996, 12 pessoas morreram soterradas em um deslizamento de terra, após uma forte chuva e o estouro de um cano da Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa). O jornalista e pesquisador Victor Moura, fundador do Redes do Beberibe e um dos coordenadores do projeto, ressalta que uma das principais diretrizes do trabalho é não deixar os números bastarem por si, mas jogar luz sobre quem são as pessoas e as histórias por trás deles a partir da geração cidadã de dados, na luta por uma cultura da transparência nas comunidades. 

“O levantamento conta uma grande história de ausências. O poder público e a própria sociedade não conhecem plenamente a história dessas pessoas que estão na luta por moradia digna, vivendo em situação de risco. Não entendem o perfil dessas comunidades, como elas se organizam para além das chuvas”, elabora Victor Moura, em conversa com o Brasil de Fato. É o sonho de mudar os rumos dessa história de ausência que impulsiona o projeto do Censo das Barreiras, preenchendo as lacunas com conhecimentos não catalogados pelo poder público, mídia e academia. “As comunidades estão começando a se organizar para gerenciar essas informações e esse conhecimento, para viabilizar políticas públicas adaptadas aos territórios”, complementa. 

Os dados do Censo das Barreiras apontam que a maioria (61%) das famílias localizadas nas áreas contempladas não possui um local seguro para ir em caso de evacuação e 81% já passaram por situações de deslizamentos na região onde vivem ou viram vizinhos abandonarem suas residências em situações de emergência (61%). Quase metade (45%) já precisou deixar a casa para se proteger em algum momento. O perfil dessas famílias é de chefia negra (83%) e feminina (58%), com renda de até um salário mínimo (65%). 

É a segunda vez que o Censo das Barreiras é realizado. A primeira foi em 2024, no primeiro ano de atividades do Redes do Beberibe, coletivo sediado no bairro do Alto Santa Terezinha. O projeto vem atuando na área da bacia hidrográfica do rio Beberibe, englobando comunidades de Recife e Olinda, com trabalhos de produção de informação sobre esses territórios, por meio de pesquisas e reportagens sobre temas como transparência, políticas e orçamentos públicos na área. 

Na primeira edição, o Censo foi realizado de forma embrionária, partindo de informações obtidas por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), em articulação com movimentos sociais e lideranças locais, contemplando apenas o bairro de Água Fria. Agora, além da inclusão dos territórios de Nova Descoberta, o projeto também pôde contar com uma maior sistematização dos processos, como a formação em técnicas de pesquisa e entrevista para os recenseadores, que são moradores das próprias comunidades pesquisadas. A pesquisa também contou, pela primeira vez, com um aporte financeiro, por meio da ONG Habitat para a Humanidade Brasil. A coordenação do projeto é dividida por Moura com a estudante de jornalismo Letícia Barbosa e a advogada Carolina Barros, também moradoras das comunidades.

Na análise comparativa entre os dois censos, Victor Moura destaca que houve alguns avanços, como a diminuição de casas em zona de risco no bairro de Água Fria. A própria sede do coletivo, uma laje no Alto Santa Terezinha, deixou de estar em uma área R3 a partir de obras de contenção. “Houve um avanço nas políticas de contenção de encostas, sobretudo por projetos executados pela Prefeitura, entre financiamentos próprios e federais, mas o número de casas sob risco ainda é considerável. Nesses dois anos, enviamos muitos documentos e pedidos às secretarias, assim como mantivemos uma produção de conteúdo sobre e fomos avançando nessa política”, diz o coordenador. 

Uma das principais bandeiras do trabalho do Redes do Beberibe e do Censo é a criação de uma cultura de transparência nas comunidades, em que seus próprios moradores se tornem mais ativos nas cobranças por informações sobre obras e investimentos públicos em seus bairros. É um desafio que o próprio coletivo acaba lidando em suas atividades. Os dados iniciais para as pesquisas só foram coletados após ser superada uma série de entraves por pedidos de informações à Defesa Civil por meio da LAI. 

O órgão alegava que os dados eram sensíveis e não podiam ser compartilhados, de acordo com a Lei Geral de Proteção de Dados. O Redes do Beberibe apelou com recursos e conseguiu vencer ao defender que o interesse público das informações se sobressai. “Há uma certa resistência dos órgãos em ceder essas informações, até porque a LAI é muito nova, criada em 2011. Querem entender como os dados serão usados, mas a lei não precisa de justificativa para o que será feito com eles”, diz o pesquisador. 

Ele acredita que se trata de um panorama que pode ser alterado a partir da citada cultura de transparência entre os moradores dos bairros periféricos, compreendendo que investimentos públicos não são favores, mas direitos, que precisam ser fiscalizados e cobrados. “Os órgãos não estão acostumados a ver a periferia demandando dados de pesquisa. As comunidades precisam fazer esses pedidos de informações e internalizar uma cultura de transparência, o que vai ajudar também a mudar as culturas dos órgãos”, conclui. 

Os resultados da pesquisa estão disponíveis no perfil do Instagram do Redes do Beberibe. Eles também são apresentados em assembleias públicas nas comunidades, como a do último sábado, no Córrego do Boleiro. A próxima parada é em Água Fria, em evento com data ainda a ser anunciada.

Editado por: Vinícius Sobreira

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