Cultura Socialista

Templo de Jinci preserva 3 mil anos de história chinesa e impulsiona o desenvolvimento local

Complexo histórico revela como cultura, turismo e memória podem contribuir para a melhoria da qualidade de vida do povo

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Templo de Jinci, em Shanxi, preserva um conjunto de mais de 100 construções históricas, incluindo esculturas da dinastia Song e exemplos da arquitetura tradicional chinesa.
Templo de Jinci, em Shanxi, preserva um conjunto de mais de 100 construções históricas, incluindo esculturas da dinastia Song e exemplos da arquitetura tradicional chinesa. | Crédito: Bruno Falci / Brasil de Fato

No sudoeste de Taiyuan, capital da província de Shanxi, no norte da China, um conjunto de templos, jardins e construções de madeira preserva diferentes camadas da história chinesa. Entre esculturas, fontes, árvores centenárias e edifícios tradicionais, o Templo de Jinci (晋祠) guarda uma memória de mais de 3 mil anos e continua sendo um espaço de visitação, pesquisa e transmissão cultural.

Localizado a cerca de 25 quilômetros do centro de Taiyuan, Jinci está ligado às origens do antigo Estado de Jin, que deu nome à atual província de Shanxi. Sua história remonta à dinastia Zhou Ocidental, quando Shu Yu (叔虞), filho do rei Wu da dinastia Zhou, recebeu a região. Ele é considerado fundador do Estado de Jin.

A localização geográfica ajuda a explicar a importância histórica de Shanxi. A província está situada nos trechos médios do Rio Amarelo, uma região fundamental para o desenvolvimento da antiga civilização chinesa.

A reportagem em vídeo produzida pelo Brasil de Fato acompanha a visita ao Templo de Jinci e mostra como Shanxi busca transformar seus bens históricos e culturais em instrumentos de preservação, educação e desenvolvimento social. O material aborda os desafios de proteger uma herança milenar e, ao mesmo tempo, aproximar esses espaços da sociedade e das novas gerações. Para a produção, o Brasil de Fato conversou com voluntários, jornalistas e profissionais ligados ao turismo cultural na região.

“Shanxi é um dos primeiros berços da China e da civilização chinesa, porque está localizada nos trechos médios do Rio Amarelo, uma região que deu origem a essa civilização”, explica Li Jing, guia turística em língua inglesa que trabalha há mais de 10 anos na província.

Segundo ela, a grande quantidade de construções históricas transformou Shanxi em uma referência nacional:

“A província também é considerada um museu da arquitetura antiga, porque conserva numerosas construções históricas de grande qualidade.”

A província é reconhecida por concentrar uma das maiores coleções de arquitetura antiga preservada da China, especialmente construções de madeira, templos, pagodes e edifícios religiosos que atravessaram diferentes períodos históricos. Esse conjunto arquitetônico faz de Shanxi uma região fundamental para pesquisadores interessados na evolução da arquitetura tradicional chinesa.

A guia turística, Li Jing. Foto: Bruno Falci / Brasil de Fato

Shanxi, onde o passado permanece vivo

Um antigo ditado chinês resume uma característica marcante do legado histórico do norte da China:

“Para ver os patrimônios subterrâneos, olhe para Shaanxi; para ver os patrimônios na superfície, olhe para Shanxi.”

A expressão faz referência às diferentes formas de preservação histórica das duas províncias vizinhas. Shaanxi ficou mundialmente conhecida pelos Guerreiros de Terracota, uma descoberta arqueológica subterrânea, enquanto Shanxi se destaca pela quantidade de construções antigas preservadas acima do solo.

A jornalista Liu Huifang, do Shanxi Daily, explica essa diferença ao falar sobre a identidade cultural da província.

“Em Shaanxi estão os Guerreiros de Terracota, que representam principalmente um patrimônio subterrâneo. Já Shanxi se destaca pelos patrimônios históricos preservados na superfície. As duas regiões possuem uma história muito longa.”

Fundado em 1948, o Shanxi Daily é um jornal oficial da província e acompanha diferentes aspectos do desenvolvimento regional, incluindo cultura, história e turismo.

Shanxi reúne milhares de edifícios antigos, entre templos, pagodes, salões ancestrais e construções tradicionais de madeira. Muitos desses espaços atravessaram séculos e continuam integrados à vida cultural da população.

Para Li Jing, preservar esses lugares significa também ampliar o conhecimento sobre a própria formação histórica da China.

“O patrimônio arquitetônico de Shanxi possui grande valor. Temos construções históricas muito importantes, como o Templo de Jinci, que estão bem preservadas. Mas ainda precisamos fazer mais para protegê-las e para que mais pessoas conheçam nossa terra natal e os tesouros da nossa província.”

A voluntária Jing Yu’er com a guia turística, Li Jing. Foto: Bruno Falci / Brasil de Fato

Jinci e suas três maravilhas: arte Song, Fonte Nanlao e Cipreste Zhou Bai

O Templo de Jinci é conhecido pelas chamadas “Três Maravilhas de Jinci” (晋祠三绝): as esculturas policromadas da dinastia Song, a Fonte Nanlao e o Cipreste Zhou Bai.

O principal destaque artístico está no Salão da Santa Mãe (圣母殿), construído entre 1023 e 1032, durante a dinastia Song do Norte. O edifício é considerado uma das grandes referências da arquitetura da época e um exemplo da sofisticação alcançada pelas construções de madeira na China antiga.

No interior do salão estão preservadas 43 esculturas policromadas da dinastia Song, que representam a Santa Mãe e suas atendentes. As figuras chamam atenção pela riqueza de detalhes: diferentes expressões faciais, posturas e características das roupas revelam aspectos da sociedade chinesa daquele período.

Mais do que elementos religiosos, as esculturas são consideradas importantes registros artísticos e históricos, pois apresentam características humanas e detalhes que ajudam pesquisadores a compreender costumes, hierarquias sociais e padrões estéticos da dinastia Song.

A voluntária Jing Yu’er participa da recepção aos visitantes e apresenta elementos históricos do complexo.

“Meu nome é Jing Yu’er. Tenho 28 anos. Hoje estou aqui no Templo de Jinci como voluntária, acompanhando os visitantes durante o passeio pelo templo.”

A roupa usada por ela aproxima os visitantes desse passado histórico. A peça não é apenas uma vestimenta temática: trata-se de uma reprodução baseada nas roupas representadas nas figuras femininas preservadas no próprio Salão da Santa Mãe.

“A roupa que estou usando é uma reprodução das vestimentas da dinastia Song, da etnia Han. Ela representa uma serva da dinastia Song e foi recriada com base em uma das figuras retratadas em um mural do Salão da Santa Mãe.”

Segundo Jing Yu’er, o turismo cultural deve permitir que as pessoas conheçam não apenas os edifícios, mas também os personagens e histórias ligados a esses espaços.

Além do Salão da Santa Mãe, o Templo de Jinci reúne outros exemplos importantes da arquitetura tradicional chinesa, como a Ponte Yuzhao Feiliang (鱼沼飞梁) e o Salão Xian (献殿).

A Ponte Feiliang, construída sobre um lago do complexo, chama atenção pelo formato singular e pela solução arquitetônica que combina funcionalidade e estética. Já o Salão Xian preserva características da arquitetura de madeira tradicional chinesa e é considerado uma das construções mais representativas de Jinci.

Essas construções mostram como diferentes períodos históricos permanecem reunidos em um mesmo espaço. Embora sua origem remonte à dinastia Zhou Ocidental, o complexo foi sendo ampliado e restaurado ao longo dos séculos, incorporando elementos das dinastias Song, Yuan, Ming e Qing.

Para Liu Huifang, essa continuidade histórica é justamente um dos aspectos que tornam Jinci um lugar singular.

“O Templo de Jinci possui as chamadas ‘Três Maravilhas’. Entre elas estão as esculturas policromadas da dinastia Song e o Manantial Nanlao, uma fonte que continua fluindo há cerca de 3 mil anos sem interrupção.”

Ela também destaca o Cipreste Zhou Bai, uma das árvores históricas mais conhecidas do complexo.

“O Cipreste Zhou Bai também tem mais de 3 mil anos de história. Junto com as esculturas policromadas da dinastia Song e o Manantial Nanlao, forma parte dos chamados ‘Três Tesouros de Jinci’.”

Segundo a jornalista, o valor do templo está na possibilidade de observar diferentes períodos da história chinesa preservados em um mesmo lugar.

“O templo abriga obras emblemáticas como a Ponte Feiliang e o Salão Xian, muito reconhecidas na história da arquitetura chinesa. O que pode ser visto aqui é um patrimônio de 3 mil anos conservado em seu estado original, algo que dificilmente pode ser encontrado em outros lugares.”

Entre os detalhes que chamam a atenção dos visitantes está um dragão esculpido em uma das colunas do Salão Xian, símbolo presente na tradição artística chinesa.

“Eu gosto muito do dragão do Salão Xian, esse dragão que está enrolado na coluna. É um detalhe arquitetônico que me impressiona muito”, afirma Liu Huifang.

Além das construções, esculturas e árvores centenárias, Jinci também preserva inscrições históricas em estelas de pedra. Esses registros ajudam pesquisadores a compreender transformações culturais, políticas e sociais da região ao longo dos séculos.

O complexo funciona como um arquivo vivo da história chinesa, reunindo elementos materiais que atravessaram diferentes dinastias e continuam fazendo parte da vida cultural da província.

A jornalista Liu Huifang. Foto: Bruno Falci / Brasil de Fato

Preservação cultural e a transformação de Shanxi: a história como motor do desenvolvimento

A proteção de espaços como o Templo de Jinci está inserida em uma política mais ampla da China de valorização dos bens culturais.

Em 1961, Jinci foi incluído na primeira lista nacional de importantes unidades de proteção de relíquias culturais da China. Desde então, o complexo passou por diferentes projetos de conservação para proteger seus edifícios, esculturas, jardins e registros históricos.

A preservação cultural tornou-se parte das estratégias de desenvolvimento do país, articulando memória histórica, educação e crescimento econômico. Nos últimos anos, a China tem ampliado políticas voltadas à proteção de cidades históricas, aldeias tradicionais e relíquias culturais, tratando esses espaços como elementos importantes da identidade nacional.

O Partido Comunista da China incorporou a proteção dos bens culturais às políticas nacionais de planejamento, relacionando conservação histórica com desenvolvimento social, educação cultural e valorização da memória coletiva.

Essa orientação também aparece no XV Plano Quinquenal (2026–2030), que estabelece entre suas prioridades a proteção sistemática dos bens culturais, a valorização de cidades históricas e a integração entre cultura e desenvolvimento.

Em Shanxi, essa política pode ser observada na recuperação e manutenção de templos, aldeias históricas e construções antigas, mas também na criação de novos usos para esses espaços, como pesquisa, educação e turismo cultural.

A valorização da história acontece junto com uma transformação econômica da província.

Durante décadas, Shanxi teve sua economia fortemente baseada na mineração de carvão e na indústria pesada. Nos últimos anos, o turismo cultural e as novas energias passaram a ganhar maior espaço no desenvolvimento regional.

Como guia turística, Li Jing acompanha essa mudança.

“Do ponto de vista de uma guia turística, tenho visto grandes mudanças no desenvolvimento do turismo. No passado, Shanxi estava mais focada na indústria da mineração, mas na última década começamos a impulsionar o turismo.”

Segundo ela, essa transformação também fortaleceu a preocupação com a conservação histórica e ambiental.

“O turismo nos ajudou a dar maior importância à proteção da nossa arquitetura histórica e também a melhorar o meio ambiente. Estamos passando de uma economia baseada na indústria pesada para um novo modelo no qual as novas energias e o turismo têm um papel cada vez mais importante.”

Para Li Jing, o aumento do número de visitantes cria novas condições para a proteção desses espaços.

“Quando mais pessoas vêm visitar esses lugares, o governo dá mais atenção ao desenvolvimento do turismo e existem mais recursos para a proteção do patrimônio, assim como para melhorar o transporte e as instalações.”

Ela destaca ainda que o turismo passou a envolver diferentes setores da sociedade local.

“Muitas pessoas, como eu e muitas outras, participam da indústria turística. Em algumas cidades, o turismo faz parte de toda a comunidade e todos participam desse desenvolvimento.”

Mais de 3 mil anos depois de sua origem, o Templo de Jinci continua recebendo visitantes e preservando diferentes camadas da história chinesa.

Para Jing Yu’er, o turismo cultural deve ajudar as pessoas a compreender a relação entre arquitetura, memória e sociedade.

“Quando promovemos o turismo cultural, devemos centrar nossa atenção na arquitetura histórica e nos personagens que fazem parte do nosso passado. Shanxi conta com numerosos edifícios históricos e muitas figuras de grande relevância.”

Entre esculturas da dinastia Song, construções de diferentes períodos, árvores milenares e registros históricos, Jinci mostra como a preservação de um legado construído ao longo de séculos também passou a ocupar um papel no desenvolvimento cultural e econômico da província de Shanxi.

Bruno Falci / Brasil de Fato
Editado por: Gia Matheus Almeida

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