A família Borlenghi é o elo entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o contador Rogério Lourenço Novo, sócio da Contábil Corrêa, empresa que pagou R$ 500 mil ao escritório de advocacia do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Os Borlenghi controlam a Ambipar, multinacional de gestão ambiental que está em recuperação judicial e é investigada pela Polícia Federal (PF) por suspeita de envolvimento nas fraudes financeiras do Banco Master, no âmbito da Operação Compliance Zero.
As conexões societárias ligam a Contábil Corrêa à rede de negócios associada a Daniel Vorcaro.
Rogério Lourenço Novo é conselheiro fiscal da Ambipar desde abril deste ano. Ele assumiu a cadeira nove meses depois de substituir dois diretores da gestora de fundos Trustee DTVM na administração da Copenhagen e Assessoria e Consultoria, empresa que recebeu um total de R$ 57,9 milhões do Banco Master.
Há registro de vínculo entre Rogério Novo e a família Borlenghi ao menos desde 2009. Naquele ano, o contador abriu uma transportadora em sociedade com Tércio Patini Borlenghi, filho do presidente da Ambipar. A parceria foi encerrada em 2016, conforme informações da Junta Comercial de São Paulo.
O presidente da Ambipar, Tércio Borlenghi Júnior, já foi acusado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) de atuar em conluio com Vorcaro.
Uma investigação da CVM anterior à Operação Compliance Zero apontou a existência de uma “relação comercial estreita” entre Tércio Borlenghi Júnior, a Trustee DTVM, o empresário Nelson Tanure e o banco de Daniel Vorcaro. Nos autos, a diretora do órgão, Marina Copola, afirmou que os envolvidos “obviamente se mostram bastante confortáveis em fazerem negócios, apoiando-se mutuamente”.
E é justamente essa rede de relações que conecta as empresas Contábil Corrêa e a Copenhagen e Assessoria e Consultoria, para as quais o escritório de Flávio Bolsonaro emitiu notas fiscais que totalizam R$ 1,5 milhão, conforme revelou o portal Metrópoles.
As duas notas destinadas à Copenhagen, no valor total de R$ 1 milhão, no entanto, foram canceladas. O senador afirmou que optou por não prestar os serviços à empresa. Já à Contábil Corrêa, Flávio Bolsonaro teria prestado serviço de “assessoria jurídica”, conforme descrição da nota fiscal.
“Fiz um trabalho para uma empresa. Fui contratado para isso e prestei serviços advocatícios. Relação completamente legal e privada. Em outra oportunidade, eu não aceitei trabalhar para essa empresa chamada Copenhagen, que supostamente foi usada por [Daniel] Vorcaro para fazer pagamentos a algumas pessoas. Não foi o meu caso. Estou tendo que explicar por que eu não recebi o dinheiro dessa empresa. Cancelei duas notas fiscais”, justificou Flávio Bolsonaro em publicação nas redes sociais.
O ICL Notícias procurou a assessoria de imprensa do senador, que não respondeu às perguntas enviadas. Também entramos em contato com a Ambipar, com o Banco Master e com Rogério Novo, que não deram retorno. A funcionária da empresa Contábil Corrêa que atendeu à ligação da reportagem informou que Novo está de férias e que a empresa não está comentando o caso.
As conexões da Copenhagen e Assessoria e Consultoria
Em menos de um mês após ser aberta, a Copenhagen e Assessoria e Consultoria passou por mudanças na diretoria, alterou o endereço e recebeu aporte milionário do Banco Master.
A empresa foi registrada pelo advogado Luis Guilherme de Souza Silva em novembro de 2024 com capital social de R$ 40. No mês seguinte, teve o comando alterado e recebeu R$ 11,2 milhões do banco de Daniel Vorcaro, que em 2025 transferiu outros R$ 46,6 milhões, conforme mostrou o portal Metrópoles.
Luis Guilherme informou ao ICL Notícias que seu escritório de advocacia constitui previamente algumas empresas, denominadas shelf companies, que posteriormente são vendidas a terceiros, responsáveis por assumir seu controle e sua operação.
Ainda em dezembro de 2024, dois executivos da Trustee DTVM assumiram a direção da consultoria: Artur Martins de Figueiredo e Luis Fernando de Almeida. Ambos mantêm participação em empresas e fundos de investimento ligados à rede de negócios de Daniel Vorcaro sob investigação, entre elas, a Banvox Holding Financeira.
A Copenhagen tem como acionista o fundo Estonia Multiestratégia, que é administrado pela Trustee DTVM. Segundo apuração da Folha de S.Paulo, o fundo pertence ao presidente da Ambipar, Tércio Borlenghi Júnior.
A gestora Trustee DTVM, que prestava serviços ao Banco Master, também foi alvo da Compliance Zero, assim como Artur Martins de Figueiredo e Luis Fernando de Almeida. Além disso, a corretora e Artur Figueiredo foram alvos de operações do Ministério Público de São Paulo e da PF, respectivamente, deflagradas em agosto de 2025, que investigam um suposto esquema de lavagem de dinheiro atribuído ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
Procurada, a Trustee DTVM informou por meio de nota que, como administradora do fundo Estônia Multiestratégia, que investe em ações da Copenhagen e Assessoria e Consultoria, “não tinha ingerência sobre as relações comerciais da empresa nem da definição de qualquer pagamento ou negociação entre a companhia e o Banco Master para ocultar patrimônio de quem quer que seja”.
“Importante esclarecer que Artur Figueiredo exerceu o cargo de administração na empresa Copenhagen, representando o fundo Estônia — prática de governança amplamente consolidada no mercado quando estruturas societárias recebem investimentos de fundos de participações”, destacou a corretora.
Ainda de acordo com a Trustee DTVM, “durante todo o período em que exerceu a função na companhia, a atuação de Artur Figueiredo observou rigorosamente a legislação aplicável, os procedimentos de governança, controles internos e compliance então vigentes”.
O ICL Notícias entrou em contato por e-mail com Artur Figueiredo e com Luis Fernando de Almeida, mas não obteve retorno.
Em 7 de abril de 2025, o escritório de Flávio Bolsonaro emitiu duas notas fiscais de R$ 500 mil cada para a Copenhagen e as cancelou no mesmo dia. Dois dias depois, emitiu uma nova nota, no mesmo valor, em nome da Contábil Corrêa.
Naquele mesmo mês, uma empresa ligada a Daniel Vorcaro fez duas transferências no valor de 1,66 milhão de dólares cada para bancar o filme “Dark Horse” a pedido de Flávio Bolsonaro, segundo planilha publicada pelo Intercept Brasil. Também em abril, o Ministério Público do Distrito Federal instaurou um inquérito para apurar a compra do Banco Master pelo BRB.
Três meses depois, Copenhagen e Contábil Corrêa voltaram a se cruzar. Em julho de 2025, Artur Martins de Figueiredo e Luis Fernando de Almeida deixaram a diretoria da Copenhagen. No lugar deles, assumiu Rogério Lourenço Novo, que à época já era sócio da Contábil Corrêa.
No mês seguinte, Novo também assumiu a diretoria da MN Participações S/A. Assim como a Copenhagen, a empresa foi registrada na Junta Comercial de São Paulo com capital social de R$ 40 e teve como responsável pela abertura o advogado Luis Guilherme de Souza Silva.
Conforme mostrou o jornal O Globo, Rogério já foi acusado pela PF, em 2020, de usar notas fiscais falsas. O caso foi arquivado pela Justiça Federal de Sorocaba (SP) em 2021, a pedido do Ministério Público Federal (MPF), depois que foram realizados os pagamentos dos débitos gerados pelas empresas de fachada.
